Trichet está otimista, mas persiste o nervosismo na zona do euro

Ralph Atkins

Com o aumento dos temores de uma desaceleração econômica acentuada nos Estados Unidos, o euro atingindo altas recordes e o Reino Unido socorrendo um grande banco, será que os efeitos da turbulência no mercado financeiro global em breve atingirão o crescimento econômico da zona do euro?

Jean-Claude Trichet, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), exibe um retrospecto de ser um otimista serial. No final de 2005, apesar do amplo ceticismo, o BCE estava convencido do retorno de um crescimento robusto à região de 13 países e começou a elevar as taxas de juros.

Tal julgamento provou ser acertado. Nas últimas semanas, Trichet reafirmou sua fé nas perspectivas da zona do euro, dizendo ao Parlamento Europeu na semana passada que os fundamentos econômicos permanecem "fortes" e a perspectiva de crescimento "favorável".

Seu acerto dependerá de muitos fatores. O corte de meio ponto percentual nas taxas de juros pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, na terça-feira aumentou os temores de que as exportações na zona do euro possam ser atingidas por um menor crescimento americano.

Uma regra básica mas nem sempre correta é de que a redução de um 1% no crescimento americano reduz o crescimento da zona do euro em 0,2%. Mas isto pode ser um pessimismo exagerado: os Estados Unidos enfrentam um choque doméstico em seu mercado imobiliário e não um choque mais amplo com implicações diretas para outras economias.

As exportações da zona do euro estão se beneficiando com o crescimento do Leste Europeu e da China. Quedas acentuadas no desemprego na zona do euro também estão estimulando sua economia enquanto ela enfrenta a atual tempestade do mercado financeiro.

"Nos Estados Unidos parece que realmente haverá um forte declínio no crescimento, mas na Europa será apenas uma redução de um nível elevado", disse Michael Schröder, chefe do departamento de finanças internacionais do Instituto Econômico Europeu.

Por outro lado, a zona do euro poderia ser afetada por uma desaceleração no Reino Unido -seu maior mercado exportador- caso ocorra uma ampliação da crise envolvendo o emprestador hipotecário Northern Rock.

O problema para Trichet é que a atual crise -que viu o BCE injetar quantias imensas de liquidez nos mercados de dinheiro- pode ter chegado no momento em que o crescimento da zona do euro já estava se desacelerando, graças ao aumento nas taxas de juros ao longo dos últimos dois anos e ao euro mais forte.

A BusinessEurope, a associação empresarial européia, descreveu nesta semana a nova valorização do euro tanto frente ao dólar quanto com base no comércio como tendo atingido "um limiar doloroso para as empresas européias".

As empresas e consumidores europeus também enfrentam maiores custos em empréstimos, forçados pelo aperto global no crédito, o que afetará as decisões de gastos e investimentos.

"Isto poderá ter um impacto mais significativo", disse Erik Nielsen, um economista europeu da Goldman Sachs. "É um ajuste fundamental pelo qual estamos passando e poderá ultrapassar os limites". Ele calcula que um aumento de um ponto percentual nos custo dos empréstimos reduziria em 0,7 ponto percentual o crescimento da zona do euro no próximo ano.

Mas os efeitos são difíceis de calcular e dependerão do tamanho da crise. Os custos de empréstimos da zona do euro não crescerão tanto se, como é provável, o fortalecimento do euro e a ação do Fed nesta semana resultarem no BCE descartando maiores elevações de sua principal taxa de juros -e começar a discutir um corte.

A posição otimista de Trichet também pode visar em parte estimular o sentimento positivo em um momento crucial -uma queda na confiança poderia por si só se transformar em um freio ao crescimento econômico. Mas os efeitos seriam compensados se os preços dos imóveis começassem a cair. Até o momento a desaceleração tem sido gradual nos países onde os preços subiram mais rapidamente.

Qualquer má notícia econômica, entretanto, poderá demorar a surgir. A expectativa é de que os números do crescimento da zona do euro para o terceiro trimestre, que serão divulgados em novembro, mostrarão uma recuperação significativa após um segundo trimestre inesperadamente fraco; a produção industrial parece ter permanecido aquecida nos últimos meses.

Isto pode ter encorajado os instintos otimistas de Trichet -e encorajado o BCE a retomar os aumentos das taxas de juros. Mas o banco central nem sempre acerta. Ele pode ter julgado acertadamente a recuperação que teve início em 2005. Mas um ano antes ele também estava convencido de que a recuperação estava chegando -que acabou sendo breve e eliminada pela valorização do euro.

ALEMANHA Medo de perda de confiança
Peer Steinbrück, o ministro das Finanças da Alemanha, permaneceu otimista com as perspectivas de crescimento de seu país enquanto a crise financeira global se desenrolava. A recuperação econômica do país é liderada pelas exportações -das quais depende quase um quarto de seus empregos. Mesmo em caso de uma desaceleração da economia americana, há uma alta demanda pelos produtos industriais manufaturados e máquinas da Alemanha em outras partes do mundo.

Enquanto isso, o menor desemprego deve sustentar a demanda doméstica. Mas a confiança do consumidor continua sendo um ponto fraco potencial. Não há risco de estouro da bolha imobiliária -os preços dos imóveis alemães se mantêm inalterados há décadas, o crédito imobiliário costuma ser feito com taxas fixas a longo prazo. Mas os gastos dos consumidores permanecem fracos neste ano.

Grande parte do otimismo com o crescimento alemão presume que os consumidores optarão por gastar em vez de poupar. O risco é de que uma perda da confiança em meio à turbulência econômica global possa fazer com que os consumidores alemães evitem novamente grandes compras.

Os reguladores expressaram confiança no sistema bancário do país, mas dois pequenos bancos foram duramente atingidos. Novos incidentes envolvendo instituições alemãs poderiam causar maiores repercussões.

FRANÇA Dividida em torno da previsão de crescimento
O governo francês mantém sua previsão de crescimento de 2,25% em 2007, apesar da forte desaceleração no segundo trimestre e da turbulência nos mercados financeiros nos últimos meses.

Muitos economistas do setor privado, assim como a Comissão Européia e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), não compartilham a confiança do governo. E apesar de Christian Noyer, o presidente do Banco da França, ter dito na semana passada que estava "bem otimista" com o crescimento da França, ele acrescentou que há uma maior incerteza em relação ao efeito do aperto no crédito.

Segundo Philippe d'Arvisenet, economista chefe da BNP Paribas, a França deverá sofrer com o que se tornou um "choque comum", apesar de sua origem americana.

O problema não é tanto o mercado imobiliário francês. Este começou a esfriar antes da atual crise. O aperto no crédito não ajudará, mas grande parte dos empréstimos na França é feito com taxas fixas de longo prazo.

O efeito virá de uma desaceleração no mercado imobiliário americano, que poderia atingir as exportações francesas. A valorização do euro frente ao dólar, mesmo que já tenha atingido seu pico, também afetará as exportações globais francesas. A demanda doméstica francesa provavelmente também sofrerá uma queda após um choque nos mercados de ações e um aperto do crédito.

HOLANDA Taxa de crescimento cairá
A economia holandesa está em boa forma, segundo Maarten Leen, um economista do ING, mas ele alerta que a melhor taxa de crescimento econômico já passou.

O ING estima que o crescimento do produto interno bruto neste ano será de 2,5%, em comparação a 3% no ano passado. Este declínio esperado é atribuído em parte ao inverno relativamente brando, que atingiu a produção de gás natural, à valorização do euro e aos aumentos anteriores das taxas de juros pelo Banco Central Europeu.

Enquanto isso, o mercado imobiliário, que viu um forte aumento nos preços no início da década, fez um pouso suave, com o crescimento dos preços em cerca de 4% a 5% nos últimos anos.

Mas o orçamento holandês anunciado na terça-feira estabelece que, se o aperto do crédito persistir, ele poderá levar a um declínio de 4,4% no preço dos imóveis.

Os lares holandeses apresentam uma taxa de poupança negativa desde 2003, gastando mais do que ganham.

O ING prevê que a inflação passará de 1,7% neste ano para 2,2% no próximo ano, em parte devido aos aumentos salariais.

ESPANHA Pouco incômodo
A Espanha mal notou a turbulência no mercado. A economia deverá crescer aproximadamente 4% neste ano em comparação aos 2,5% da zona do euro, as empresas estão expandindo e contratando e o crédito bancário cresceu em mais de 23% ao ano até junho, segundo o Banco da Espanha.

Miguel Angel Fernández Ordóñez, o presidente do banco central, tranqüilizou os membros do Parlamento nesta semana ao dizer que o sistema financeiro espanhol está sólido como uma rocha.

Ele destacou que os bancos espanhóis dificilmente serão pegos no aperto da liquidez porque grande parte de seus recursos estão em instrumentos financeiros de longo prazo.

Mas nem todos os economistas compartilham da fé do governo na resistência financeira da Espanha.

Manuel Romera, um economista da escola de administração Instituto de Empresa, em Madri, estima que meio milhão de famílias terão problemas para pagar suas hipotecas se as taxas de juros do euro, que dobraram em dois anos, aumentarem ainda mais.

E Lorenzo Bernaldo de Quiróz, um consultor de economia da Freemarket Economics, espera que a turbulência afetará as grandes empresas espanholas que contraíram muitos empréstimos para financiar sua expansão para o exterior.

ITÁLIA Crise ao estilo americano está descartada
A Itália pode estar melhor protegida da turbulência nos mercados internacionais do que concorrentes mais globalmente integrados.

Mas o governo de centro-esquerda já está revisando ligeiramente para baixo sua previsão de crescimento do produto interno bruto para 2008.

Como apontou um alto funcionário, os exportadores italianos tiveram a rara experiência nos últimos cinco anos de lidar com a valorização da moeda, e estão em melhor condição de lidar com maiores desvalorizações do dólar.

Mas a fraqueza na Alemanha, a principal parceira comercial da Itália, terá um efeito direto.

Os economistas do governo dizem que as finanças da Itália estão em uma condição mais saudável do que durante a "emergência" do ano passado. Mas uma desaceleração do crescimento complicaria os esforços da frágil coalizão em concordar no orçamento de 2008, que prioriza a redução do déficit e da imensa dívida pública que custa 70 bilhões de euros por ano em juros.

Os bancos italianos costumam ser conservadores nas hipotecas que oferecem, de forma que uma crise de títulos hipotecários de risco ao estilo americano está descartada.

Mas os preços dos imóveis, que segundo o grupo de estudos Nomisma subiram a uma taxa de 5,6% ao ano na primeira metade de 2007, deverão cair em até 10% no segunda metade do ano segundo algumas previsões.

IRLANDA Nenhum sinal de crash iminente
A economia irlandesa já estava esfriando antes do mais recente aperto de crédito internacional. Os preços dos imóveis, que foram alimentados pelas baixas taxas de juros e forte afluxo de migrantes, estão desaquecendo mas sem sinal de um crash iminente.

Mas alguns investidores internacionais, que venderam ações de bancos irlandeses nesta semana, já parecem ter computado uma recessão irlandesa plena, segundo Scott Rankin, da corretora Davy.

Mas ele apontou que mesmo na previsão mais pessimista -2,7% de crescimento do produto interno bruto em 2008- seria respeitável para a maioria das economias da zona do euro.

Falando nesta semana perante o Parlamento, Bertie Ahern, o primeiro-ministro do partido Fianna Fáil, atacou aqueles que criticam a economia irlandesa. "Por 15 anos nós crescemos a uma média de 7%. No próximo ano poderá ser 4% e algumas pessoas estão dizendo que a economia está arruinada. Quem diz uma coisa destas não sabe de nada". Todavia, seu ministro das Finanças, Brian Cowen, já pensando no orçamento de dezembro, alertou as pessoas a não esperarem grandes aumentos nos gastos públicos. George El Khouri Andolfato

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