Cientistas encontram pouco espaço na nova geração da indústria farmacêutica

Andrew Jack

Andrew Witty está em boa companhia quando se prepara para assumir a presidência do segundo maior grupo farmacêutico do mundo na próxima primavera. A sua recente nomeação para dirigir a GlaxoSmithKline se constitui no sétimo exemplo nos últimos dois anos de uma mudança de diretoria ocorrida nas dez principais empresas farmacêuticas do mundo.

Embora cada um desses casos tenha as suas próprias particularidades, as características da nova geração de líderes da indústria farmacêutica - e a forma como estes foram selecionados - revelam alguns padrões comuns que expõem evoluções e desafios em um setor que passa por uma transição rápida e dolorosa.

"Este é um ambiente tremendamente difícil", afirma Jean-Pierre Garnier, o líder que está deixando o cargo na GlaxoSmithKline, e que descreve a vida de um diretor executivo no setor farmacêutico nos dias de hoje como estar dentro de "um moedor de carne". "É necessário ter flexibilidade e energia. Não é um emprego para pessoas fracas".

A primeira tendência observada nessas substituições é o próprio ritmo sem precedentes das mudanças nas diretorias. Daniel Valella, embora tenha apenas 53 anos, tornou-se o mais velho desse círculo de dirigentes, uma década após ter sido nomeado o primeiro diretor executivo da Novartis, o grupo suíço formado pela fusão da Sandoz e da Ciba-Geigy, em 1996.

Idade, práticas de governança corporativa e escândalos dizimaram desde então a maioria dos seus colegas. Até mesmo Jean-François Deheck, 67, o poderoso líder da Sanofi-Aventis da França - um grupo criado por meio de fusões durante 30 anos - deixou o cargo de diretor executivo no início deste ano em favor do seu vice, Gérard Le Fur, embora tenha permanecido na presidência da empresa.

A rotatividade de executivos graduados reflete parcialmente a confusão crescente no setor. O valor da maioria das grandes companhias farmacêuticas globais despencou nos últimos anos, à medida que cresciam as ameaças representadas pela expiração das patentes e a concorrência dos genéricos, enquanto as inovações para recompor as suas linhas de produção com novos remédios ficaram para trás.

As novas nomeações também proporcionaram uma maneira de transformar culturas corporativas existentes. Quando David Brennan substituiu Tom McKillop, um químico, como diretor executivo da AstraZeneca no início de 2006, isso funcionou como um motivador para que o grupo incrementasse tardiamente as suas atividades na área de biotecnologia, notavelmente com a aquisição da CAT e da MedImmune.

A segunda característica da nova geração de líderes é a relativa juventude. Aos 43 anos, Witty está entre os mais novos do grupo. Mas ele é superado por Severin Schwan, 40, que em julho foi escolhido para ser o novo diretor executivo da Roche da Suíça a partir do ano que vem. Franz Humer, que está abdicando do seu papel de gerência diária na Roche, mas que permanece na presidência, diz que foi importante selecionar alguém de uma geração diferente, com quem ele pudesse manter um bom relacionamento, "mas que não fosse exatamente como eu".

Arthur Higgins, ele próprio nomeado diretor da Bayer Healthcare em 2006, aos 49 anos de idade, argumenta que o grupo de líderes relativamente jovens da indústria farmacêutica tem mais experiência com embates corporativos do que os seus predecessores. "Nós crescemos entendendo que o mundo não é justo e superamos isto", afirma ele.

Uma terceira característica dos novos líderes da indústria farmacêutica é o fato de eles terem um perfil altamente internacional, em um momento no qual os mercados existentes estão sofrendo crescente pressão em termos de preços. A AstraZeneca, cujas raízes tradicionais estão no Reino Unido e na Suécia, passou a concentrar o seu foco no maior mercado de medicamentos do mundo ao trazer Brennan dos Estados Unidos.

A GlaxoSmithKline, cujas bases históricas estão no Reino Unido, voltou a colocar um cidadão britânico no topo ao escolher Witty, mas enfatizou a importância da sua experiência em diversas outras partes do mundo. Tal experiência inclui cargos executivos na África e na Ásia, onde no momento ocorre parte do maior crescimento global em pesquisas e vendas de medicamentos.

Le Fur é francês, assim como a sua companhia, mas ele observa que desde que assumiu o cargo no início deste ano, ampliou substantivamente o tamanho e a experiência da sua equipe executiva. Ele enfatiza o simbolismo expresso no fato de ter feito do inglês uma língua de trabalho mais freqüente nas reuniões de alto nível.

Um quarto aspecto das recentes mudanças é que, embora esses executivos sejam em grande parte oriundos do setor farmacêutico, atualmente poucos - com a exceção de Le Fur - têm uma formação em pesquisa e em desenvolvimento de novas drogas. "Já é muito raro encontrar alguém que seja bom ao mesmo tempo em pesquisa e em desenvolvimento, e, racionalmente, se conseguirmos alguém que seja realmente bom, tal indivíduo deve permanecer nessas áreas", afirma Mark Byford, um executivo da área de biologia da Egon Zehnder, a empresa de consultoria para recrutamento executivo. "Para esses pesquisadores nem sempre é fácil falar sobre mercados de ações no distrito de negócios de Londres".

Brennam tem formação em vendas e marketing. E também Witty, juntamente com uma longa experiência em questões governamentais e lobby político - fatores que provavelmente desempenharão um papel crescente na negociação de preços no futuro. Jeff Kindler, nomeado no ano passado para substituir Hank McKinnell na Pfizer, é advogado, o que demonstra a grande importância da experiência com litígios e regulamentações.

Uma característica final de quase todos os novos diretores executivos é o fato de eles terem sido selecionados dentro das próprias companhias, e não em empresas concorrentes - e muito menos em firmas que não pertencem à indústria farmacêutica. Witty venceu a disputa pelo cargo com dois outros executivos da GlaxoSmithKline, em um processo que pode ter desmoralizado os que perderam, mas enviou uma mensagem de que a diretoria confia nos próprios funcionários da companhia.

Raymond Gilmartin deixou abruptamente a Merck em 2005, poucos meses após a empresa retirar do mercado o analgésico Vioxx - mas não antes de a diretoria dedicar um período para a escolha de Richard Clark, um funcionário que passou a vida inteira na Merck, para substituí-lo.

McKinnell, acossado pelos problemas relativos à queda das ações da Pfizer, à baixa moral interna e às críticas devido a sua elevada remuneração, foi destituído antes do que esperava, mas só depois que Kindler foi considerado o melhor dos três candidatos internos para ocupar o seu lugar.

De maneira similar, Bernard Poussot, o antigo diretor de operações da Wyeth, surpreendeu os observadores com a rapidez do anúncio, feito em setembro, de que ele substituiria Bob Essner, que continua na presidência, mas que passou a sofrer pressões após uma série de contratempos nos últimos meses.

A exceção é a Bristol Myers Squibb, da qual Peter Dolan foi demitido abruptamente um ano atrás por recomendação de um monitor designado por um tribunal, após uma série de escândalos e processos legais. O seu substituto foi James Cornelius, da Guidant, uma companhia de instrumentos médicos.

"De forma geral, é uma vantagem procurar lá fora por alguém, quando o predecessor fracassa", opina Byford. Por outro lado, as seleções internas trazem o risco de alienar aqueles que perdem. Por exemplo, os rivais de Kindler deixaram a Pfizer, e algumas pessoas esperam que pelo menos um dos colegas graduados de Witty façam o mesmo.

O perigo para eles, à medida que procuram novos empregos é que, com a continuidade das fusões e com o fim da atual onda de nomeações nas grandes empresas farmacêuticas, encontrem cada vez menos locais onde possam almejar cargos equivalentes.

Mas com o setor ainda mergulhado em profundos problemas, o potencial para mais reformulações e algumas buscas urgentes por profissionais vindos de fora poderá proporcionar a eles - e a outros que não pertencem ao setor farmacêutico - oportunidades no futuro. UOL

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