Zona do euro testa 'descolamento' dos Estados Unidos

Ralph Atkins*

Peer Steinbrück, o ministro das finanças da Alemanha, costuma provocar risadas quando zomba das chamadas hipotecas "Ninja" -concedidas nos Estados Unidos para aqueles "sem renda, sem emprego, sem bens".

A implicação é clara: a turbulência financeira global foi provocada por um problema no mercado de hipotecas subprime (de risco) americano e seus efeitos se concentrarão naquele lado do Atlântico.

Mas a idéia de que a zona do euro -que cobre os 15 países que usam o euro- é capaz de suportar as tempestades financeiras relativamente ilesa recentemente recebeu um golpe. A confiança econômica por toda a região está em queda, segundo a Comissão Européia. Seus bancos -como seus pares americanos- estão informando perdas extensas, enquanto o consumo está diminuindo.

Assim, o destino da zona do euro está de fato casado ao dos Estados Unidos -e será apenas uma questão de tempo até que a região retorne ao padrão de baixo crescimento econômico visto no início da década? "A preocupação é de que, em conseqüência do que está acontecendo no mundo, a zona do euro retorne a um período prolongado de taxas de crescimento anuais de pouco mais de 1% -o que, dadas as esperanças que tínhamos, é bastante decepcionante", disse Robert Barrie, economista europeu do Credit Suisse.

Crucial para o desempenho da zona do euro será até que ponto poderá colher os frutos das reformas estruturais dos últimos anos, que -ironicamente, dada a atual postura de políticos como Steinbrück em relação à inovação financeira- foram motivadas em grande parte pela pressão dos mercados de capital em rápido crescimento e pelas pressões que exerceram sobre as empresas.

Quando se trata de capitalismo, "nós gostamos de copiar o que é bom e evitar os erros", disse Klaus Regling, chefe da divisão de assuntos econômicos e monetários da Comissão Européia. "A força da Europa é o fato de ainda realizar a tradicional análise de crédito à moda antiga, que não é feita quando o empréstimo é securitizado." Mas será que a zona do euro realmente conseguiu o equilíbrio perfeito -adotar as partes de um sistema baseado no mercado financeiro que estimulam a eficiência econômica, evitando ao mesmo tempo os excessos prejudiciais vistos nos Estados Unidos?

Para o Banco Central Europeu (BCE), que se reunirá na quinta-feira, a resposta para esta pergunta ajudará a determinar o futuro das taxas de juros. Até o momento ele tem resistido firmemente à idéia de cortes, apesar das grandes reduções promovidas pelo Federal Reserve (Fed), o banco central americano, nos custos dos empréstimos nos Estados Unidos. A robustez da zona do euro serve de argumento contra qualquer alívio na política -especialmente com uma inflação a 3,2%, a mais alta em 14 anos. Do ponto de vista do BCE, a crise criada pelos Estados Unidos afetará a zona do euro ao atingir o setor financeiro da Europa e por canais macroeconômicos mais amplos.

Os bancos da zona do euro tiveram recentemente sua cota de manchetes negativas -apesar do UBS, que criou grande parte das más notícias da semana passada, ser baseado na Suíça, fora da zona do euro. Mas o próprio setor financeiro é significativamente menos importante para o crescimento econômico do que, digamos, no Reino Unido.

Na frente macroeconômica mais ampla, não há mercado de hipotecas subprime na zona do euro e a região está em geral menos exposta à queda nos preços dos imóveis do que os Estados Unidos e o Reino Unido -apesar da Espanha e a (muito menor) economia irlandesa estarem claramente em risco. Logo, as maiores preocupações econômicas são custos financeiros mais altos em conseqüência do aperto global do crédito e os efeitos sobre a economia global de uma possível recessão americana -e se as tendências de crescimento na zona do euro podem realmente se "descolar" das tendências americanas.

Os diretores do BCE reconheceram que terão que revisar para baixo as previsões de crescimento para 2008. A integração do comércio mundial inevitavelmente significa que uma desaceleração em uma grande economia provoca um efeito dominó. O aumento do pessimismo econômico poderia ser infeccioso.

Mas ainda é possível que a zona do euro possa crescer neste ano a uma taxa não muito abaixo dos 2% ao ano esperado em dezembro -um ritmo considerado pelos economistas como o mais rápido possível sem pressões inflacionárias excessivas (especialmente dado o crescimento populacional medíocre da Europa). O Fundo Monetário Internacional (FMI) previu na semana passada um crescimento de 1,6% para a zona do euro em 2008, em comparação a 2,6% no ano passado.

Parte do motivo para o relativo otimismo do banco central é a evidente robustez da indústria na zona do euro, especialmente na Alemanha. Apesar dos indicadores de confiança econômica -que no passado ofereceram uma boa indicação da atividade futura- estarem caindo para o setor de serviço e consumidores, os números do setor manufatureiro estão se mantendo.

Apesar do endurecimento dos padrões de crédito dos bancos, os empréstimos contraídos pelas empresas da zona do euro cresceram a uma taxa anual de mais de 14% em dezembro -a mais rápida desde o lançamento do euro em 1999- sugerindo que a indústria continua investindo em peso. Na Alemanha, a federação da indústria de máquinas VDMA informou na semana passada que 2007 apresentou o crescimento mais forte de vendas em quatro décadas e previu que seus membros criariam 10 mil empregos neste ano.

O otimismo da indústria é ainda mais notável dada a força do euro -ela continua apresentando valorização recorde frente ao dólar e com base no comércio- o que tem dificultado a vida para os exportadores da zona do euro.

"Nós não veremos uma recessão na zona do euro porque há muitos fatores de apoio", disse Ulrich Kater, economista chefe do Dekabank, uma administradora de fundos alemã. "O crescimento nos mercados emergentes significa que as exportações continuarão contribuindo para o crescimento da zona do euro. O grande desconhecido é o consumo -mas esperamos um aumento de 1,5% neste ano porque o desemprego apresenta baixas históricas."

Por trás desta melhora no desempenho estão mudanças na paisagem corporativa e bancária. Na Alemanha, não se tratou apenas de talento de engenharia. Desde o início da década, mudanças tributárias permitiram a redução custo-eficaz de propriedades acionárias cruzadas -desatando a ampla rede de elos formais entre empresas e bancos que antes se encontrava no coração do capitalismo alemão amigável, voltado ao consenso.

Ao mesmo tempo, a maior participação acionária de estrangeiros e uma pressão pela lucratividade no setor bancário levaram a um uso supostamente mais eficiente de recursos, um maior encorajamento à reestruturação industrial. "Quem comanda o setor corporativo e o que está na agenda deles -isto mudou significativamente. Se tornou muito mais sobre lucratividade e o retorno que gera", disse Dirk Schumacher, economista da Goldman Sachs em Frankfurt.

Apesar da zona do euro estar atrás dos Estados Unidos na escala e alcance dos mercados financeiros, ela supostamente está mudando mais rapidamente. O lançamento do euro em 1999 estimulou a integração dos mercados financeiros e o aprofundamento deles -a relação entre ativos financeiros e produto interno bruto de uma região- aumentou mais rápido na zona do euro desde 1990 do que nos Estados Unidos, segundo um estudo do Instituto Global McKinsey, divulgado no mês passado. Mercados financeiros mais profundos implicam em melhor acesso ao capital por tomadores de empréstimos e uma maior eficiência econômica. O Reino Unido pode estar fora da zona do euro, mas a Europa tem em Londres um centro financeiro que rivaliza Nova York. O euro se tornou o preferido quando se trata de emissão de títulos internacionais.

"A ascensão dos mercados financeiros do euro é uma das maiores histórias de sucesso na União Européia nos últimos anos", disse Jacob Funk Kirkegaard, pesquisador associado do Instituto Peterson, em Washington.

Ainda assim, não está claro se os benefícios se converteram em melhorias no desempenho econômico. "É preciso lembrar que mesmo reformas estruturais profundas -como as realizadas sob Margaret Thatcher no Reino Unido nos anos 80- levam um tempo considerável para ter um efeito perceptível na produtividade", disse Kirkegaard.

Além disso, muitos economistas argumentam que a zona do euro se beneficiaria em dar um maior papel aos mercados financeiros. O FMI, em Washington, realizou uma pesquisa extensa sobre o desempenho relativo de economias com tipos diferentes de sistemas financeiros. Suas conclusões sugerem que um padrão cíclico de booms e desacelerações -como nos Estados Unidos- nem sempre é ruim, já que sugere que os mercados financeiros estão encorajando a economia a se adaptar mais rapidamente às mudanças, um processo que estimula seu desempenho a longo prazo.

"Há uma troca entre exposição à volatilidade a curto prazo e a capacidade de tirar proveito das oportunidades oferecidas pela globalização", disse Roberto Cardarelli, economista sênior da divisão de estudos econômicos mundiais do FMI.

Em outras palavras, a zona do euro poderia permanecer boa no encorajamento da estabilidade econômica, mas não em avanços rápidos no desempenho. A Alemanha poderia servir como um bom exemplo: ela pode se beneficiar da alta demanda mundial por seus produtos manufaturados, mas um estudo nesta semana do instituto Ifo, com sede em Munique, alertou que a composição das exportações alemãs não reflete a transição a longo prazo de sociedades industriais para baseadas em serviço.

Barry Eichengreen, professor de economia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, argumentou no ano passado em "The European Economy Since 1945" (a economia européia desde 1945) que, apesar da Europa Ocidental ter desfrutado de uma "era dourada" nos anos 50 e 60, as instituições políticas e sociais do pós-Segunda Guerra estavam melhor adequadas para mudança incremental do que para inovação radical. A Europa, ele argumentou, teria que se adaptar a um mundo em mudança mais rápida.

Nas atuais circunstâncias, ele concordou, a zona do euro poderia ser vista como se beneficiando da importação das inovações financeiras dos Estados Unidos; ela se beneficiou do aprendizado com a experiência -evitar hipotecas subprime, por exemplo. Mas "esperar que outro faça a inovação radical e depender de uma adoção seletiva e inovação incremental apresenta tanto custos quanto benefícios". Está longe de claro que a zona do euro está adotando apenas as melhores práticas -como mostrado, por exemplo, pelo socorro a dois pequenos bancos alemães no ano passado e pelo escândalo no Société Générale, o banco francês. Enquanto isso, as empresas tendem a migrar para os mercados onde "vale tudo" em Londres e Nova York.

Jean-Claude Trichet, o presidente do BCE, pede pela inovação financeira contínua -apesar da atual turbulência do mercado. "Nós devemos ter muito cuidado para não tirarmos apressadamente conclusões ou lições do que está acontecendo. E certamente seria totalmente errado dizer: 'Agora queremos eliminar a criatividade e a inventividade nos novos instrumentos financeiros'", ele disse ao "Financial Times" em dezembro.

É um retorno ao crescimento lento do início da década uma perspectiva muito pessimista? Apesar dos mais recentes dados revelarem a continuidade da força em alguns setores, a evidência aponta para uma desaceleração significativa já em curso. O setor manufatureiro alemão pode permanecer resistente, mas o FMI alertou em outubro passado que "a força do euro provavelmente pesará nas perspectivas de exportação de países que carecem de margem suficiente de competitividade, incluindo França, Portugal e Espanha".

O risco é de que assim que o crescimento diminua, ele permaneça desta forma: a experiência passada sugere que a zona do euro é lenta em se recuperar após um declínio. "Em 2000, as corporações americanas e britânicas realizaram a reestruturação necessária muito mais rapidamente do que na zona do euro", disse Cardarelli do FMI.

Mesmo na Alemanha -onde o "descolamento" potencial dos eventos do outro lado do Atlântico supostamente pareceria maior, há um sentimento de cautela entre os industriais. Manfred Wittenstein, presidente da VDMA, disse: "É verdade que a economia global se tornou um pouco mais independente dos Estados Unidos. A Ásia cresceu extremamente rápido e a Europa seguiu seu próprio caminho de crescimento -e apenas 40% de nossos produtos saem da Europa. Mas -e é um 'mas' bem grande- uma recessão nos Estados Unidos teria conseqüências para o mundo todo".

* Reportagem adicional de Richard Milne Na reunião do BCE na quinta-feira, seus diretores poderão encontrar confiança na força da indústria, mas a busca teimosa por crescimento estável poderá ter um custo George El Khouri Andolfato

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