Medidas para manter vivos sérvios isolados em Kosovo

Neil MacDonald

Dejan Baljosevic raramente ultrapassa os espirais de arame farpado em torno do morro sérvio em Orahovac, no oeste de Kosovo, onde 450 moradores, na maior parte aposentados ou desempregados, moram com 20.000 albaneses.

"Alguns de nós vão para partes albanesas da cidade para fazer compras", diz ele. "Mas nunca nos feriados nacionais albaneses, quando as paixões são mais intensas, ou aos sábados, principal dia de compras."
Armando Babani/EFE
Albanesa passa diante de cartaz de apoio à independência de Kosovo
EUROPEUS PREPARADOS PARA O DIA D


Por quatro anos, Baljosevic foi coordenador do governo sérvio para Orahovac e a cidade próxima de Velika Hoca. Ainda há grande tensão na região, depois da guerra de 1998-1999 entre a Sérvia de Slodoban Milosevic e os rebeldes albaneses étnicos que terminou com a intervenção da Otan no lado rebelde.

Um pequeno café perto do alto do morro de Orahovac está fechado, aparentemente esvaziado pelo escritório de coordenação que se tornou o lugar preferido para se tomar uma bebida e bater papo. Somente um quarto dos moradores trabalha, quase todos em empregos do governo de baixo escalão.

Slodoban Samardzic, ministro sérvio para Kosovo, diz: "Tudo deveria ser feito para os sérvios permanecerem em suas terras e morarem seguros como cidadãos da Sérvia" depois que os líderes albaneses declararem independência -medida esperada para daqui a poucos dias.

Dezenas de centros de coordenação, administrados como braços do ministério de Samardzic, mantêm uma ligação vital com Belgrado. Sob um acordo em 2002, o governo da ONU para Kosovo do pós-guerra tentou facilitar a volta de dezenas de milhares de sérvios desalojados, permitindo que Belgrado cuidasse da saúde e educação dos enclaves.

"Essa conversa sobre retorno não é séria", diz Baljosevic. "Quase todos que voltaram eram idosos."

Administradores da ONU dizem que o isolamento sérvio é auto-imposto -por terem boicotado as eleições locais, por exemplo, para evitar admitir Pristina como capital de Kosovo.

Como coordenador local, o sérvio Baljosevic ajudou os outros moradores do enclave perguntando sobre suas necessidades e pedindo os fundos necessários, diz ele. Mas então seu partido perdeu feio nas eleições parlamentares sérvias do ano passado.

Marjan Saric, membro do Partido dos Democratas de Boris Tadic, presidente pró-Ocidente da Sérvia, tornou-se o novo coordenador. O programa de coordenação, contudo, está sob a supervisão de Vojislav Kostunica, primeiro-ministro nacionalista que rejeitou a integração com a União Européia por causa dos planos de Bruxelas de enviar uma missão de "estado de direito" para promover a independência de Kosovo.

O documento que guiará a missão da UE será o pacote revelado há um ano por Martti Ahtisaari, enviado da ONU.

Além de devolver o poder aos sérvios no Norte, o plano de Ahtisaari confere proteção aos enclaves e igrejas distantes. Os líderes albaneses do Kosovo, ansiosos pelo apoio da ONU, concordaram de "incluir Ahtisaari" na nova constituição, apesar da Rússia, aliada da Sérvia, bloquear o plano no Conselho de Segurança da ONU no ano passado.

Belgrado prometeu responder rapidamente quando Pristina declarar a independência, com um possível embargo econômico. Mas a facção mais pró-Ocidente do governo diz que o comércio voltará logo. Mladjan Dinkic, ministro de economia, diz que suas principais preocupações serão infra-estrutura e empregos para as comunidades sérvias deixadas para trás.

O governo sérvio alocou 2,2 bilhões de dinares (em torno de R$ 80 milhões) neste ano para melhorar o padrão de vida em Kosovo, comparados com apenas 20 milhões de dinares no ano passado, segundo a imprensa Sérvia. O orçamento do Ministério de Kosovo aumentou de 3,5 bilhões de dinares para 5,84 bilhões, e há outras fontes de assistência por meio dos ministérios regulares.

O plano de ação sérvio não é dissimilar ao de Ahtisaari. "Não há grande discordância sobre a situação em terra, apenas na forma", disse Dinkic.

Os salários do governo e os bens subsidiados continuarão chegando pelo correio sérvio de Velika Hoca, em comboios escoltados pela Otan. Coordenadores corruptos talvez retirem parte da assistência, mas "todo enclave tem sua própria história", disse Baljosevic. No conjunto, não são piores que os prefeitos das cidades Sérvias, sugere uma autoridade da UE simpática à causa.

Boban Misic, operário demitido em Velika Hoca, diz que ignorará a independência e espera que não haja violência. "Tenho minha casa própria aqui", diz ele, apesar dos "pagamentos mensais de Belgrado para ficar e não fazer nada... tornarem-se uma armadilha".

Alguns de seus vizinhos nesta aldeia sérvia se sustentam vendendo licor de ameixa e lembranças aos soldados da Otan, diz Misic. Velika Hoca caiu à metade de seu tamanho anterior à guerra, apesar de Saric dizer que mais de 70% dos sérvios que ficaram talvez fujam logo depois da independência.

Baljosevic discorda: "Todo mundo que tinha meios para partir já foi." Deborah Weinberg

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