A lição do Brasil para a China: não ignore a desigualdade

Geoff Dyer
Correspondente em Xangai

Vizinho ao meu escritório em Xangai se encontra um dos shopping centers mais luxuosos que já vi. O nome em inglês, Plaza 66, não significa nada, mas em chinês ele é chamado de "Próspero Para Sempre". Apenas as marcas mais exclusivas são autorizadas e nos fins de semana é preciso entrar na fila para entrar na Louis Vuitton.

Eu me lembrei do Plaza 66 em uma recente viagem ao Brasil, quando fui levado à Daslu, a loja mais esnobe do país. É preciso ir de carro até lá -não é possível entrar a pé vindo da rua- e um valet nos conduziu para dentro, onde as mesmas grifes estavam expostas.

Há apenas uma grande diferença. A Daslu freqüentemente é atacada por ser um símbolo do males percebidos do Brasil, o playground de uma elite mimada. Colunistas zombam de sua clientela. Mas o Plaza 66 aparece em muitos relatos da Xangai moderna como um símbolo de sucesso, um ímã para a geração jovem endinheirada, em ascensão.

Eduardo Knapp/Folha Imagem - 8.jun.2005 
Loja Daslu em São Paulo é "o playground de uma elite mimada", escreve o jornalista

Talvez tenhamos entendido o Plaza 66 errado. Voltar de São Paulo para Xangai significa sentir os riscos reais que a China está correndo com seu modelo de crescimento a todo custo. Há distintamente uma sensação latino-americana em relação a alguns segmentos da sociedade chinesa que vai além da audácia dos novos ricos.

No final dos anos 60 e anos 70, o Brasil era uma ditadura e a economia prosperava, enquanto a política social era negligenciada. "Faça o bolo crescer agora, divida o bolo depois", era o mantra. Nos últimos 20 anos, a China adotou uma abordagem semelhante.

Uma das características menos conhecidas do boom da China é a retirada do Estado dos setores de saúde e educação. O atendimento de saúde da era Mao estava longe da perfeição, mas atualmente a maioria dos chineses não possui seguro saúde. Nas áreas rurais, não é difícil encontrar uma família falida por causa de contas médicas. As escolas estão perdendo 1 milhão de crianças por ano porque os pais não conseguem pagar as taxas. Dado como a China é rotulada de sucesso e a América Latina de fracasso, vale a pena notar que na última década, o governo brasileiro gastou duas vezes mais em proporção ao seu produto interno bruto em saúde e educação do que a China comunista.

Igualmente surpreendente, a desigualdade está se aproximando rapidamente dos níveis notórios do Brasil, apesar da redução da pobreza. Usando o coeficiente Gini para medir a distribuição de renda, "zero" significa perfeita e "um" significa desigualdade completa. O número oficial do Brasil atualmente é 0,53 e caindo, enquanto o da China é 0,47 e subindo. (O número dos Estados Unidos é 0,41 e o da Índia é 0,31.)

A desigualdade chinesa não envolve apenas a diferença entre as áreas urbanas e rurais, mas também dentro das cidades. A China urbana tem duas classes de cidadãos: os moradores permanentes recebem serviços sociais subsidiados enquanto os trabalhadores imigrantes pobres freqüentemente pagam o preço integral. A criminalidade está longe dos níveis latino-americanos, mas há sinais de tensão. Os pobres rurais vêem a riqueza apenas na televisão; os pobres urbanos testemunham ao vivo os estilos de vida opulentos.

A América Latina sofreu devido aos pactos confortáveis entre as elites empresariais e os políticos, mas que tipo de elite a China está criando? Nos primórdios da reforma, os empreendedores freqüentemente vinham das margens da sociedade -alguns poucos até mesmo tinham cumprido pena de prisão. Hoje, muitos ostentam suas posições no Partido Comunista em seus cartões de visita. A lista dos ricos da China é dominada por empresários do setor de imóveis e construção, onde lábia para garantir contatos no governo é essencial.

Então, a China está realmente ficando igual à América Latina? Esta seria uma previsão precipitada. As divisões sociais na América Latina sofreram uma escalada nos anos 80, quando suas economias mergulharam em dívida externa, mas as reservas da China são de US$ 1,5 trilhão. A desigualdade latino-americana tem raiz nos séculos de colonialismo e escravidão, não apenas em duas décadas de crescimento desigual. Muitos migrantes chineses possuem terras para as quais voltar caso as coisas não dêem certo na cidade, em vez de ter que apodrecer nas favelas. Mais importante, os líderes chineses estão cientes que a alta desigualdade poderia agravar a inquietação e criar uma subclasse permanente, de forma que ordenaram grandes aumentos nos gastos sociais. Wen Jiabao, o primeiro-ministro chinês, prometeu uma clínica em cada aldeia e acabar com as taxas de ensino para os pobres.

Mas o sucesso não é garantido. As autoridades locais poderiam desviar os recursos adicionais antes de chegarem às escolas e hospitais. As elites políticas e empresariais se oporão a políticas que possam desacelerar a economia. Faça o bolo crescer hoje, redistribua amanhã.

Nós estamos acostumados com a idéia de que a China será a maior economia do mundo, mas o destino do projeto de Wen ajudará a determinar que tipo de sociedade ela criará. Como os latino-americanos podem atestar, mesmo um crescimento rápido pode deixar profundas cicatrizes sociais. George El Khouri Andolfato

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