Bolívia tropeça no caminho para as riquezas do gás natural

Richard Lapper e Jonathan Wheatley em São Paulo
Andrés Schipani em La Paz

Menos de uma década atrás, parecia que o destino da Bolívia estava prestes a mudar. Vastas reservas de gás natural descobertas depois de uma enchente de investimentos privados nos anos 1990 subitamente deram ao país mais pobre da América do Sul a oportunidade de se colocar no eixo da integração econômica da região.

Um novo gasoduto garantiu vendas regulares para o Brasil, grande consumidor de energia. O mercado também parecia garantido na vizinha Argentina. Ao desenvolver usinas de liquefação, que lhe permitem fornecer gás natural liquefeito (GNL), parecia que a Bolívia podia sonhar em abrir mercados mais distantes.

Mas o que poderia ter sido uma marcha constante para a prosperidade tornou-se um tropeço na estagnação e na crise. "Desde setembro [a Bolívia] foi simplesmente incapaz de cumprir seus compromissos", diz Carlos Alberto López, consultor da Cambridge Energy Research Associates e ex-ministro da Energia da Bolívia. "É extremamente improvável que consiga fazê-lo em médio prazo."

Como dois outros países da região que têm reservas de gás significativas -Argentina e Venezuela-, a Bolívia não conseguiu desenvolver seus recursos no ritmo exigido pelos consumidores de países vizinhos, onde o boom de matérias-primas está alimentando um crescimento mais rápido.

Na Bolívia, grande parte do problema deriva da decisão tomada dois anos atrás de nacionalizar o setor.

A medida continua tendo apoio popular. "Evo faz - a nacionalização avança com sucesso", diz um grafite ao lado de uma estrada de montanha que leva a La Paz, referindo-se ao presidente Evo Morales, o esquerdista eleito em dezembro de 2005. Com os preços mais altos hoje, a receita do gás para o governo tem aumentado.

Mas a nacionalização parece estar contendo o desenvolvimento em longo prazo do recurso mais estratégico da Bolívia. Depois das disputas iniciais sobre a nacionalização, as companhias assinaram novos contratos que lhes permitiram trabalhar juntamente com a YPFB, a empresa de hidrocarbonetos estatal, em outubro de 2006.

No entanto, há temores no setor privado de que a polêmica nova Constituição -submetida a aprovação em um referendo- dê às comunidades indígenas o poder de vetar desenvolvimentos. As empresas de gás também ficaram decepcionadas com os padrões de administração da YPFB.

O investimento estagnou. Entre 1996 e 2002, empresas privadas e estrangeiras aplicaram mais de US$ 3 bilhões na indústria, aumentando as reservas comprovadas de 187 bilhões para 1,55 trilhão de metros cúbicos. Em comparação, nos últimos três anos o investimento anual em exploração e produção ficou em torno de US$ 200 milhões.

A indústria está operando hoje perto de sua capacidade. Com uma produção total de menos de 42 milhões de metros cúbicos por dia, a Bolívia é pressionada a suprir a demanda interna e cumprir seus contratos de 30 milhões de metros cúbicos por dia para o Brasil e 7 milhões -aumentando para 27,7 milhões até 2010- para a Argentina.

As autoridades de La Paz negam que as coisas tenham dado errado. "A Bolívia não está sofrendo uma crise de energia", diz um oficial do Ministério dos Hidrocarbonetos. "Ela terá gás suficiente para suprir o mercado interno e entregará pelo menos até o fim do primeiro semestre deste ano o que foi acordado com a Argentina."

Álvaro García Linera, o vice-presidente do país, diz que US$ 960 milhões em novos investimentos estão previstos para 2008. Esta semana ele ameaçou ser "muito duro" com as empresas que não fornecerem o combinado.

Mas Michelle Billig, diretora de risco político na consultoria PIRA de Nova York, diz: "É difícil ver como eles poderão atrair esse tipo de investimento este ano. Seria necessário dar uma meia-volta. Eles teriam de esclarecer quais são os termos dos contratos."

As companhias que operam no setor não parecem muito apressadas. No mês passado, o grupo de gás britânico BG disse aos investidores que a companhia exige "estabilidade política, legal e fiscal" antes de se comprometer com grandes investimentos.

Os líderes brasileiros estão ávidos para manter a estabilidade política na Bolívia e vão garantir que parte do dinheiro seja aplicado, mas a Petrobras, a companhia de petróleo controlada pelo governo brasileiro, provavelmente não investirá muito mais que US$ 60 milhões. Grande parte disso será na manutenção das operações existentes. O Brasil está intensificando seus próprios planos de exploração e produção. Enquanto isso, a América do Sul buscará gás importado -cada vez mais viável economicamente devido aos preços crescentes da energia- para suprir qualquer escassez.

Usinas de regasificação estão sendo construídas em vários países. López admite que essas usinas eventualmente fornecerão mais de 50 milhões de metros cúbicos por dia -exatamente o volume que a Bolívia pretendia fornecer originalmente. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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