Martin Wolf: o socorro ao Bear Stearns marca limite da liberalização

Martin Wolf

Marque a sexta-feira, 14 de março de 2008: foi o dia em que o sonho do capitalismo de livre mercado global morreu. Por três décadas, nós caminhamos para sistemas financeiros regulados pelo mercado. Com sua decisão de socorrer o Bear Stearns, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), a instituição responsável pela política monetária americana, protagonista chefe do capitalismo de livre mercado, declarou o fim dessa era. Ele mostrou com sua ação concordar com o comentário de Joseph Ackermann, executivo-chefe do Deutsche Bank, de que "eu não mais acredito que o mercado possa se curar sozinho". A desregulação atingiu seu limite.

Meu julgamento não é se o Fed agiu corretamente ao salvar o Bear Stearns da falência. Eu não sei se os riscos justificavam as decisões não apenas de agir como credor de último recurso para um banco de investimento, mas também de incorporar os créditos de risco nos livros do Fed. Mas as autoridades envolvidas são pessoas sérias. Elas deviam ter motivos para suas decisões. Elas certamente podem apontar para os riscos do momento -uma crise que Alan Greenspan, o ex-presidente do Fed, chama de "a mais violenta desde o final da Segunda Guerra Mundial"- e o papel do Bear Stearns nestes mercados frágeis.

Meu julgamento é mais sobre as implicações da decisão do Fed. Colocando de forma simples, o Bear Stearns foi considerado importante demais para o sistema para falir. Esta decisão foi tomada, é verdade, às pressas, em um momento de crise. Mas momentos de crise são quando surgem novas funções, notadamente práticas associadas à função de credor de último recurso dos bancos centrais, no século 19.

As implicações desta decisão são evidentes: haverá uma maior regulação dessas instituições. O Fed forneceu uma forma valiosa de seguro aos bancos de investimento. De fato, isto já é evidente a partir do que aconteceu com o mercado de ações desde o socorro: os outros grandes bancos de investimento desfrutaram de saltos consideráveis nos preços de suas ações. Este é um risco moral visível. O Fed decidiu que o "ataque" do mercado de dinheiro contra os bancos de investimento é o equivalente a uma corrida aos bancos comerciais para saque de depósitos. Ele concluiu que, por este motivo, é necessário abrir a torneira monetária em prol dessas instituições. Uma maior regulação deve estar a caminho.

Os lobbies em Wall Street vão, é verdade, resistir a uma regulação onerosa de exigências de capital ou liquidez após o término da crise. Eles poderão ter sucesso. Mas, intelectualmente, a posição deles agora é indefensável. Instituições importantes para o sistema devem pagar por qualquer proteção oficial que recebam. Sua capacidade de desfrutar do lado positivo dos riscos que correm, ao mesmo tempo que dividem com a sociedade em geral o lado negativo, deve ser restringida. Isto não é apenas uma simples questão de justiça (apesar de também ser). Também é uma questão de eficiência. Um cassino desregulado, mas subsidiado, não alocará bem os recursos. Além disso, tal subsídio não se aplica agora apenas aos acionistas, mas a todos os credores. Seu efeito é tornar os custos dos fundos irracionalmente baratos. Estes incentivos excessivamente desalinhados devem ser corrigidos.

Eu lamento o fato do Fed ter considerado necessário dar este passo. Eu antes esperava que a securitização transferiria uma parte substancial do ônus dos riscos para fora do sistema bancário regulado, onde os governos não mais precisariam intervir. Isto provou ser uma ilusão. Uma quantidade imensa de empréstimos de risco, quando não fraudulentos, promoveu finanças igualmente arriscadas, tornando os mercados de securitização altamente arriscados. Isto prejudicou as instituições, notadamente a Bear Stearns, que operava intensivamente nestes mercados.

Mas a extensão da rede de segurança do Fed para os bancos de investimento não é o único motivo para esta crise marcar um ponto de virada nas posturas em relação à liberalização financeira. Também contribui a confusão no mercado imobiliário americano (e talvez em breve em vários outros países desenvolvidos). Ben Bernanke, o presidente do Fed, descreveu grande parte das hipotecas subprime (de risco) dos últimos anos como "nem responsáveis, nem prudentes" em um discurso cujos detalhes são de arrepiar os cabelos.* Esta é a forma do Fed de dizer "criminosas e insanas". De novo, isto não pode acontecer de novo, particularmente considerando que as perdas impostas ao sistema financeiro por estes empréstimos poderão ser enormes. O colapso no preço dos imóveis, o aumento da inadimplência e as execuções hipotecárias afetarão milhões de eleitores. Os políticos não ignorarão seus apuros, mesmo se o resultado for um socorro oneroso aos imprudentes. Mas depois certamente haverá uma maior regulação do que hoje.

Se os Estados Unidos ultrapassaram a marca da desregulação financeira, isto terá implicações globais imensas. Até recentemente, era possível dizer aos chineses, indianos ou à aqueles que sofriam crises financeiras significativas, nas duas últimas décadas, que existia um sistema financeiro tanto livre quanto robusto. Agora não há mais. Será difícil persuadir estes países de que os fracassos no mercado experimentados nos Estados Unidos e em outros países de alta renda não são um alerta. Se os Estados Unidos, com sua vasta experiência e recursos, foram incapazes de escapar dessas armadilhas, por que, eles perguntarão, nós devemos esperar que nos sairemos melhor?

Estas implicações de longo prazo para as posições em prol de mercados financeiros desregulados estão longe de ser o único motivo para a presente turbulência ser significativa. Nós ainda precisamos superar a crise imediata. Um colapso nos lucros financeiros (muito importantes na economia americana), um crash no preço dos imóveis residenciais e um grande aumento nos preços dos commodities são uma combinação que provavelmente gerará uma recessão longa e profunda. Para lidar com este risco o Fed já reduziu suas taxas de juros de curto prazo para 2,25%. Enquanto isso, o Fed também corre o risco de uma fuga global das obrigações denominadas em dólares e um ressurgimento da inflação. É difícil ver um motivo para o rendimento dos títulos do Tesouro americano serem tão baixos, fora um desejo de possuir obrigações do Tesouro americano, o emissor dos títulos denominados em dólar mais seguros.

"Alguns dizem que o mundo acabará em chamas, alguns dizem que em gelo", Kenneth Rogoff, de Harvard, citou recentemente as palavras de Robert Frost ao descrever os riscos da ruína financeira (fogo) e da inflação (gelo) diante de nós.** Estes são tempos perigosos. Também são tempos históricos. Os Estados Unidos estão mostrando os limites da desregulamentação. Administrar esta mudança inevitável, sem jogar fora o que foi conquistado nas últimas três décadas, é um desafio imenso. Assim como passar incólume pela desalavancagem à frente. Mas devemos começar pelo lugar certo, ao reconhecer que mesmo o passado recente é uma terra estrangeira.

*"Promovendo uma Propriedade Sustentável de Imóvel", 14 de março de 2008, www.federalreserve.gov; **Globalização e Política Monetária, 7 de março de 2008, uma conferência sobre globalização, inflação e política monetária, www.banque-france.fr George El Khouri Andolfato

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