Após a revolta dos monges, junta militar de Mianmar subjuga seu povo e o mundo

Amy Kazmin e Richard McGregor

Após reprimir violentamente as marchas antigoverno do ano passado, os generais que governam Mianmar (ex-Birmânia) estão caçando um novo inimigo na dilapidada cidade de Yangun, voltando suas atenções para os ambulantes que vendem DVDs piratas. O objeto de ódio da junta é o recente filme "Rambo IV", no qual o veterano do Vietnã interpretado por Sylvester Stallone enfrenta os soldados birmaneses para salvar missionários presos por auxiliarem as minorias étnicas perseguidas.

Além de confiscar cada cópia que encontra, a junta pressionou os jornais privados birmaneses a publicarem artigos ridicularizando Rambo por estar "tão gordo, com músculos flácidos" e parecer "um lunático" durante as lutas.

Mas fora um filme de ação de Hollywood, nada mais está incomodando os generais de Mianmar no momento. Há seis meses, sua repressão à "revolução açafrão", liderada pelos monges budistas, provocou repúdio internacional e um clamor por pressão por mudança do regime. Hoje, a tempestade de críticas passou. A junta, tão firme no poder como sempre, rechaçou a pressão, deixando claro que pretende prosseguir com seus próprios planos para o futuro de Mianmar, com ou sem aprovação do Ocidente ou da ONU.

Khin Maung Win/AFP - 27.mar.2008 
O chefe da junta militar Than Shwe passa em revista a guarda de honra de Mianmar

Após um breve momento de aparente unidade, os governos ocidentais e asiáticos estão novamente divididos sobre como tratar os generais birmaneses. Apesar de quase todos os governos reconhecerem a necessidade de mudança no Estado empobrecido, eles divergem profundamente em que reformas são mais necessárias -e como melhor promovê-las. "Há uma diferença filosófica entre a Ásia e o Ocidente", disse Thant Myint-U, um historiador e neto do falecido U Thant, o secretário-geral da ONU dos anos 60. "O Ocidente acredita em uma pressão por democracia. Mas os governos asiáticos acreditam em uma mudança lenta e gradual na qual a mudança econômica levaria a uma abertura política e social."

Os pontos de vista asiáticos sobre como lidar com os generais -especialmente os pontos de vista das vizinhas China, Índia e Tailândia- também são tingidos pelo interesse regional nos recursos de Mianmar, particularmente o gás natural. A Tailândia já depende do gás birmanês para gerar cerca de 20% de sua eletricidade; a companhia estatal de petróleo de Bancoc está negociando outro contrato de gás e o país está de olho em projetos hidrelétricos em Mianmar. Por sua vez, a China está discutindo acordos para construir um gasoduto e um oleoduto que atravessariam Mianmar. O oleoduto transportaria o petróleo do Oriente Médio do porto de Sittwe, no próximo Mar de Andaman de Mianmar, até a província de Yunnan, reduzindo a dependência chinesa de transporte pelo Estreito de Malaca, enquanto o gasoduto abasteceria a China com gás natural birmanês.

"Os interesses da China são mercantilistas, não políticos nem estratégicos", disse Zhu Feng, um acadêmico da Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Pequim. "Nós precisamos de alguém que pressione Mianmar sobre a necessidade de mudança, mas não podemos exercer este papel -não é o estilo da China."

Após a repressão do ano passado, quando morreram pelo menos 31 pessoas, os países ocidentais lideraram a condenação. Mas mesmo os amigos tradicionais de Mianmar na Associação dos Países do Sudeste Asiático expressaram desalento com o derramamento de sangue. A China, há muito irritada com o fracasso da junta em desenvolver a economia nacional, também -pelo menos segundo seus próprios padrões reticentes- reprovou sua vizinha.

O Conselho de Segurança da ONU pediu subseqüentemente para que a junta promovesse um diálogo significativo com Aung San Suu Kyi, a defensora da democracia e ganhadora do Nobel que está sob prisão domiciliar em Yangun, sua libertação e a de cerca de 1.800 outros prisioneiros políticos, assim como para tratar das "questões políticas, econômicas, humanitárias e de direitos humanos que preocupam sua população". Pequim, o principal aliado do regime, pressionou os generais a permitirem que Ibrahim Gambari, o emissário especial da ONU, visitasse Mianmar para promover as discussões sobre mudança política.

Mas o mundo foi dividido pela declaração surpresa dos generais sobre a realização de um referendo em maio de uma controversa nova Constituição, que os generais dizem que estabelecerá a fundação para uma "democracia próspera em disciplina", adequada para a sociedade multiétnica de Mianmar. Os birmaneses exilados e grupos de oposição, assim como muitos governos ocidentais, condenaram a Carta -que provavelmente impediria Suu Kyi e outros dissidentes de ingressarem na política- como uma tentativa de meramente legalizar o governo militar. Mas alguns governos do Sudeste Asiático elogiaram o referendo e a promessa de eleições em 2010 como passos bem-vindos na direção de reformas. Wang Guangya, o embaixador da China na ONU, também o chamou de "verdadeiro progresso", apesar de ter reconhecido que "melhorias" podiam ser feitas.

Enquanto a China se prepara para realizar as Olimpíadas, seus temores de uma ocorrência de novos protestos em Mianmar -que acentuaria os laços estreitos da China com o regime- também diminuíram, em meio à calma superficial em Mianmar e seus próprios problemas no Tibete. Mas a abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 8 de agosto, também coincide com o 20º aniversário do início do grande levante anterior em Mianmar, quando soldados mataram milhares de manifestantes desarmados. "A principal preocupação de Pequim é de que não se repitam as ocorrências de setembro (passado) em Mianmar antes das Olimpíadas e especialmente nenhuma manifestação em Yangun que marque o levante de 1988", disse um representante da ONU que monitora Mianmar. "Agora que estão vendo que os generais podem manter as coisas sob controle a curto prazo, há menos interesse em promover mudanças. Eles acham que eles podem encobrir as coisas."

Os americanos e britânicos permanecem concentrados em promover um diálogo político substantivo entre os generais e Suu Kyi, mas parecem dispor de poucos instrumentos para pressionar a junta. Apesar dos ativistas anti-regime pressionarem por mais sanções econômicas punitivas, a rejeição dos governos asiáticos a essas medidas provavelmente tornaria as sanções ocidentais ineficazes, apesar das capitais asiáticas oferecerem poucas idéias alternativas sobre como promover a mudança. "Eles atiram suas mãos para o alto em irritação e dizem, 'o que podemos fazer?', que é justamente o que os militares desejam", disse um diplomata ocidental em Yangun. De qualquer forma, a China insiste que sanções não funcionam. "Se houver sanções pesadas, então a junta não realizará reformas", disse Zhai Kun, do Instituto de Relações Internacionais Contemporâneas da China.

A China parece esperar que uma nova Constituição estabelecerá uma base suficiente para facilitar a mudança de acordo com sua própria economia ou a do Vietnã, que permite um rápido desenvolvimento ao mesmo tempo em que um rígido controle político é mantido. "Se fôssemos intervir nós deveríamos ter uma meta, mas qual é a meta da China?", perguntou Zhang Yunling, da Academia Chinesa de Ciências Sociais. "A meta dos países ocidentais é muito clara. É democracia. Mas para a China é estabilidade."

Ciente destas divisões, os generais de Mianmar parecem confiantes em sua habilidade de rechaçar a pressão externa. "O nível sem precedente de preocupação da comunidade internacional não teve resultado", disse um acadêmico que monitora Mianmar. "Ao demonstrar as opções limitadas disponíveis à comunidade internacional, ela pode ter encorajado a visão entre alguns generais birmaneses de que não podem ser tocados."

De fato, desde os protestos os generais não fizeram nenhuma concessão que pudesse apaziguar os críticos ocidentais, apesar das ofertas de maior ajuda caso os generais promovessem um processo crível de reforma. Os generais também rejeitaram quase todos os pedidos feitos desde setembro pelo Conselho de Segurança da ONU, assim como por Ban Ki-moon, o secretário-geral, e por Gambari.

Com Suu Kyi sob prisão domiciliar, como está há 12 dos últimos 18 anos, a junta caça, prende e processa os dissidentes. As negociações entre ela e os generais não foram a lugar nenhum depois que Than Shwe, o chefe da junta, exigiu que ela primeiro condenasse as sanções. O representante da ONU em Yangun foi expulso em novembro por declarar o óbvio -o aprofundamento da pobreza por trás dos protestos em setembro.

Desde que anunciaram o referendo constitucional, os generais também rejeitaram as ofertas da ONU de consultoria técnica e monitoramento internacional das eleições. Culpando as sanções pelas privações do povo, os generais recusaram a idéia da ONU de estabelecimento de uma comissão para estudar a economia de Mianmar e recomendar políticas para redução da pobreza. Após uma viagem a Mianmar neste mês, sua terceira desde setembro, Gambari expressou frustração com o fato de sua visita não ter obtido "nenhum resultado palpável imediato".

O tempo todo, os americanos e britânicos apelam para que a China use sua influência sobre os generais para exigir mudanças. Gordon Brown, o primeiro-ministro britânico, pressionou o caso junto a Wen Jiabao, seu par chinês, e ao presidente Hu Jintao durante uma recente visita. Mas pouco foi conseguido.

Zhai disse que o Ocidente exagera a influência de Pequim sobre os generais altamente nacionalistas. Mesmo na economia, ele disse, os conselhos da China para eles não são ouvidos. A China até mesmo disse que ela -assim como o restante do mundo- foi pega de surpresa pela decisão de 2005 dos generais de transferência da capital para a nova cidade chamada Naypyidaw.

A China, que compartilha uma longa fronteira com Mianmar, tem motivos para se preocupar com a má governança da junta. Suas empresas são altamente ativas em Mianmar, principalmente na exploração de recursos naturais. Pequim também deseja que o regime aumente o policiamento na fronteira e faça mais para combater os traficantes de drogas. Nos últimos anos, um grande número de imigrantes chineses, principalmente comerciantes inescrupulosos, foi para Mianmar -tirando o lugar dos birmaneses, especialmente nos centros urbanos. Este afluxo, somado com as percepções de que Pequim sustenta a junta, alimentou o ressentimento, aumentando a perspectiva de violência contra os imigrantes caso as frustrações continuem fermentando.

"O sentimento antichinês está crescendo em Mianmar -e eles sabem que os generais não podem protegê-los", disse um diplomata ocidental. Como outro colocou: "Os chineses sabem que este lugar é um acidente aguardando para acontecer". Zhai também reconheceu que "há alguns ressentimentos contra a China entre as pessoas comuns". Mas como outros acadêmicos chineses, ele disse que a importância da China para Mianmar é tamanha que Pequim pode estabelecer fortes laços com quem quer que esteja no poder.

Com os processos da ONU parados, a remodelação política dos generais poderá forçar o Ocidente a repensar sua abordagem. "O referendo e as eleições criarão uma nova realidade política", disse o funcionário da ONU. Thant, autor de "The River of Lost Footsteps: Histories of Burma" (o rio dos passos perdidos: histórias da Birmânia) e também ex-funcionário da ONU, argumenta que a Constituição, independente de seus problemas, poderia fornecer oportunidades para um reengajamento com Mianmar. Ela "criaria uma estrutura de tomada de decisão bem mais complexa -que seria o primeiro passo para sair da ditadura", ele disse. "Se isto se somar a uma reforma econômica e crescimento, haveria o início de um sistema político diferente."

Mas a nova Constituição de Mianmar pode simplesmente significar uma perpetuação do governo militar sob nova roupa -um motivo de preocupação tanto para o Ocidente quanto para a China. "Os chineses genuinamente não acham que o governo daqui seja capaz de promover o tipo de Mianmar que querem ver", disse um diplomata ocidental em Yangun. "A pergunta para eles, e para todos nós, é como chegaremos de onde estamos agora para o Estado melhor administrado, ainda bastante autoritário, que provavelmente se seguiria?" Mas ainda não há muitas respostas. Seis meses após o levante liderado pelos monges, o governo militar de Mianmar está despreocupado enquanto a China e o Ocidente divergem sobre como promover a mudança George El Khouri Andolfato

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