Questão da independência cresce na agenda política da Escócia

Andrew Bolger e George Parker

Após mais de 300 anos de um casamento turbulento, a relação entre a Inglaterra e a Escócia acaba de passar por umas das suas semanas mais turbulentas. Conversas sobre um divórcio estão novamente no ar, enquanto os escoceses discutem se farão um plebiscito sobre a independência.

Gordon Brown, o combativo primeiro-ministro do Reino Unido, está furioso. Como escocês governando um Reino Unido no qual a maioria da população é inglesa, a última coisa da qual ele precisa são novas especulações a respeito do futuro da união. Para piorar ainda mais a situação, esta onda foi iniciada por uma das suas aliadas políticas mais próximas.

Wendy Alexander, líder do Partido Trabalhista no parlamento delegado da Escócia em Holyrood, surpreendeu Brown ao concordar com um plebiscito antecipado sobre a independência. Ela disse que deseja resolver esta questão e afirmou ter certeza que os escoceses votarão no "não", mas a sua atitude vai nitidamente de encontro à política anterior.

A iniciativa de Alexander implica em desdobramentos que vão bem além da Escócia. Ao desafiar Brown, ela fortaleceu a impressão de que o primeiro-ministro está perdendo a sua autoridade depois que o Partido Trabalhista sofreu uma estrondosa derrota nas eleições locais e na disputa pela Prefeitura de Londres. Com as pesquisas de opinião indicando que mais da metade dos eleitores trabalhistas deseja que ele renuncie, Brown depara-se agora com insinuações de que ele não seria capaz sequer de comandar o seu partido no seu próprio quintal. "Ele perdeu o controle sobre o Partido Trabalhista Escocês", declarou David Cameron, líder do oposicionista Partido Conservador.

A aceitação da proposta de um referendo antecipado foi uma meia-volta por parte de Alexander, que anteriormente opunha-se a esta que é a principal plataforma do Partido Nacional Escocês. No ano passado os nacionalistas acabaram, por uma pequena margem de votos, com o controle do parlamento escocês pela coalizão de trabalhistas e liberais-democratas, que governavam a casa desde 1999. Segundo o acordo de delegação de poderes dos trabalhistas, os escoceses são responsáveis por questões domésticas como a educação e a saúde, mas Londres mantém o controle sobre a economia, a defesa e as relações exteriores.

Alexander exibiu uma atitude inesperadamente beligerante quando lhe perguntaram, em uma entrevista na televisão, se ela estaria pronta a apoiar um plebiscito a fim de avaliar o apoio à independência. "Eu não temo o veredicto do povo escocês: façamos o plebiscito", disse ela. No entanto, a sua aposta de alto risco para se apropriar da iniciativa dos nacionalistas está sendo feita a partir de uma posição frágil. Desde que conquistou o poder, o governo do Partido Nacional Escocês desfruta de uma vantagem substancial - e crescente - sobre os trabalhistas na maioria das pesquisas de opinião.

Alexander não encontrou oposição quando se tornou a líder trabalhista em Holyrood em setembro passado, depois que Brown deixou claro que ela era a sua candidata preferida para ocupar o lugar de Jack McConnell, que renunciou após perder o cargo de primeiro-ministro escocês. Mas os seus primeiros meses no cargo foram obscurecidos pelas investigações sobre as contribuições à sua campanha pela liderança parlamentar. Ela admitiu que uma dessas contribuições foi ilegal (nenhuma ação foi tomada). Alexander também se empenhou em fazer frente ao formidável talento retórico de Alex Salmond, o primeiro-ministro e líder carismático do Partido Nacionalista Escocês. Ela tem ficado atrás de Salmond nas pesquisas de opinião por margens embaraçosas.

Portanto, a acuada líder dos trabalhistas na Escócia está desesperada para embaraçar os nacionalistas e expor aquilo que ela vê como a principal fragilidade na posição dos seus oponentes: o fato de que a maioria dos escoceses não quer a independência. Muita coisa depende de como a questão é formulada. Apesar da popularidade do governo do Partido Nacionalista Escocês, a maioria das pesquisas revela que menos de um terço do eleitorado escocês é favorável à independência: segundo uma pesquisa recente este número é inferior a 20%.

Após o desempenho catastrófico dos trabalhistas nas eleições locais deste mês na Inglaterra e no País de Gales, Alexander procurou fazer com que este fracasso não atingisse o seu partido ao norte da fronteira anglo-escocesa - e ela parece ter capitalizado a fraqueza de Brown para modificar a sua posição em relação ao referendo.

Brown viu nisso um ato de ingenuidade política, ou mesmo de traição. Os seus assessores dizem que ele ficou furioso quando Alexander afirmou em uma entrevista à BBC que o primeiro-ministro endossava a estratégia dela. "Existem certas contradições nessa história", afirmou um aliado próximo de Brown. Um outro aliado do primeiro-ministro disse que ela está contando uma mentira deslavada.

Não há motivos para supor que Brown apóie tal medida neste momento, já que isto implicaria no risco de incendiar o sentimento nacionalista entre os 50 milhões de ingleses que moram no Reino Unido, alguns dos quais acreditam que os cinco milhões de escoceses já desfrutam de uma posição política e econômica vantajosa na união.

Brown também demonstra uma disposição obsessiva para minimizar o fato de que ele próprio é escocês e representa uma cadeira parlamentar escocesa, embora governe um país predominantemente inglês. Ele apóia declaradamente a seleção inglesa de futebol (uma tendência bastante incomum para um escocês), e recentemente obteve aprovação nos tablóides ao hastear a bandeira inglesa de São Jorge na sua residência oficial, no endereço 10 Downing Street, no dia do santo.

A mudanças súbita de rumo da líder trabalhista escocesa enfureceu outros partidos em Holyrood, já que ela os persuadiu a participar de uma comissão que avalia outras formas de fortalecer o poder delegado sem recorrer à independência. Nicol Stephen, líder dos liberais-democratas escoceses, alegou que há um "caos completo" no topo da estrutura do Partido Trabalhista. "Ninguém sabe mais o que os trabalhistas defendem, e a liderança está caótica". Annabel Goldie, a líder dos conservadores escoceses, disse: "O que acho surpreendente é o fato de ter sido a líder do Partido Trabalhista Escocês a pessoa que decidiu dançar ao ritmo da música de Alex Salmond, mostrando-se aparentemente preparada, caso necessário, para apresentar uma proposta de fragmentação do Reino Unido".

Na verdade, parecem ser poucas as perspectivas de Alexander de fato apresentar a sua proposta de referendo, porque as regras do parlamento escocês bloqueariam uma legislação em uma área na qual o governo já pretende legislar. O Partido Nacionalista Escocês insiste que manterá a sua posição - descrita no manifesto do partido, no ano passado - de solicitar um plebiscito sobre a independência em 2010, após concluir um "debate nacional" a respeito da questão e exibir vários anos de um governo sólido.

E em 2010 os nacionalistas poderão contar com mais uma carta para jogar em um plebiscito, caso os conservadores vençam os trabalhistas em uma eleição geral no Reino Unido, que deverá acontecer naquele ano. Tal resultado deixaria os trabalhistas desnorteados em todo o Reino Unido e enfraquecidos na Escócia. O partido de Cameron chegaria ao poder quase que exclusivamente como resultado das cadeiras conquistadas na Inglaterra. Atualmente os conservadores só têm uma cadeira na Escócia. O Partido Nacionalista Escocês poderia alegar que a Escócia estaria sendo governada por um governo em Westminster totalmente alienado da opinião da população escocesa.

Os escoceses votaram esmagadoramente nos trabalhistas em recentes eleições para o Palácio de Westminster. Na última eleição, em 2005, a Escócia elegeu 41 parlamentares trabalhistas, contra apenas seis do Partido Nacionalista Escocês. Mas caso os trabalhistas percam poder, membros do partido no parlamento escocês temem que uma onda de rejeição ao trabalhismo possa beneficiar o Partido Nacionalista Escocês nas eleições de Holyrood, que acontecerão em 2011. Alexander teme também que o plebiscito do Partido Nacionalista Escocês possa ocorrer no período de desestabilização logo após uma eventual perda de poder trabalhista em Westminster.

A confusão no seio do Partido Trabalhista proporciona aos conservadores uma oportunidade excelente para atacar a fraqueza de Brown no seu próprio quintal. Mas Cameron irá se deparar com escolhas difíceis na hora de decidir se jogará a carta do "nacionalismo inglês".

David Mundell, o solitário parlamentar conservador escocês em Westminster, afirma que um governo conservador daria atenção aos temores ingleses de que o acordo de delegação de poderes tenha sido feito de uma forma que favorece os escoceses. Os conservadores discutiriam especialmente o fato de os parlamentares escoceses eleitos para Westminster poderem votar, por exemplo, nas questões referentes aos hospitais ingleses, enquanto os parlamentares ingleses não podem fazer o mesmo em relação aos serviços de saúde da Escócia.

"Acreditamos que a situação inglesa no acordo de delegação precisa ser avaliada", disse Mundell. "Na próxima eleição nós assumiremos o compromisso de garantir que os parlamentares ingleses tenham a palavra final no que se refere às questões inglesas".

Segundo uma pesquisa feita por John Curtice, professor da Universidade Strathclyde, em Glasgow, poucos ingleses apóiam o fim da união, mas muitos desejam que supostas desigualdades sejam corrigidas, incluindo o fato de haver uma quantidade desproporcionalmente grande de gastos públicos na Escócia.

Os números do Tesouro referentes a gastos públicos identificáveis no período 2006-2007 revelam que os escoceses receberam individualmente uma média de £ 8.623 (US$ 16.800), comparados aos £ 7.121 (US$ 13.900)para cada inglês. Os gastos públicos são mais elevados do que na Inglaterra em parte devido a uma fórmula que faz com que, quando há qualquer aumento de gastos na Inglaterra, quantias extras são alocadas para os governos da Escócia, do País de Gales e da Irlanda do Norte. Esta fórmula está sendo reavaliada pelo Tesouro.

"Se a União acabar, isso terá ocorrido por causa dos ingleses, e não devido aos escoceses", prevê um ministro trabalhista.

Parece ser bastante improvável que a união de 301 anos de idade siga o caminho da Tchecoeslováquia, que se dividiu em duas entidades distintas em 1993. E a relação não é tampouco eivada de ressentimentos como ocorre no caso dos cidadãos de língua francesa e os de língua holandesa na Bélgica. Mas Salmond, do Partido Nacionalista Escocês, acredita que a independência seja um sonho concretizável. E um sonho que recebeu um ímpeto maior devido à mudança de postura de Alexander.

Ao ser indagado se nos últimos dias os trabalhistas o deixaram um passo mais próximo de realizar a "ambição de uma vida inteira", Salmond respondeu: "Quer uma resposta direta? Sim.". Líder trabalhista escocesa contraria Gordon e diz aceitar plebiscito sobre independência UOL

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