A pobreza, e não a xenofobia, foi a causa da explosão de violência na África do Sul

Alec Russel*

Winnie Madikizela-Mandela está certa. Muitos leitores poderão ficar chocados com estas palavras. Aqueles dias em que ela era conhecida como a Mãe da Nação devido ao seu desafio aguerrido ao apartheid parecem muito distantes. Foi só nesta semana que houve um lembrete sinistro do momento em que o seu halo começou a se desvanecer, quando o "necklacing" (literalmente, "pôr um colar") - a prática de colocar um pneu cheio de gasolina no pescoço de um indivíduo e, a seguir, incendiá-lo - retornou à África do Sul durante as rebeliões antiimigrantes que varreram a região de Johannesburgo. Em 1985 ela apoiou de forma infame esta prática, alegando que era um meio de acabar com o apartheid.

Desde então ela foi acusada de seqüestro e de ser co-autora de agressão, fraude e roubo (as penas foram suavizadas após apelações), e se metamorfoseou na suprema populista Gucci. Mas nesta semana a ex-mulher de Nelson Mandela fez lembrar que ela, mais do que a maior parte dos indivíduos do governista Congresso Nacional Africano, conhece o clima social da região. Ela não só visitou a cidade de Alexandra imediatamente após a ocorrência dos primeiros ataques contra estrangeiros naquela localidade - demorou mais de uma semana, mais de 40 mortes e a transformação de cerca de 20 mil estrangeiros em refugiados para que um ministro tomasse essa iniciativa simples -, como também repeliu as explicações que muitas autoridades apresentaram ao comentar as causas da carnificina.

"O mais trágico é que a xenofobia está sendo usada como explicação para a crise", disse ela. "Esta é uma explosão causada pela falta de condições econômicas. As pessoas dizem que as condições em que vivem conduzem a este tipo de violência. Não se trata de xenofobia".

Rodger Bosch/AFP - 23.ma1.2008 
Homem aquece as mãos em uma favela de Ramaphosa, próximo a Johannesburgo

Essop Pahad, assessor do presidente Thabo Mbeki, acredita claramente que esta afirmação é um pouco simplista. Ele sugeriu que grupos populistas de direita fomentaram a violência. Outras autoridades mencionaram uma "terceira força", uma expressão usada no passado para designar os grupos de extermínio da época do apartheid. Isso é tolice. Embora não haja dúvida de que existam racistas que verão as imagens da balbúrdia nas primeiras páginas de jornais de todo o mundo como uma comprovação de suas idéias, segundo as quais o governo da maioria está fadado ao fracasso, os argumentos referentes a conspirações de direita são desmentidos por aquilo que diversos moradores das cidades nas quais a violência explodiu me disseram nas últimas três semanas. A mensagem fundamental é que os imigrantes vindos de outros países da África geraram uma pressão insuportável sobre os pobres, que disputam os empregos escassos e os serviços públicos. O que ocorreu nesta semana foi um grito de angústia dos miseráveis. Foi um grito que disse, "não se esqueçam de nós".

É claro que Winnie, sempre de olho nos aplausos, não age desinteressadamente. Ela detesta Mbeki e é uma aliada próxima de Jacob Zuma, o antigo populista que derrubou o presidente do cargo que ocupava como líder do Congresso Nacional Africano e que provavelmente será o sucessor de Mbeki.

Mas, independentemente do que diz o governo, ela articulou aquilo que precisa ser a lição crítica que ficou da carnificina, caso não se deseje uma repetição da tragédia, e caso a Rainbow Nation não queira que a sua reputação e a confiança internacional nas suas perspectivas futuras sejam atingidas por novos golpes.

Em meados da semana, o entrevistador de um programa de rádio irlandês me perguntou se a desagregação pós-apartheid não teria começado para valer. Eu corri em defesa do país. De fato foram duas semanas terríveis após seis meses sombrios para a imagem do país; houve uma crise de poder provocada em grande parte por um planejamento deficiente; há grandes incertezas quanto a Zuma. Mas é injusto afirmar, como muitos comentaristas estrangeiros apressados fizeram, que nada mudou para os negros desde o fim do regime racista branco. Embora muitos ainda vivam em condições deploráveis, há um programa para fornecer água, eletricidade e moradias a áreas que anteriormente não tinham nada disso. Existe também uma crescente classe média negra.

Mas, sem dúvida, há uma necessidade urgente de mudanças rápidas na política, na prática e na atitude do governo. O fornecimento de serviços básicos às cidades periféricas continua precário. Lesetja Kganyago, o respeitado diretor-geral do Tesouro, lamenta profundamente a ineficiência das autoridades das províncias que não estão distribuindo os frutos das políticas do seu ministério.

"O problema não é dinheiro", diz ele . "É uma questão de administração". Existe uma arrogância preocupante no partido após 14 anos no poder. Um conselheiro do Conselho Nacional Africano que eu entrevistei nesta semana começou a vociferar quando um morador - e eleitor - o questionou a respeito do desempenho do partido no governo. "Eu conheço a verdade, você não" gritou ele, após acusar o seu interlocutor de ser "perigoso" por sugerir que o Conselho Nacional Africano poderia fazer mais.

O flexível Zuma será um melhor comunicador do que Mbeki. Mas isso é apenas o começo. O Conselho Nacional Africano precisa agora agir rapidamente: formular uma política para os cerca de cinco milhões de imigrantes do país, liderar a região para que esta adote uma postura mais agressiva em relação ao Zimbábue, até mesmo para conter o êxodo de imigrantes daquele país para a África do Sul; concentrar esforços no atendimento das necessidades dos pobres e rechaçar as pressões da esquerda cada vez mais poderosa no sentido de modificar as políticas macroeconômicas de livre mercado de Mbeki; e fazer muito mais no sentido de enfrentar a epidemia de crimes violentos que faz com que uma quantidade cada vez maior de trabalhadores qualificados vá para o exterior. As autoridades do Conselho Nacional Africano deveriam também deixar de pensar em negócios empresariais - ao que parece, a posição preponderante de muitos membros do governo e do partido - e se focarem mais nas suas responsabilidades.

Aqueles que apóiam Zuma dizem que tudo isso ocorrerá. E, no entanto alguns desses apoiadores já falam abertamente que está chegando a vez deles de ganhar contratos empresariais. Caso isso ocorra - e Zuma tem muitas dívidas políticas - , os gritos de angústia serão novamente ouvidos, mais altos do que antes, bem como a voz da sempre jovem Winnie, além das questões sobre a fragmentação social. Nesta semana o que soou foi um sinal de alerta, e não um toque fúnebre. Isso é algo que exige atenção.

*Alec Russel é o chefe da sucursal do Financial Times em Johannesburgo. UOL

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