Por que a revisão por pares está sob pressão no mundo acadêmico?

Clive Cookson e Andrew Jack

Quando os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos revelaram, na semana passada, planos de gastar US$ 1 bilhão ao longo dos próximos cinco anos em "pesquisa transformadora de alto risco, alto impacto", isso marcou o mais recente esforço de financiadores acadêmicos e editores de lidar com a crescente preocupação em torno de um processo no centro do progresso científico: a revisão por pares.

Pelo menos desde que o médico sírio Ishaq Bin Ali Al Rahwi descreveu como um conselho médico local verificava o cumprimento pelos médicos dos padrões de tratamento há mais de mil anos, a revisão por pares exerce um papel na ciência. Ela se tornou cada vez mais importante nos últimos anos como meio de racionar os financiamentos e publicações diante de uma proliferação de pesquisa acadêmica.

A revisão por pares guarda os portões em ambas as extremidades do processo de pesquisa -na obtenção de dinheiro para execução de um projeto e na publicação dos resultados em uma revista. Especialistas no campo, trabalhando individualmente ou em painéis, identificam as falhas e avaliam a importância do trabalho; a identidade dos revisores é normalmente desconhecida pelo autor.

Mas o processo está sob ataque dos críticos, que dizem ser ineficaz como filtro de pesquisa ruim, ao mesmo tempo que perpetua trabalhos previsíveis às custas de pensamento mais criativo. A longo prazo todos nós sofremos, argumenta Don Braben, da University College London, porque o crescimento econômico depende de avanços científicos imprevisíveis.

Em resposta às restrições percebidas do processo, pesquisadores estão usando a Internet para abrir novos caminhos de publicação que simplificam a revisão por pares -ou acaba com ela- enquanto várias das maiores entidades mundiais de financiamento científico estão promovendo mudanças radicais na forma como avaliam as propostas de pesquisa.

Na semana passada, 25 cientistas renomados escreveram ao "Financial Times" lamentando o fracasso das agências de financiamento em apoiar pesquisa "nas margens, onde descobertas imprevisíveis e transformadoras são feitas". Eles pediram por um fundo global para apoiar cientistas inspirados, livres da revisão por pares.

Então a Sociedade Real, a academia nacional de ciências do Reino Unido, disse estar preparando um projeto piloto para um fundo de pesquisa "céus azuis", que evitaria as restrições da revisão por pares convencional ao empregar um painel generalista para considerar propostas de qualquer campo, com base em sua novidade e potencial de abrir novas áreas de ciência e tecnologia.

Recentemente, a Fundação Bill & Melinda Gates, a caridade mais rica do mundo, revelou um "processo ágil, de concessão acelerada de financiamento", no valor de US$ 100 milhões, chamado Grand Challenges Explorations. "Nós precisamos contornar a revisão por pares -ela é uma anátema para a inovação", disse Tachi Yamada, o chefe de saúde global da fundação. "A inovação não tem pares, por definição."

Críticas à revisão por pares na subvenção e publicação não são novas. Drummond Rennie, professor de medicina da Universidade da Califórnia, San Francisco, escreveu um artigo no "Journal of the American Medical Association", em 1986, que provocou o nascimento de toda uma subdisciplina de análise da revisão por pares, com conferências regulares e uma série de trabalhos.

Ele escreveu na época: "Parece não haver estudo fragmentado demais, nenhuma hipótese trivial demais, nenhuma citação literária tendenciosa demais ou egotista demais, nenhum projeto deturpado demais, nenhuma metodologia atrapalhada demais, nenhuma contradição, nenhuma análise em causa própria, nenhum argumento circular demais, nenhuma conclusão insignificante demais ou injustificada, e nenhum erro de gramática ou sintaxe ofensivo demais para que um trabalho seja publicado".

"A revisão por pares é uma caixa preta um tanto arbitrária", concordou Richard Smith, autor de um livro sobre os fracassos dela e ex-editor da "BMJ", a revista médica britânica. "Ela é muito lenta, cara, uma loteria considerável, completamente sem esperança de detectar erros e fraude, e há evidência de parcialidade."

Ele disse que a análise por editores e pares reforça a "parcialidade na publicação", com artigos alegando que um teste clínico é eficaz sendo publicado, enquanto aqueles que mostram um resultado negativo não. Isto por sua vez cria um problema para a "meta-análise", que tenta entender se um medicamento funciona ao combinar todos os dados.

O dr. Smith agora edita a recém-lançada revista online "Case Reports", que fornece revisão mínima pré-publicação de artigos de medicina. O critério clássico de revisão por pares de originalidade ou importância são evitados, com todos os artigos submetidos sendo aceitos se forem compreensíveis e completos. "Nós simplesmente não começamos a usar as possibilidades da Internet", ele disse.

Outras revistas seguiram uma rota semelhante, como várias publicadas online pela Public Library of Science (Plos), que avalia o conteúdo técnico, mas não julga a importância do novo estudo.

Mas poucos estão dispostos a abandonar totalmente o processo. "A revisão por pares é o padrão ouro", disse Mark Patterson, diretor de publicação da Plos. "Ela ainda é o melhor processo que temos para julgar o rigor do processo científico. Há melhorias de eficiência que precisam ser promovidas, mas não se pode restringi-la caso queira publicar ciência séria."

O que um crescente número de revistas faz online -incluindo a "Plos One" e "BMJ" por meio de suas "respostas rápidas"- é encorajar os leitores a comentarem após a publicação, fornecendo uma forma de avaliação e revisão por pares retrospectiva.

Muitos cientistas em física, matemática e assuntos relacionados vão ainda mais longe. Eles postam os trabalhos sem qualquer revisão por pares no arXiv.org, um arquivo internacional de trabalhos eletrônicos mantido pela Universidade de Cornell, Nova York, que agora contém quase 500 mil "e-prints" -e então permite que outros os contestem.

Mas John Dainton, um professor de física da Universidade de Liverpool, reconheceu: "Às vezes nós queremos a publicação mais rápida possível, mas sempre há um certo orgulho em publicar nas revistas mais citadas, mais renomadas".

Linda Miller, editora-executiva da "Nature", concordou que os cientistas continuam buscando a publicação em revistas de prestígio visando melhorar sua própria posição. Eles também se concentram na leitura das mais renomadas, precisamente porque o tempo deles é precioso. "Você deseja ser direcionado, usar as melhores revistas como um filtro", ela disse. "Eu sou editora há mais de 20 anos e já lidei com muitos trabalhos. Cada um deles foi melhorado pela revisão por pares."

Apesar de muitos editores, autores e leitores relutarem em dispensar totalmente a revisão por pares, há várias formas mais práticas em discussão para melhorar o processo. A primeira é eliminar o máximo possível a parcialidade das revisões, que pode recomendar a não publicação por causa de rivalidades pessoais -ou por esnobismo em relação a pesquisadores que trabalham fora das instituições mais prestigiadas.

Algumas revistas como a "BMJ" identificam os nomes dos revisores em um esforço para responsabilizá-los, apesar disso poder impedi-los de serem francos para não correrem o risco de "retaliação" dos autores. Outras tentaram revisões "duplo-cego" que ocultam a identidade de ambos os lados, maior discussão entre os revisores, feedback ou mesmo uma cotação de seus comentários.

Uma segunda preocupação é a velocidade da publicação. Quando seis voluntários que testavam um medicamento experimental no Northwick Park Hospital de Londres sofreram efeitos colaterais severos em março de 2006, houve um enorme interesse em entender o que saiu errado. Mas foram necessários cinco meses até que os detalhes viessem a público, quando os médicos que salvaram as vidas deles publicaram suas experiências no "New England Journal of Medicine" -um trâmite relativamente rápido no meio das publicações acadêmicas.

Patterson argumenta que as demoras são freqüentemente resultado de "ineficiência editorial" tanto quanto de falhas na revisão por pares: um esboço de artigo pode ser submetido a uma revista de prestígio, rejeitado e então oferecido em seqüência para outras, cada uma com novos revisores atrasando ainda mais a publicação.

A mesma coisa acontece cada vez mais com os pedidos de verbas que são rejeitados por uma agência de financiamento, alterados ligeiramente e então enviados para uma cadeia de outras agências. A solução aqui deve ser uma maior colaboração e referência entre revistas e financiadores, e maior compartilhamento das mesmas revisões para acelerar o processo.

Uma questão final é a capacidade dos revisores de assegurar tanto a alta qualidade quanto as opiniões rápidas. "Um motivo para todo o sistema estar rangendo é a 'fadiga do árbitro'", disse Alf Game, vice-chefe de ciência do Conselho de Pesquisas em Biotecnologia e Ciências Biológicas (BBSRC) do Reino Unido. Na maioria dos campos, o número de propostas de pesquisa e trabalhos científicos está aumentando mais rapidamente do que o número de cientistas ativos qualificados a revisá-los. Os conselhos de pesquisa britânicos recebem mais que o dobro de propostas que recebiam há 20 anos.

"A demanda por árbitros está aumentando", disse o dr. Game. "O BBSRC é uma entidade de financiamento relativamente pequena, mas precisamos de 10 mil comentários individuais de revisão a cada ano para avaliar 2.500 pedidos. E temos que pedir para muito mais pessoas comentarem antes de conseguirmos uma que aceite."

Atualmente a probabilidade é muito maior dos árbitros trabalharem na mesma área estreita que o autor da proposta de pesquisa ou trabalho do que há 20 anos, e eles têm interesse em manter contato com as atividades dos concorrentes. Mas estes árbitros com interesses próprios não podem ter uma visão ampla e objetiva do trabalho.

Como os fundos são limitados, alguma avaliação das pessoas e propostas é necessária. A questão é como fazê-la. "A chave é usar a revisão por pares mais criativamente, porque não dá para escapar da necessidade de fazer escolhas", disse Mark Walport, diretor do Wellcome Trust, a maior caridade de pesquisa do Reino Unido. "Uma coisa é dar aos pesquisadores mais tempo. Nós prolongamos a duração de nossas bolsas para cinco anos. O importante então é escolher os melhores cientistas, com base na empolgação que exibem na entrevista em vez de detalhes de seus projetos propostos."

O Instituto Médico Howard Hughes acabou de dedicar US$ 600 milhões para dar a 56 cientistas "a oportunidade de trabalhar em seus planos de pesquisa mais ambiciosos, mais arriscados", após a realização de sua primeira competição aberta, baseada na Internet. Thomas Cech, seu presidente, disse: "Eles receberão um financiamento irrestrito de longo prazo de cerca de US$ 1 milhão por ano, livre de exigências de revisão."

Até mesmo a União Européia, antes notória por seu processo burocrático de financiamento, apresentou um procedimento de revisão simplificado para o novo Conselho Europeu de Pesquisa, que gastará 7,5 bilhões de euros ao longo de sete anos para apoiar a excelência científica independente da nacionalidade.

"Nós tivemos que descartar muita da antiga bagagem e estamos sendo experimentais, em vez de aceitarmos a forma como as coisas eram feitas no passado", disse Fotis Kafatos, o presidente do Conselho Europeu de Pesquisa. "Por exemplo, nós insistimos para que nossos painéis de revisão fossem pequenos e generalistas. Há um senso geral entre os chefes das maiores organizações de pesquisa (...) de que o processo de revisão por pares é conservador demais."

Após mais de duas décadas debatendo a revisão por pares, o prof. Rennie disse que a questão é muito mais complexa do que ele originalmente pensava. Ele acredita que ainda não surgiu uma alternativa melhor, nem há prova de que ela impeça a inovação. "Eu sou a pessoa mais cética, mas o que faríamos se não tivéssemos a revisão por pares?"

A revisão por pares pode não ser imortal, e pode estar experimentando com formatos diferentes, mas parece que guardará os portões da pesquisa ainda por algum tempo. George El Khouri Andolfato

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