O campo dos sonhos: como as sanções atrapalham as ambições de gás do Irã

De Anna Fifield e Najmeh Bozorgmehr

À medida que sobem os preços da energia, o mundo se pergunta onde eles vão parar. De onde virá a oferta no futuro? O Irã, que dispõe da segunda maior reserva de gás do mundo -além de quantidades imensas de petróleo- é a aparente resposta.

O país, em teoria, deveria ser um ímã para companhias de petróleo internacionais, que estão cheias de dinheiro e à procura de formas de restaurar suas reservas em declínio. Mas o ambiente geopolítico, no qual o Irã está sendo marginalizado por causa de sua recusa em suspender o programa nuclear, impede que isso aconteça.

Pars Sul, o maior campo de gás do mundo, é compartilhado por Irã e Qatar, mas o desenvolvimento no lado iraniano está praticamente parado, graças ao embargo liderado pelos Estados Unidos à realização de negócios com o Irã. Nesta semana a União Européia aumentou a pressão, concordando em impor medidas financeiras mais duras contra Teerã.

Para o Irã, as sanções representam um dilema. Teerã deseja mostrar a Washington e outras capitais ocidentais que nenhuma potência estrangeira pode impedir o país de extrair o máximo de seu próprio gás que precisar, mas ao mesmo tempo precisa lidar com o fato de que as sanções causam um impacto.

As empresas americanas estão proibidas de qualquer envolvimento no setor de energia do país. Os grupos internacionais não-americanos que investiram no Irã estão, por ora, procedendo de forma vagarosa. Eles estão tentando evitar avançar com investimentos que poderiam enfurecer Washington, ao mesmo tempo que tentam evitar uma retirada, o que irritaria Teerã.

Este ato delicado de equilibrismo é exemplificado pela decisão de Shell e Repsol, no mês passado, de recuar no desenvolvimento daquela que é conhecida como fase 13 de Pars Sul. A falta de novo investimento por parte das grandes empresas de petróleo significa que o Irã precisa lidar com empresas pequenas, relativamente inexperientes, que estão desesperadas atrás de negócios -empresas de países como Áustria, Croácia e Polônia.

Afinal, quem perde mais?
Com o desenvolvimento de Pars Sul avançando em marcha lenta, o Irã não está medindo esforços para apresentar isto como um prejuízo para o mundo. "O gás está sob o solo, de forma que o usaremos depois. Nossa parcela no prejuízo é de 10%, o prejuízo do mundo é de 90%", disse Kamal Daneshyar, chefe do comitê de energia do parlamento iraniano. "As políticas americanas fazem com que o mundo perca o equivalente a 4,1 milhão de barris de petróleo por dia. Este é o principal motivo por trás do aumento nos preços do petróleo -o motivo para a oferta ter caído."

Mas, apesar de tudo, o Irã está ansioso em desenvolver seu campo para fornecer gás para uso doméstico -para aquecimento, usinas elétricas, indústria petroquímica e outros projetos. No estado atual, certamente não há excesso de oferta.

Durante seus quatro meses de inverno, o Irã usa três vezes mais gás do que consome nos outros oito meses do ano. Os 450 milhões de metros cúbicos de gás que produz por ano são suficientes apenas para o consumo doméstico sob circunstâncias normais. No inverno passado, quando fortes nevascas coincidiram com uma disputa com o Turcomenistão em torno do preço do gás importado, as fábricas e repartições do governo fecharam e dezenas de pessoas morreram. Isto concentrou a atenção de muitos políticos na necessidade de explorar os recursos de energia do Irã para consumo doméstico. "É importante usarmos nosso gás para consumo doméstico e comercial", diz Daneshyar.

Para a Europa, a falta de oferta por parte do Irã a deixa mais dependente da Rússia, que tem usado suas reservas de energia como instrumento político.

Uma questão de tempo
Aqueles corajosos o suficiente para realizar negócios com o Irã -como a EGL da Suíça, que, em março, assinou um acordo de fornecimento de gás por 25 anos no valor de 27 bilhões de euros- provocam a ira de Washington. Algumas poucas das fases iniciais de Pars Sul, desenvolvidas para oferta doméstica, estão em produção, mas mesmo elas estão anos atrasadas em seu cronograma. A maioria das demais empresas de energia internacionais apenas aguardam.

Como o Irã representa uma imensa oportunidade inexplorada de energia, elas não podem facilmente dar as costas aos seus investimentos iniciais e abrir mão de uma vantagem, apesar das sanções. "Nós temos que estar aqui agora", disse um executivo do setor de energia, se recusando a ser identificado devido à sensibilidade política de fazer negócios com o Irã. "Se as empresas americanas vierem para cá daqui cinco anos, elas não conseguirão se beneficiar (...) porque não estarão firmemente enraizadas".

A resposta das grandes companhias de petróleo é, portanto, tentar ganhar tempo. Quando a Shell e a Repsol se retiraram da fase 13, ambas não mediram esforços para tratar o assunto como uma "substituição", e não uma retirada, deixando implícito que estavam optando por trabalhar em outras fases.

O Irã está confiante de que os grandes grupos de petróleo algum dia baterão à sua porta. "É possível ignorar o Irã, um país que tem uma posição única em gás e petróleo?" perguntou Hojtollah Ghanimi Fard, chefe de assuntos internacionais da Companhia Nacional Iraniana de Petróleo.

"Eu acho que todos aqueles envolvidos na indústria internacional de petróleo, na parte anterior ou posterior da cadeia produtiva, sabem que o Irã não pode ser ignorado."

Falta de financimento é principal obstáculo
Teerã teve que mudar sua antiga estratégia de não investir dinheiro iraniano no campo Pars Sul, baseada na suposição de que as empresas estrangeiras interessadas no acesso às suas reserva pagariam por grande parte da infra-estrutura. O governo alocou neste ano 3% da receita do petróleo -cerca de US$ 5 bilhões- para investimento em Pars Sul. Os analistas descrevem isto como um bom começo, mas dizem que bilhões de dólares adicionais serão necessários para que o campo atinja seu potencial.

O maior obstáculo ao desenvolvimento é o financiamento. As sanções lideradas pelos Estados Unidos impedem os grandes bancos internacionais de fazerem negócios no Irã, por temerem prejudicar suas unidades americanas. Isto significa que quase todos estão tendo dificuldades para financiar projetos. "As reações das empresas são as verdadeiras sanções", disse um diplomata europeu em Teerã.

Aqueles com contratos, temerosos das repercussões nos Estados Unidos, estão ganhando tempo para colocá-los em prática. Quando a SKS da Malásia assinou um acordo de US$ 16 bilhões com o Irã no ano passado, isto parecia apontar que todas as empresas ocidentais sairiam perdendo. Mas até mesmo a SKS parece estar fazendo corpo mole.

"Ao longo dos últimos anos nós não temos visto as empresas estrangeiras investindo", disse Hatef Haeri, presidente-executivo da consultoria de energia ICG, em Teerã. "Não há financiamento disponível, de forma que demora muito e é mais complicado tocar um projeto do que há quatro ou cinco anos." Até mesmo os bancos da China, que têm boas relações comerciais com o Irã, não mais financiam negócios dentro do país.

"Há sempre muitos motivos para os projetos não avançarem, mas é a disponibilidade (inadequada) de serviços bancários, a falta de financiamento, que é extremamente difícil no ambiente atual", disse um representante de um grupo internacional de petróleo. "Nós preferimos o financiamento por uma terceira parte porque isto traz mais disciplina aos projetos."

A falta de financiamento ocorre em um momento em que os custos estão aumentando exponencialmente. Antes de se retirarem da fase 13, o custo do projeto de gás natural liquefeito da Shell-Repsol tinha subido para US$ 16 bilhões, levando a atrasos e disputas com as autoridades iranianas. A Total, o grupo de energia francês, estima que o custo de seu projeto mais que dobrou, para US$ 11 bilhões. Haeri disse a respeito da Total: "Eles precisam encontrar um modo de aguardar até a situação clarear. A pior coisa seria gastarem bilhões e então sofrerem sanções".

O peso das menores
O Ministério do Petróleo do Irã deu um prazo até o final deste mês para a Total assinar os contratos para as fases 11 e 13 de Pars Sul. Isto veio com um alerta anexado de que os contratos poderiam ser concedidos a concorrentes de outros países. Foram prazos semelhantes que levaram à retirada da Shell e Repsol.

A hesitação por parte das grandes companhias de petróleo de fato abriu novas oportunidades para empresas como a Sinopec da China, a OMV da Áustria e a Companhia Nacional de Petróleo indiana. "Estas empresas não estariam aqui se não fossem as sanções", disse outro diplomata europeu em Teerã. A OMV, que fechou seus negócios nos Estados Unidos para que pudesse operar no Irã, está disputando contratos da fase 12 em Pars Sul e espera estar envolvida em um projeto de gás natural liquefeito.

Mas ainda pairam dúvidas sobre a capacidade destas empresas de fornecer a tecnologia certa. O Irã precisa de empresas experientes em liquefação e compressão. O trabalho na parte anterior da cadeia produtiva -a extração do gás do campo- não é tecnicamente tão difícil. São as atividades na parte posterior da cadeia produtiva que provavelmente apresentarão problemas para pequenas empresas como a OMV.

Pessoas de dentro aceitam que a OMV não tem a experiência para realizar projetos como este por conta própria. Da mesma forma, os chineses dizem que a Sinopec carece da familiaridade necessária com o desenvolvimento de gás marítimo. "É a Cnooc que tem experiência em gás marítimo", disse um executivo da indústria de petróleo chinesa, "mas a Cnooc já está atuando em Pars Norte (um campo costeiro iraniano)".

As grandes companhias de petróleo, no entanto, não menosprezam estes recém-chegados. "Eu aprendi a nunca subestimar os concorrentes; todas estas empresas crescerão", disse um executivo de uma grande companhia. "Veja o que a China está fazendo agora."

Enquanto isso, as empresas menores admitem que estão se beneficiando da relutância das gigantes em investir. Apesar de estarem em posição de vencer, elas esperam que as maiores forças do setor não saiam totalmente. "Isto apenas aumentaria o frenesi e isto não é bom para ninguém. Elas são nossas concorrentes, mas o setor de gás aqui é grande o bastante para todos", disse um executivo de uma empresa menor.

Empresas como a Sinopec e OMV, apesar de nunca terem trabalhado em algo da escala de Pars Sul, podem comprar licenças para usar a tecnologia necessária para extrair gás, comprimi-lo e descomprimi-lo. Mas isto pode ser difícil. Empresas americanas como a Chevron são donas de cerca de 80% de todas as licenças para tecnologia de petróleo e gás, mas as sanções as impedem de atuarem no Irã. Muitas das empresas com know-how tecnológico também são americanas.

A Shell também possui licenças, mas não deseja transferir este tipo de tecnologia ao Irã no momento. Da mesma forma, a aprovação não seria dada pelo Instituto Francês de Petróleo, de propriedade do governo francês, para venda de suas licenças.

Mas ainda há possibilidades como a Linde, a empresa alemã cuja subsidiária francesa, a Cryostar, já usa tecnologia licenciada. A OMV também estaria interessada nela. Isto cria a chance de que o Irã possa reunir perícia suficiente para contornar as sanções e desenvolver seus campos de gás.

Os países que estão pressionando Teerã estão bastante cientes de que a demanda por energia está trabalhando contra seus esforços para abalar a economia do Irã. "Nós achamos que o Irã é perigoso, nós achamos que devemos mostrar ao Irã que podemos ter um efeito sobre ele", disse um diplomata europeu. "Mas sabemos que com o petróleo a US$ 140 o barril, o momento não poderia ser pior para nós." George El Khouri Andolfato

UOL Cursos Online

Todos os cursos