Pingüins infláveis dão alívio a Cristina Kirchner

De Jude Webber

Diante do Congresso argentino, nasceu um acampamento incomum.

Meia dúzia de grandes tendas enfeitadas com cartazes, lemas e bandeiras foram erguidas por movimentos em favor do governo, na frente do parlamento, onde os deputados começaram a discutir mudanças nas tarifas de exportação agrícola nesta semana. As mudanças geraram a pior crise política desde 2001.

Enquanto isso, os produtores rurais, cuja oposição a um novo regime escalonado de tarifas de exportação introduzido em março pela presidente Cristina Kirchner gerou um conflito de mais de 100 dias, montaram uma tenda rival.

A tenda dos agricultores contava com um touro inflável, enquanto os defensores do governo tinham pingüins infláveis em referência ao marido e predecessor de Cristina, Néstor Kirchner, que vem do sul argentino. Um dos pingüins tinha um grande coração, a palavra "Cristina" e o slogan "Kirchner lidera".

26.jun.2008 / AFP 
Pingüim inflável de defensores da presidente argentina é colocado em frente ao Congresso


Dentro do próprio Congresso, onde começaram audiências preliminares nesta semana, o governo tem uma maioria confortável nas duas casas. No entanto, divisões no bloco governante em torno das tarifas de exportação geraram dias de aritmética frenética, enquanto os parlamentares avaliavam os números a favor ou contra a posição do governo.

A sra. Kirchner enviou seu novo regime tarifário ao Congresso para tentar colocar fim a um conflito amargo que interrompeu as exportações de grãos do segundo maior exportador de milho e terceiro maior produtor de soja do mundo e gerou bloqueios nas estradas e séria escassez de alimentos e combustível.

A medida foi uma concessão inesperada. Com a maioria esmagadora do Congresso, o governo poderia ter simplesmente imposto sua vontade.

Entretanto, o conflito abriu tamanhas divisões no país e fraturas dentro do Partido Peronista governante que o governo não tem certeza da vitória, dizem os analistas.

"No ano que vem, metade dos deputados e um terço dos senadores terão que ser reeleitos e aqueles que votarem neste projeto terão que voltar as suas províncias. Muitos estarão tentando a reeleição", disse Carlos Germano, analista político que faz pesquisa de opinião. "Vai ser muito difícil."

Diversos parlamentares peronistas já deixaram claro que querem mudanças no projeto de lei -um tapa na cara de Cristina e Néstor Kirchner, hoje presidente do partido.

Roberto Urquía, senador peronista e proprietário de uma importante empresa de alimentos e óleos comestíveis, renunciou à presidência de uma importante comissão de orçamento, dizendo: "Não posso apoiar a atual proposta do governo". Seu lugar foi tomado por um político leal ao governo.

Os partidos de oposição, que são nanicos no Congresso diante dos peronistas e seus aliados, estavam buscando uma coesão até agora não atingida.

A oposição reuniu-se com líderes rurais ontem para fechar um projeto de lei rival, mantendo intacto o esquema tarifário escalonado, que o de governo defende como justo, mas reduzindo as taxas a níveis mais aceitáveis para os produtores.

Apesar das divisões crescentes nas fileiras do governo, o bloco da oposição ainda tem que emergir da sombra dos peronistas e estabelecer sua agenda.

Enquanto isso, alguns dissidentes peronistas também sugeriram planos de apresentar uma série de emendas à proposta do governo.

O governo fez propagandas de página inteira nos jornais na quarta-feira (25/6) para ressaltar o que chamou de salto nas exportações e grandes aumentos nos lucros dos agricultores, apesar do conflito de 100 dias. Ele disse que as exportações de grãos aumentaram em 28,8 milhões de toneladas nos primeiros cinco meses de 2008, resultando em um lucro 63% mais alto do que durante o mesmo período do ano anterior, após os impostos.

Entretanto, o economista Manuel Solanet disse que o custo do cultivo do hectare de soja aumentou 58% na primeira metade do ano.

"Isso neutralizou o efeito dos preços internacionais mais altos das commodities", disse ele.

Carlos Manfroni, especialista em judiciário e em corrupção, disse que era cedo demais para dizer se o governo teria sucesso na aprovação do projeto de lei no Congresso sem mudanças significativas, mas teme que o executivo se apóie nos outros ramos do governo para conseguir o que quer.

"Quando o executivo vê está perdendo força, exerce mais pressão no judiciário e no legislativo", disse ele. "O governo tem um estilo autoritário que gera um clima de violência... o conflito agrícola pode voltar", acrescentou.

Germano observou que a tenda diante do Congresso era, em grande parte, de facções que apóiam o governo, em vez de membros do próprio Partido Peronista. "Acho que o partido está se fragmentando", disse ele. Deborah Weinberg

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