Martin Wolf - um ano de vida perigosa para a economia mundial

Martin Wolf
Colunista do Financial Times

Faz quase um ano desde que a crise americana do subprime se tornou global. Muitos esperavam na época que a reavaliação do risco não seria muito mais do que uma breve interrupção no progresso das economias americana e mundial. Estas esperanças foram decepcionadas. Os apuros do Fannie Mae e Freddie Mac, a queda dos mercados de ações e a escalada dos preços do petróleo deixam claro quão longe a turbulência está do fim. Muito provavelmente, ela nem mesmo passou do fim de seu início.

Assim, onde se encontra agora a economia mundial? E para onde pode ir? Aqui estão algumas respostas preliminares para estas perguntas.

A resposta para a primeira vem em duas partes principais: continuidade da adversidade financeira e aumentos nos preços das commodities.

O desempenho das ações dos bancos diz muito sobre o que é preciso saber sobre a crise financeira. Nos Estados Unidos, o epicentro da turbulência, os bancos perderam metade de seu valor de mercado entre um ano atrás e o final da semana passada, em relação ao índice composto S&P.

Os investidores não são os únicos preocupados com a saúde dos bancos. Os próprios bancos também estão preocupados. Os spreads entre as taxas de juros para empréstimos interbancários em dólares, euros e libras e as taxas oficiais esperadas para empréstimos de três e seis meses atualmente estão maiores do que estavam em março. Os spreads nos empréstimos de seis meses agora estão tão altos quanto os dois picos anteriores, em setembro e dezembro do ano passado.

Esta não é uma mera crise de liquidez. Os bancos estão expressando preocupação com a solvência de seus pares. Um bom motivo para se preocuparem é que a qualidade de grande parte do colateral para grande parte dos empréstimos de anos anteriores -os imóveis residenciais- continua se deteriorando. O índice Case-Shiller (20 cidades) caiu 18% em termos nominais e 22% em termos reais entre seu pico, em meados de 2006, e abril deste ano. A taxa do declínio também está acelerando.

Não é de se estranhar, então, que o mercado de ações esteja exibindo algo próximo de pânico diante das perspectivas para as duas empresas financiadas pelo governo, a Fannie Mae e o Freddie Mac, que são responsáveis pelo financiamento de cerca de três quartos de todas as hipotecas americanas. Uma tomada formal destas entidades pelo governo, cujas obrigações totalizam próximo de 40% do produto interno bruto americano, não está totalmente descartada. Em termos de endividamento bruto do governo, isto faria os Estados Unidos se parecerem com a Itália.

Enquanto isso, o preço do petróleo se aproxima de US$ 150 o barril. Enquanto uma importante parte da economia mundial está preocupada com os riscos de colapso financeiro e a deflação que se seguiria, o preço da commodity mais importante do mundo dobrou ao longo do último ano. Em termos reais, o preço do petróleo atualmente está 25% mais alto do que em 1979, no pico do segundo choque do petróleo.

A alta dos preços do petróleo e outras commodities são uma espécie de enigma, já que o crescimento econômico global está desacelerando: as previsões de consenso para junho apontavam um crescimento mundial de 2,9% neste ano (a taxas de câmbio de mercado), uma queda em comparação aos 3,8% em 2007, em grande parte por causa da desaceleração nos países ricos, com a previsão de crescimento para os Estados Unidos de apenas 1,5% neste ano, em comparação a 2,2% em 2007, e o crescimento na Europa Ocidental em 1,8%, em comparação a 2,8% em 2007.

Então por que os preços das commodities estão subindo quando a economia mundial está desacelerando? A explicação popular parece ser "especulação". Mas como a especulação está sempre conosco, isto não pode explicar por que os preços estão subindo agora. Outra explicação popular é o afrouxamento agressivo da política monetária americana. Mas isso dificilmente explica o fato do preço do petróleo estar subindo tão rápido mesmo em euros. Assim como a especulação não explica o aumento nos preços de commodities que não possuem mercados futuros ativos: o minério de ferro, por exemplo.

No caso do petróleo, como Daniel Gros, do Centro de Estudos de Políticas Européias, apontou no "Financial Times" na semana passada, a especulação é parte inerente da decisão sobre se deve produzir. Os produtores são especuladores quanto ao futuro valor de seus recursos -e acertadamente, já que é algo finito.

Os produtores deixarão o petróleo no solo caso o aumento nos preços reais do petróleo cresça mais rapidamente do que o retorno dos ativos alternativos. O que determina o preço atual é o preço futuro esperado. As forças mais importantes têm sido a perspectiva de crescimento na demanda por parte dos países emergentes, particularmente a China, e o pessimismo em relação a fontes alternativas de oferta. O crescimento rápido e altamente intensivo em recursos da China é o fator mais importante: a expectativa é de que o crescimento lá ainda será de 10% neste ano e de mais de 9% em 2009.

Logo, o que acontecerá a seguir com a economia mundial? Aqui, talvez, o ponto mais importante seja a incerteza. É possível contar histórias de um retorno ao rápido crescimento na economia mundial. Assim como é fácil contar histórias de algo próximo a um colapso financeiro.

Mas o equilíbrio das forças econômicas é contracionista: crises financeiras e o colapso dos preços dos imóveis nos Estados Unidos e em vários outros países ricos; alta dos preços das commodities; e pressões inflacionárias, particularmente nos países emergentes.

É difícil ver qualquer resultado que não seja uma desaceleração sustentada na economia mundial. É até mesmo bem provável que a tendência de crescimento da economia mundial seja menor do que o esperado há poucos anos.

Além disso, alguns dos riscos podiam se combinar de formas perigosas. Um ataque ao Irã poderia levar o preço do petróleo para acima de US$ 200, por exemplo. A capacidade de financiamento do governo americano também não pode ser considerada como certa. Se a desalavancagem contínua da economia americana enfraquecer o consumo americano, a economia poderia entrar em profunda recessão. Os déficits fiscais americanos então disparariam e as taxas de juros americanas de longo prazo saltariam. Isto poderia fazer a dinâmica da dívida do governo americano ganhar um aspecto bastante desagradável. Uma fuga do dólar e de títulos em dólar poderia se seguir. Quem então vai querer comandar o Federal Reserve (o banco central americano)?

A boa notícia é que a economia mundial se segurou surpreendentemente bem. A má notícia é que os riscos permanecem firmes no lado negativo. Será preciso um pouco de sorte e muito juízo para atravessar ileso as tempestades. É hora de dar um descanso para o pessimismo. É o que vou fazer agora. Estarei de volta no final de agosto. George El Khouri Andolfato

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