Ministros fazem compras para escapar do tédio da Rodada Doha

Alan Beattie

Na reunião ministerial desta semana da Organização Mundial do Comércio, o gás lacrimogêneo e as passeatas de reuniões ministeriais anteriores, como a desastrosa conferência de 1999 em Seattle, têm sido uma memória distante. Mas nem todos os presentes acham que isso é bom. Conforme um representante de negócios observa sombriamente: "Naquela época pelo menos as pessoas estavam prestando atenção".

Os acontecimentos da reunião desta semana contaram com uma platéia pequena. Longe estão os dias em que qualquer reunião da OMC era acompanhada por uma caravana de lobistas, manifestantes e jornalistas.

A estagnação interminável das negociações afastou quase todo mundo. Não há sequer um manifestante de vigília em frente aos portões. Os seminários organizados pelas instituições de pesquisa econômica atraem pouquíssimas pessoas.

A Oxfam que manteve teimosamente as suas campanhas na rodada Doha, está presente e apresenta uma daquelas imagens para fotos que é a sua marca registrada - nesta ocasião há quatro manifestantes, vestidos como os protagonistas principais, "jogando com o futuro dos pobres" em uma mesa de pôquer em um parque próximo.

Mas poucos outros ativistas apareceram em Genebra, contentando-se em enviar os seus comunicados por e-mail condenando a perfídia de Washington e Bruxelas. A Alemanha, a maior exportadora de produtos do mundo, não se deu ao trabalho de enviar uma delegação comercial.

A pouca atenção despertada pelo evento faz com que a sua desvinculação da vida diária da cidade beire o surreal. A OMC fica no meio de um parque público às margens do Lago Genebra. Situada em um prédio marrom acinzentado, ela é inapropriadamente tida como o centro nervoso da globalização. Este título se encaixaria melhor nos luxuosos hotéis de Genebra, que atualmente estão cheios de centenas de visitantes ricos do Golfo Pérsico, Rússia e China, que vieram neste verão à Suíça para reunirem-se com os seus banqueiros privados.

A apenas alguns metros dos fundos do edifício, moradores de Genebra usando bermudas e camisetas jogam frisbees e passeiam com os seus cães, e o lago cintila fabulosamente.

As negociações desta semana seguiram um ritual. Todas as noites, após horas de conversações improfícuas, os poucos ministros do comércio que têm um peso no processo deixam os aposentos nos andares superiores e descem por uma escadaria dupla forrada de carpete vermelho em direção a uma multidão de jornalistas que aguarda, em uma cena que lembra as cerimônias de premiação de Hollywood, mas sem a mesma preocupação com o vestuário.

De frente para eles, de forma incongruente, há um esplêndido mosaico na parede retratando um operário no estilo socialista da década de 1920, um legado da época em que o prédio foi a sede da Organização Internacional do Trabalho. Os ministros fazem algumas observações sobre o fato de as negociações estarem tendo algum progresso, frisando, no entanto, que há muito ainda a ser feito, e depois saem para a noite.

Eles pelo menos têm alguma coisa para fazer. Depois que as negociações ficaram reduzidas primeiramente a umas poucas dezenas de países selecionados, e depois a um núcleo de apenas sete que tentam obter algum progresso, muitos dos ministros presentes que sobraram viram-se desocupados e meio embaraçados.

"Francamente, muitos ministros estão sentados por aí sem a menor idéia do que deveriam estar fazendo", diz um lobista. "Os mais espertos foram fazer compras". UOL

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