Por que o mercado de ação nos países emergentes está recuando

David Oakley, Rachel Morarjee e Jonathan Wheatley

Nos bares do centro de Moscou ainda vê-se uma agitação, como se tudo estivesse correndo bem no mundo. No saguão encimado por uma cúpula de vidro no Hotel Ritz-Carlton, que dá para a Praça Vermelha, oligarcas de ternos escuros saboreiam coquetéis de US$ 50, sem aparentarem estar perturbados com a deterioração das relações internacionais que se seguiu à intervenção militar do Kremlin na Geórgia - ainda que o fato tenha causado uma debandada dos investidores estrangeiros.

"Nos últimos dias temos andado bastante ocupados. Até mesmo georgianos ricos que moram em Moscou têm freqüentado este local", afirma Sergei Logvinov, um funcionário do hotel.

Com a queda de 15% dos títulos russos, que equivale à maior desvalorização mensal em quase oito anos, as reservas de moeda estrangeira sofreram um encolhimento de US$ 16 bilhões (£ 8,7 bilhões, ? 10,9 bilhões), em uma derrapada que não se via desde a crise econômica russa de 1998. Mas a Rússia não é de forma alguma o único mercado emergente no qual a confiança está caindo. Há um aumento do risco político em países como o Paquistão, e no mundo em desenvolvimento a inflação acompanha os índices de crescimento e a recente elevação dos preços das commodities perde impulso.

Os céticos se perguntam se a festa está chegando ao fim para esses países em desenvolvimento, depois de cinco anos de euforia.

Apesar da crise de crédito, o índice MSCI de mercados emergentes subiu quase 40% em 2007, fazendo com que muitos investidores sugerissem que o mundo em desenvolvimento estaria protegido dos problemas que afligem o Ocidente. Mas estas esperanças de que os mercados emergentes pudessem crescer a despeito desses percalços - uma teoria conhecida como "decoupling", ou "desacoplamento" - agora parecem equivocadas. Desde a virada do ano, as ações dos países emergentes despencaram, especialmente na China, onde o índice Shanghai Composite caiu 52%. O mercado de ações da Rússia sofreu uma queda de 27% desde janeiro. Na Índia a queda foi de 37% e no Brasil de 5%.

No momento em que os investidores correm para as portas de saída em quase todos os mercados, a impressão que se tem é de que os males financeiros do Ocidente estão infectando esses países. Muitos analistas temem que as economias dos Estados Unidos e da Europa continuem se deteriorando, prejudicando ainda mais o crescimento no mundo emergente.

Sendo assim, quais são os perigos restantes? E, conforme começam a argumentar certos investidores e analistas, as bases econômicas são suficientemente fortes para possibilitar que os títulos dos emergentes voltem a ser atraentes após a agitação dos últimos meses?

Não há dúvida de que os temores de uma desaceleração econômica no Ocidente coexistem com preocupações quanto à possibilidade de que as maiores economias emergentes estejam passando por um superaquecimento. A inflação está em alta em todo o mundo emergente. Segundo previsões de economistas do HSBC, o índice médio de inflação na China em 2009 subirá de 4,8% para 6,8%, o do Brasil de 3,6% para 5,3%, o da Índia de 6,4% para 8,4% e o da Rússia de 9% para 14,6%.

Essas altas estão sendo alimentadas não apenas pelos preços das commodities, que ainda estão próximos dos seus recordes históricos, mas também pelos limites da capacidade industrial. Philip Poole, diretor global de pesquisas de mercados emergentes do HSBC, afirma: "Não tem havido investimentos suficientes para sustentar o crescimento, de maneira que estamos vendo diversas economias esbarrando em fatores limitadores de capacidade, o que implica no aumento dos custos de produção. Isso está provocando pressões inflacionárias". Ele acrescenta que, dentre as chamadas nações Bric - Brasil, Rússia, Índia e China -, somente a China conta com abundância de capacidade extra.

No que diz respeito às commodities, uma redução maior dos preços prejudicaria os fluxos de rendas de países produtores de recursos, como o Brasil e a Rússia.

De fato, o fator commodity também faz com que se questione até que ponto a frase "mercado emergente" é realmente útil. A expressão é aplicada a mais de 150 economias tão diferentes quanto Indonésia e Chile, algumas das quais são ricas em riquezas e outras não. Isso explica em parte por que os mercados de ações em países produtores de commodities têm apresentado melhor desempenho neste ano do que aqueles dos países que precisam importar recursos, como a Índia. Ainda que a inflação esteja atingindo essas economias, elas estariam em tese se beneficiando dos preços do petróleo e dos alimentos, que continuam altos sob um ponto de vista histórico.

No entanto, os analistas insistem que o quadro para muitos desses países também foi auxiliado por outros fatores. Um deles é o fato de a saúde das suas finanças públicas, a magnitude da exposição às dívidas estrangeiras e os respectivos gerenciamentos monetários e fiscais terem melhorado enormemente desde a onda de crises dos mercados emergentes na década passada.

Sob tais aspectos, os Bric se saíram bem. Os bancos nos quatro grandes países emergentes não tomaram dinheiro emprestado no exterior, reduzindo a sua vulnerabilidade aos problemas de crédito que afligem o Ocidente. Segundo o Deutsche Bank, a dívida externa dos bancos chineses como percentagem do produto interno bruto (PIB) é de apenas 2%, na Índia é de 4%, e no Brasil e na Rússia 13%. Esses países também não perderam tempo em aumentar as taxas de juros para fazer frente à ameaça da inflação.

As reservas de moeda estrangeira da China, excluindo o ouro, devem chegar a US$ 1,9 trilhão neste ano, as da Índia a US$ 330 bilhões e as do Brasil a US$ 205 bilhões, segundo projeções do HSBC. Até mesmo a Rússia, apesar do conflito na Geórgia, deverá contar com reservas superiores a US$ 500 bilhões até o final do ano.

Conforme dizem certos analistas, todos esses países terão dinheiro no banco caso a situação nos mercados financeiros e o clima econômico global piorem ainda mais.

Além disso, o Brasil e a Rússia contam com riquezas na terra. A Rússia, por exemplo, produz mais de US$ 1 bilhão de dólares por dia com as suas vastas reservas de petróleo, enquanto o Brasil é um grande produtor de milho, trigo, açúcar e petróleo. Muitas nações latino-americanas e africanas também têm muitos recursos e exibem sinais de melhoria da estabilidade política e econômica, enquanto o Oriente Médio está nadando em petróleo.

As divisões de opinião mais agudas estão na área de commodities. Os preços já caíram mais de 20%, e, se os índices das commodities sofrerem mais quedas significativas, isto reduzirá o ímpeto da inflação, mas ao mesmo tempo atingirá os cofres dos exportadores. No entanto, os analistas observam que até mesmo se o preço do petróleo ficasse em US$ 100 o barril, tal fato representaria lucros substanciais para países como a Rússia.

Outro fator favorável para os Bric é também uma peça central da tese do "decoupling" - o fato de eles dependerem menos dos mercados desenvolvidos como destino das suas exportações. Mais do que nunca, eles exportam para outros mercados emergentes, enquanto as suas economias são cada vez mais fortalecidas pela demanda interna, ao invés de dependerem dos caprichos do consumidor norte-americano e europeu. Eles também estão investindo mais em infra-estrutura.

No caso da Rússia, somente cerca de 5% das exportações seguem para os Estados Unidos. Mas o Brasil, com 14%, a Índia, com 15% e a China, com 20%, seriam mais afetados caso o crescimento dos Estados Unidos, após ter apresentando um desempenho forte no segundo trimestre, sofresse novo enfraquecimento. O fortalecimento do dólar também ajudará estas e outras economias emergentes, especialmente aquelas no Oriente Médio e na Ásia, cujas moedas estão vinculadas à unidade norte-americana e que sofreram pressões inflacionárias extras devido à fraqueza da moeda dos Estados Unidos.

Mas algumas das outras nações em desenvolvimento serão pressionadas caso as condições financeiras piorem e a inflação aumente. O Cazaquistão, com uma dívida externa equivalente a 71,4% do produto interno bruto, é um exemplo de país que desfrutou de um período favorável, talvez de forma até meio exagerada, tendo tomado muito dinheiro emprestado para financiar a expansão do seu setor imobiliário. O México está bastante exposto à economia estadunidense, dependendo dela para 85% das suas exportações, enquanto várias economias da Europa central e oriental dependem da zona do euro para obter receitas com as exportações, e padecem também de grandes déficits de conta corrente.

Resumindo, há diferentes quadros no universo das nações emergentes, dependendo de fatores políticos e econômicos locais. Os próximos meses serão conturbados para os investidores estrangeiros na Rússia e na Europa Oriental. "Em suma, este é um problema de curto prazo para os mercados russos. Fundamentalmente, nada mudou na Rússia", afirma Vladimir Savov, estrategista do Credit Suisse especialista na Rússia.

Mas para a maioria dos mercados emergentes, as perspectivas de longo prazo são sem dúvida melhores do que a recente turbulência pode dar a entender. Existem motivos para acreditar que eles sejam capazes de continuar superando os seus rivais ocidentais em termos de crescimento, e de beneficiar-se das transferências de riquezas das nações avançadas para as em desenvolvimento. Nigel Rendell, do RBC Capital Markets, afirma: "Ao analisarmos o quadro em anos, e não em meses, as economias dos mercados emergentes parecem estar em boa forma. Eles provavelmente continuarão crescendo com vigor, com mais vigor do que as economias ocidentais, especialmente os Estados Unidos e a zona do euro".

Desde 2000, as nações emergentes vêm representando uma parcela cada vez maior da produção mundial. O Fundo Monetário Internacional (FMI) calcula que essas economias responderão por mais de 80% do crescimento global neste ano - contra 50% no início do milênio - já que elas agora são responsáveis por US$ 18,1 trilhões do produto bruto mundial, o que representa 30% do total. O FMI prevê que esta proporção aumentará para 35%, ou em US$ 28.850 bilhões, até 2013.

E quando aos mercados de ações destes países? Durante a onda de otimismo no ano passado quanto aos títulos dos emergentes, as ações destes países renderam mais lucros do que a dos mercados desenvolvidos, de acordo com os índices MSCI. Esta situação agora reverteu-se e as negociações nos mercados emergentes mais uma vez são realizada segundo valores substancialmente menores do que as do mundo desenvolvido. Isso poderia encorajar os caçadores de pechinchas que acreditam em perspectivas de crescimento de longo prazo.

Mas, de forma geral, se os quatro Bric representarem um indicador, e se o crescimento for o padrão correto para a avaliação da saúde de determinada economia, os analistas acreditam que esses países superarão as atuais dificuldades.

Previsões unânimes indicam que o crescimento do PIB da China deverá cair do seu ápice de 11,9% em 2007 para 9,2% em 2009, o do Brasil de 5,4% para 3,8%, o da Rússia de 8,1% para 7% e o da Índia de 9% para 7,7%.

Esses níveis de crescimento ainda são relativamente robustos e certamente superarão os do Ocidente, o que sugere uma aterrissagem suave após esta crise e uma perspectiva brilhante no longo prazo.

"Em 2015, os atuais mercados emergentes representarão uma parcela bem maior da economia mundial", afirma Dalinc Ariburnu, diretor de mercados emergentes do Deutsche Bank.

"Estou convicto de que quando olharmos para trás nos anos vindouros, diremos que o período de 2005 a 2015 foi uma década notável. Notável devido à transferência de riqueza do mundo desenvolvido para o mundo em desenvolvimento", acrescenta ele. "Nos próximos anos, continuaremos a presenciar uma transferência de poder econômico para o Oriente". UOL

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