De volta aos negócios

Clive Crook

Antes mesmo que a pior crise financeira desde a década de 1930 se abatesse sobre os Estados Unidos neste verão, o país parecia destinado a passar por uma alteração ideológica. O governo do presidente George W. Bush era imensamente impopular. O sentimento negativo em relação ao comércio e aos negócios crescia, e ambos os partidos políticos, de formas diferentes, respondiam a isso.

O liberalismo tecnocrata simpático ao mercado que foi adotado por Bill Clinton e os Novos Democratas já era muito menos proeminente na campanha presidencial de Barack Obama. À medida que as dificuldades econômicas intensificavam-se, o tema pró-mercado não só diminuiu, mas desapareceu. Hoje em dia é bem mais provável que Obama fale a respeito da falência da economia "trickle-down" (teoria econômica segundo a qual o aumento da riqueza dos ricos é um fator positivo para os pobres, já que ele geraria mais gastos, investimentos e empregos) do que da necessidade de competição e incentivos.

John McCain, o candidato republicano, não cedeu nem um pouco frente ao seu oponente na estridência das suas recentes denúncias da "ganância de Wall Street". Enquanto isso, o governo foi obrigado a engolir o que restou do seu compromisso retórico com as forças do mercado e as desregulações com uma recapitalização dos bancos no valor de US$ 250 bilhões (? 184 bilhões, £ 143 bilhões) - um plano que Hank Paulson, o secretário do Tesouro, descreveu como "repudiável", mas necessário.

Aonde isso poderá levar o país? Será que a atual crise, conforme alguns especularam, aponta para o fim de um capitalismo distintamente norte-americano? De forma geral, isto parece improvável - embora as pressões sobre o "excepcionalismo norte-americano" poucas vezes tenham dado a impressão de ser tão fortes.

Parece seguro prever que as finanças estadunidenses passarão por mudanças profundas à medida que a crise se desenrolar, independentemente de quem o país escolha como próximo presidente. Instituições fracas e fracassadas serão absorvidas pelas menos fracas, em um sistema no qual as regulações serão bem mais rígidas. A estrutura de fiscalização será mais simples e mais abrangente - com menos reguladores e atribuições mais claras.

É difícil afirmar até que ponto as regras em si serão mais onerosas. Por mais que a "desregulação" seja apontada como a causa do colapso financeiro, a simples restauração da rigidez característica de algum regime anterior não é uma opção. Ninguém parece estar defendendo uma nova regulação Q (que no passado estabeleceu um teto para as taxas de juros sobre os depósitos) ou algo como uma Glass-Steagall (que teria impedido o Bank of America e o JPMorgan de adquirirem, respectivamente, o Merrill Lynch e o Bear Stearns). É evidente que uma melhor regulação se faz necessária, mas a história demonstra que a elaboração de algo deste tipo seria difícil - e não apenas uma questão de afirmar, "o mercado não compreende as coisas", por mais verdadeiro que tal afirmação pudesse ser.

De qualquer forma, a questão financeira é especial: por si só, uma nova abordagem da regulação financeira dificilmente significaria o fim do capitalismo norte-americano. Para que a crise conduzisse a isso, coisas de grande monta precisariam sofrer modificação: o papel do governo na economia como um todo; níveis de gastos e tributações públicas; o compromisso de proporcionar uma rede de segurança social e de redistribuir a riqueza. Resumindo, um novo contrato social. Será que isto é sequer imaginável?

Certamente. Um novo contrato social - o New Deal - foi o resultado da Grande Depressão, e seria uma tolice descartar outro programa desse tipo. A atual crise está somando-se às demandas por uma nova intervenção governamental. Muitos economistas estão defendendo gastos com infra-estrutura, tanto com objetivos anti-cíclicos quanto para estimular o crescimento de longo prazo. O aumento do desemprego e a queda da renda evidenciarão ainda mais as lacunas no seguro social do país, e farão com que se intensifiquem as reclamações quanto à injustiça social. Mais do que no passado, o clima nos Estados Unidos é favorável, por exemplo, a um sistema de saúde universal e a impostos mais elevados para os ricos.

Estes são sentimentos que poderiam transformar o capitalismo norte-americano - ou até mesmo acabar com ele enquanto uma espécie distinta. Estes são também os sentimentos que muito provavelmente colocarão Obama na Casa Branca e fortalecerão o controle democrata sobre o Congresso. A maré está correndo com tanta força nessa direção que os especialistas em pesquisas de opinião estão falando sobre uma possível vitória democrata acachapante; eles passaram até a cogitar a possibilidade de uma maioria democrata no Senado a prova de vetos.

Além do mais, a atual crise pode estar contribuindo para uma mudança de longo prazo nas atitudes dos Estados Unidos. Segundo o Centro de Pesquisas Pew, uma proporção cada vez maior dos norte-americanos passou a enxergar o país como um lugar dividido entre ricos e pobres. Em 1988, cerca de um quarto dos entrevistados disse que os Estados Unidos estavam cindidos desta forma. Em 2007, quase a metade dos entrevistados tinha esta opinião. E não menos surpreendente é o fato de que, em 1988, quase 60% dos norte-americanos viam-se como indivíduos afluentes. Em 2007, antes do início da crise, este número caíra para 45%.

A percepção cada vez mais intensa de que a sociedade estadunidense está dividida, e a quantidade cada vez maior daqueles que vêem a si próprios caindo no lado errado da linha, são evidentes entre os eleitores, tanto democratas quanto republicanos, aqueles com ou sem educação de nível superior, homens e mulheres - quase que independentemente da forma como os dados são analisados. As rendas ajustadas segundo a inflação cresceram de maneira comparativamente lenta durante grande parte desse período para todos, exceto os muito ricos. A disparada dos custos dos planos de saúde e da educação universitária, despesas substanciais para muitas famílias de classe média, fez com que aumentasse a percepção dos norte-americanos de que não estão conseguindo progredir.

Enquanto isso, aumentos escandalosos dos salários de executivos proeminentes do setor de finanças - parceiros de equities privadas, gerentes de fundos hedge, diretores-executivos de bancos falimentares e assim por diante - são amplamente noticiados e provocam incredulidade e raiva. A furiosa resistência popular ao plano inicial de resgate financeiro apresentado pelo Tesouro, visto por muitos como o fornecimento de um pára-quedas para os privilegiados de Wall Street, constituiu-se em um exemplo contundente da intensidade desse sentimento. Parece que muitos norte-americanos atuais estariam dispostos a votar em propostas que fizessem com que sofressem um pouco, caso tivessem certeza de que veriam esses titãs das finanças sofrendo bastante - uma atitude que é mais prontamente associada com a velha União Soviética do que com os Estados Unidos.

Segundo os especialistas, um dos motivos pelos quais o New Deal acabou não lançando as bases para um socialismo de estilo europeu nos Estados Unidos foi o fato de a economia de pós-guerra ter proporcionado uma notável ascensão social para muitos norte-americanos. A disparada da produtividade, com os benefícios bem divididos, a rápida expansão da educação superior e a força de trabalho qualificada que a acompanharam combinaram-se para sustentar o sonho norte-americano: resumindo em uma única palavra, oportunidade. A maioria das pessoas viu os seus padrões de vida subir e tiveram certeza, com razão, que os seus filhos teriam um futuro melhor.

Esses dias acabaram. Os padrões de vida estão estagnados. No decorrer da próxima década, mais pessoas com ensino superior deixarão a força de trabalho do que ingressarão nela. A mobilidade econômica norte-americana é atualmente inferior à de muitos países europeus.

Tudo isto já era verdade antes mesmo que os problemas no setor imobiliário e a subseqüente crise financeira ameaçassem as poupanças (em muitos casos na forma de home equities) da maior parte dos norte-americanos de classe média - e antes também do pedido de um socorro de US$ 750 bilhões para os mercadores de Wall Street, para os quais "a ganância é uma coisa boa". Será que um novo contrato social é concebível? Pode apostar que sim.

Não obstante, forças poderosas empurram para o outro lado. No decorrer dos anos as pesquisas de opinião revelaram consistentemente, conforme afirmam os pesquisadores de opinião do centro Pew, "que os norte-americanos têm uma propensão bem maior do que os europeus para acreditar que os indivíduos, e não a sociedade, são os responsáveis pelos seus fracassos, tanto econômicos quanto em outras áreas". Isto ainda parece ser verdade. Ainda que o sonho norte-americano de oportunidade econômica tenha desaparecido, a insistência na responsabilidade individual continua forte. Na verdade, isso ajuda ainda mais a explicar os sentimentos provocados pelo plano de socorro aos bancos. Muitos norte-americanos dirigiram a sua ira não só contra os indivíduos de Wall Street, mas também contra os cidadãos comuns que, na opinião deles, não mereciam ajuda ("Eu contraí uma hipoteca que podia suportar; por que eu deveria ajudar pessoas que tomaram emprestado mais do que podiam pagar?").

O outro grande obstáculo a qualquer iniciativa rumo a um Estados Unidos social-democrata é de natureza fiscal. O legado do governo Bush inclui um déficit orçamentário estrutural. As pressões de longo prazo sobre a política fiscal - notavelmente o custo do esquema de aposentadoria do Social Security e do Medicare - são enormes. No curto prazo, a recessão encolherá a base fiscal e agravará o excesso de gastos em relação às receitas. E, a seguir, vem o custo do socorro aos bancos.

É provável que a conta a ser paga por esse pacote de resgate seja inferior a US$ 700 bilhões, já que algum valor dos ativos e equities adquiridos pelo Tesouro será recuperado. Mas o número ainda poderá ser grande, e durante o processo todo o plano precisará ser financiado; e a atual proposta é apenas uma primeira parcela. É provável que haja um novo estímulo fiscal no início do ano que vem, e pode ser que seja necessário um gasto maior do que o atualmente previsto com a recapitalização dos bancos e outras medidas de controle de crise.

Além disso, um governo Obama assumiria o poder com grandes planos para gastos públicos extras que se somariam a uma longa lista de programas dispendiosos: universidade acessível, mais gastos com escolas, nova infra-estrutura, incluindo uma rede moderna de energia elétrica, apoio aos combustíveis alternativos e assistência de saúde quase universal. No primeiro debate presidencial, Obama foi repetidamente indagado a respeito de qual dos seus planos poderia precisar ser cortado devido à crise financeira. Ele não respondeu: apenas reafirmou as suas metas (Joe Biden, o seu parceiro de chapa, foi mais sincero: ele afirmou que a ajuda externa poderia ser cortada). Obama ainda promete reduzir impostos para 95% das famílias trabalhadoras.

Muitos economistas argumentam que todos esses planos devem ser implementados, juntamente com um novo estímulo de curto prazo. A necessidade de estimular a demanda, segundo eles, apenas fortalece a argumentação favorável a um novo New Deal, com um foco em investimento em infra-estrutura.

Projetos de infra-estrutura podem demorar anos para se planejar e executar, de forma que eles são raramente defendidos como uma medida anti-cíclica efetiva. Mas muitos dizem que desta vez as coisas são diferentes. Bons projetos com boa relação custo-benefício não foram implementados porque os Estados estão sem dinheiro. Uma injeção monetária do governo federal poderia jogar rapidamente na economia investimentos bem planejados. Além disso, se os Estados Unidos enfrentarem um prolongado desaquecimento econômico, projetos para o desembolso de verbas, e para manter as pessoas empregadas, no decorrer de um ano ou mais, poderiam ser bastante apropriados.

No entanto, o novo governo pode temer que os mercados globais de capital possam relutar em financiar uma exigência de empréstimos tão grande. O déficit orçamentário do próximo ano provavelmente ultrapassará bastante a quantia de US$ 1 trilhão. Seria uma surpresa se o novo presidente não se preocupasse com isso, e não fizesse nenhum esforço para impressionar os mercados com o seu compromisso de restaurar o equilíbrio fiscal de longo prazo, ainda que agindo com muito atraso. Ele com certeza será forçado a conter as suas ambições de gastos.

Porém, no fim das contas o veredicto da história poderá debruçar-se sobre apenas um dos programas: a reforma do sistema de saúde. Apesar dos ecos do primeiro New Deal, e dos méritos de tais investimentos por si sós, projetos como a construção de uma nova rede de distribuição de energia elétrica poderiam significar pouco para a natureza do capitalismo dos Estados Unidos. Mas suponham que Obama seja eleito e que, apesar das pressões fiscais e de outros fatores que exijam a sua atenção, ele persevere com o seu plano de sistema de saúde quase universal. Suponham, além disso, que isto a seguir evolua, conforme ele deseja, para um sistema totalmente universal.

Esta seria uma mudança tão importante quanto a criação do Social Security. Ela estreitaria grande parte da lacuna entre a provisão social européia e a estadunidense - e os seus custos de longo prazo para o consumidor poderiam, no fim das contas, fechar grande parte da lacuna entre os índices fiscais dos Estados Unidos e da Europa.

O capitalismo norte-americano sem dúvida manteria a vitalidade que o distingue, que é derivada de um amor à competição, à inovação e ao trabalho duro que parece fazer parte da sua estrutura. Mas se a conseqüência da crise for um governo Obama fortalecido, um Congresso fortemente democrata e uma suspensão dos obstáculos políticos usuais - o que conduzirá, por sua vez, a uma reforma ampla do sistema de saúde - os acontecimentos recentes terão sem dúvida provocado uma mudança grande e duradoura. Os Estados Unidos teriam elaborado um novo contrato social e o país daria a impressão de ser muito menos excepcional.

A Administração do Progresso do Trabalho

Bondoogles guardados como reserva enquanto os líderes projetam caminhos para a recuperação

Durante o seu apogeu, em 1938, a Administração do Progresso do Trabalho, de Franklin Roosevelt, empregava mais de três milhões de pessoas. A agência construiu 80 mil pontes e mais de meio milhão de quilômetros de estradas. Ela construiu, em grande quantidade, quase tudo que se possa imaginar: escolas, hospitais, salas de concertos, estádios. A agência foi um componente crucial do New Deal e deixou a sua marca em quase toda cidade norte-americana.

Ela foi provavelmente o esquema de implementação de trabalho mais ambicioso já visto no mundo não comunista. O objetivo principal não era a construção de infra-estrutura, embora uma grande quantidade de obras tenha sido realizada. O objetivo principal era empregar pessoas. Os trabalhadores receberam um "salário de segurança" constante, que era menor do que aquilo que um empregador privado poderia pagar. A agência empregou trabalhadores para fornecer serviços bem como para manejar picaretas. Eles prepararam merendas escolares, pintaram murais, realizaram concertos e peças teatrais. Milhares de artistas e músicos participaram.

Mesmo naquela época, houve dúvidas quanto a desperdícios. Em 1935, o "New York Times" reclamou dos "boondoggles", e o termo passou a fazer parte do vernáculo. Costuma-se dizer que a aprovação de projetos e a liberação de verbas foram dirigidas mais por engenharia política do que civil. Mas ninguém nega que o projeto tirou milhões de pessoas de uma situação de grave penúria e foi uma contribuição real para o fortalecimento da espinha dorsal econômica do país.

Poderia um novo New Deal exigir uma nova Administração do Progresso do Trabalho? Provavelmente não. Um número cada vez maior de economistas defende investimentos em infra-estrutura como parte de um novo plano de estímulos, mas a preocupação deles não é (ou não é ainda) resolver diretamente o problema do desemprego em massa. A meta é manter o emprego e as rendas em níveis elevados com o apoio à demanda agregada. Eles argumentam que, neste sentido, o investimento em infra-estrutura poderia ser melhor do que os economistas tradicionalmente costumam supor.

A recessão colocará os orçamentos estatais e municipais sob intensa pressão - e os projetos de infra-estrutura são geralmente financiados com estas fontes. Projetos com boa relação custo-benefício, planejados e prontos para serem implementados, já estão sendo adiados devido à pressão fiscal. Portanto, o direcionamento de verbas federais para estes projetos resultaria em resultados rápidos sob o ponto de vista da demanda e do gerenciamento.

Muitos estudos sugerem que os Estados Unidos não têm muitas condições de permitir que a sua infra-estrutura - estradas, pontes, aeroportos, sistemas de controle de tráfego aéreo e linhas de transmissão de energia - se deteriore ainda mais. Além da mera manutenção e reforma, há oportunidades para inovações como a "rede inteligente de eletricidade", da qual Barack Obama é entusiasta.

Entre outras coisas, isto permitira que os consumidores economizassem ao adequarem o uso da energia às demandas gerais exigidas do sistema (evitar apagões periódicos também seria bom). Em 2008 não haveria reclamações do "New York Times" em relação a boondoggles. O retorno do grande governo. Será que os fracassos do setor privado e a ansiedade da classe média poderiam provocar uma reformulação do contrato social dos Estados Unidos? Há grandes obstáculos fiscais e culturais para isso UOL

UOL Cursos Online

Todos os cursos