O Leste está no vermelho

Stefan Wagstyl

Quando Lev Partskhaladze, um empreendedor imobiliário ucraniano, se preparava para lançar sua empresa no mercado de ações de Londres há três anos, ele não via um fim para boom de construção de imóveis residenciais e comerciais em seu país. Hoje, com guindastes parados nos canteiros de obras de Kiev e com as vendas de imóveis evaporando, ele reconhece que o arrocho global do crédito colocou um fim ao boom.

"Nós estamos vendo a crise financeira se transformar em uma crise econômica mundial. Ela ainda não atingiu plenamente a Ucrânia, mas está perto", disse o presidente da XXI Century Investments. Com suas ações sofrendo uma queda de 97% em comparação ao seu pico, a empresa está tentando levantar dinheiro transferindo projetos para outras empresas.

Partskhaladze não é o único tendo que confrontar a mudança da realidade na região. Por toda a Europa Central e Oriental, o impacto da crise global está sendo duro, mesmo que de forma bastante desigual. Na Rússia, as autoridades destinaram quase US$ 200 bilhões para um resgate do mercado financeiro, a Ucrânia está negociando empréstimos de emergência junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) de até US$ 14 bilhões, a Hungria foi socorrida na quinta-feira com um empréstimo de 5 bilhões de euros pelo Banco Central Europeu.

A Letônia e a Estônia estão sofrendo as primeiras recessões na região em uma década, enquanto o crescimento no Cazaquistão rico em petróleo desacelerou até quase parar. Mesmo na Polônia, onde Donald Tusk, o primeiro-ministro, insiste que seu país é "uma ilha de estabilidade", a crise colocou em dúvida os planos de Varsóvia de ingressar na zona do euro.

Os mercados de ações despencaram de acordo, com as ações polonesas sendo negociadas a menos da metade de seu pico e as da Ucrânia com queda de três quartos. Os mercados imobiliários esfriaram, apesar dos empreendedores imobiliários ainda estarem tentando manter os preços. Após a alta no início de 2008, algumas moedas se desvalorizaram, principalmente o florim húngaro. Na Ucrânia, onde o banco central interveio para apoiar o hrivna, a taxa de swap de crédito, um medidor de risco, saltou 1.400 pontos, para 1.900, uma das piores do mundo.

A serra financeira reduziu bilionários pela metade, como Oleg Deripaska, o oligarca russo dos metais, que vendeu participações acionárias valiosas para levantar dinheiro. Outros estão aproveitando a oportunidade para comprar barato: Mikhail Prokhorov, o investidor russo em níquel, adquiriu 50% do Renaissance Capital, um banco de Moscou, por US$ 500 milhões -cerca de um quarto de seu valor há um ano.

Com a crise global ainda em andamento, apesar dos efeitos tranqüilizadores das medidas desta semana nos Estados Unidos e na União Européia, é impossível prever como estes eventos afetarão uma região cada vez mais importante para o Ocidente como mercado de exportação e base de produção de baixo custo. Mas as esperanças de que poderia escapar ilesa desapareceram. Além das vítimas corporativas, alguns países poderão enfrentar dificuldades para financiar os déficits em conta corrente. Erik Berglof, economista-chefe do Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento (Ebrd), disse: "Há uma enorme incerteza no momento. (...) Estes países poderão enfrentar não apenas um aumento dos custos de tomada de empréstimo e uma recessão nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, mas também uma interrupção completa dos empréstimos internacionais -e ninguém pode suportar isso".

O resultado deste choque aumentará, como no Ocidente, o papel do Estado na economia mais uma vez -e possivelmente provocar conflitos políticos em torno da divisão dos recursos financeiros escassos. Como no Ocidente, pode haver uma revolta pública contra aqueles que lucraram com os anos de boom, freqüentemente de forma espetacular. A Hungria, que já se viu em dificuldades financeiras há dois anos, já experimentou tensões sociais.

O crescimento econômico caiu acentuadamente, com o FMI prevendo um declínio no crescimento real do produto interno bruto no centro e sudeste da Europa de 5% neste anos para apenas 3,5% em 2009. Para a Rússia e para a ex-União Soviética, ele prevê cerca de 7% neste ano e 5,5% em 2009.

Segundo os padrões globais, com os Estados Unidos e a Europa Ocidental enfrentando uma recessão, esses são números respeitáveis. Em circunstâncias de não-crise, uma desaceleração moderada seria até mesmo bem-vinda em alguns países. Até meados deste ano o principal risco que enfrentavam era um aquecimento excessivo, com a inflação chegando a 31% na Ucrânia. Graças às boas safras, a queda nos preços dos alimentos está ajudando a conter a alta dos preços para o consumidor, mas a inflação permanece alta em alguns países, como a Rússia, a 15%.

Além disso, a região como um todo está menos exposta à turbulência financeira, porque empresas e lares se endividaram menos do que no Ocidente. O Raiffeisen International, um banco austríaco, disse que os ativos de bancos eram de apenas 90% do PIB em 2007 na Europa Central, e de 65% na Rússia, em comparação a 250% na zona do euro.

Mas estas generalizações escondem muitos riscos. Como disse Jan Krzysztof Bielecki, presidente-executivo do Bank Pekao da Polônia: "O desenvolvimento da situação nas últimas semanas mostra que não há nada mais equivocado do que considerar esta região como sendo uma só. As diferenças entre a Polônia e o Cazaquistão são como as diferenças entre o céu e o inferno".

Um risco chave é a dependência da região de financiamento externo, especialmente crédito bancário. Segundo o Instituto das Finanças Internacionais, o total de fluxo de crédito e capital privado para a "Europa emergente" (incluindo a Turquia) provavelmente cairá de um recorde de US$ 349 bilhões no ano passado para US$ 322 bilhões em 2008 e US$ 262 bilhões em 2009. Dado que US$ 262 bilhões ainda é um número alto segundo os padrões históricos, há uma grande chance de uma queda muito maior. Dentro deste total, o crédito bancário deverá cair particularmente rápido, de US$ 219 bilhões em 2007 para US$ 155 bilhões em 2008 e apenas US$ 74 bilhões no próximo ano.

Apesar da previsão de aumento do investimento estrangeiro direto para quase US$ 90 bilhões no próximo ano, ele não é capaz de compensar o declínio dramático no empréstimo bancário. Nem investimento em portfólio salvará o dia: os fluxos são pequenos demais, atingindo um pico no ano de apenas US$ 8,5 bilhões.

As maiores necessidades financeiras estão na Rússia, onde o banco central estima que US$ 39 bilhões em dívidas vencem neste ano e US$ 116 bilhões em 2009. Não é de se estranhar que os banqueiros e oligarcas estejam fazendo fila para os créditos que as autoridades estão distribuindo de seus US$ 560 bilhões em reservas de moeda estrangeira. A Rússia não corre risco de default, mas os bancos estão sob pressão -com os temores de um pânico aumentando neste semana após o Globex, um emprestador de médio porte, ter impedido saques pelos depositantes.

Se a crise persistir, até mesmo o saudável Estado russo terá que contar seus rublos. Em relação ao tamanho da economia nacional, o pacote de resgate financeiro de Moscou é maior do que o programa de US$ 700 bilhões lançado pelos Estados Unidos. Os gastos orçamentários da Rússia mais que dobraram para US$ 586 bilhões em 2010, ao mesmo tempo em que o preço do petróleo caiu quase pela metade em relação ao seu pico. Declínios maiores colocarão os gastos sob pressão. Mas com a alta da inflação, pressionando para cima salários e pensões, há pouco espaço para cortes indolores, especialmente com a Rússia comprometida com projetos imensos de infra-estrutura, incluindo as Olimpíadas de Inverno de Sochi, em 2014.

Na Ucrânia, os bancos também tomaram empréstimos pesados no exterior para financiar o crescimento do crédito e estão tendo dificuldades para se refinanciarem. Ao mesmo tempo, o atual déficit em conta corrente está crescendo à medida que despenca o preço do aço, a principal exportação ucraniana. Logo, as necessidades financeiras externas de Kiev estão crescendo à medida que encolhe o crédito e o investimento estrangeiro direto, uma grande fonte de financiamento nos últimos anos.

As autoridades da Ucrânia insistem que a economia está em boa forma. O banco central tem mantido a ordem ao assumir o controle de um banco e apoiar 20 outros emprestadores. Mas os esforços para aliviar a crise são atrapalhados pela turbulência política, com o presidente Viktor Yushchenko convocando eleições parlamentares antecipadas para dezembro. Yulia Tymoshenko, a primeira-ministra, confirmou na quinta-feira que Kiev estava recorrendo ao FMI, que ela disse estar considerando empréstimos de "US$ 3 bilhões a US$ 14 bilhões".

No centro e sudeste da Europa e nos países bálticos, muitos economistas presumiam que os países estariam protegidos da tempestade global porque as finanças de seus bancos não vinham dos mercados, mas dos bancos multinacionais que compraram a maioria dos emprestadores locais. Mas como Berglof do Ebrd disse, com esses bancos agora sob pressão, essa suposição não mais se aplica. "Esta força está se transformando em vulnerabilidade", ele alertou.

Bancos individuais negam ter planos de se retirarem. Mas eles estão elevando os custos dos empréstimos denominados em moeda estrangeira, que representam quase metade dos empréstimos pessoais e corporativos na Europa Central. Nesta semana, os principais bancos húngaros cortaram esses empréstimos em moeda estrangeira, em medidas que provocaram na quarta-feira a maior desvalorização diária do florim em cinco anos. Na quinta-feira a moeda sofreu uma forte valorização, após as autoridades anunciarem o apoio público do Banco Central Europeu -sem precedente para um país fora da zona do euro- e medidas para ampliar a liquidez. Janos Veres, o ministro das finanças, disse que o FMI está de prontidão para ajudar a Hungria, mas só intervirá em caso extremo.

A Polônia, a República Tcheca e a Eslováquia estão em melhores condições econômicas do que a Hungria, tendo evitado os enormes gastos públicos que Budapeste se permitiu até enfrentar dificuldades financeiras em 2006. Os tchecos, com baixas taxas de juros locais, estão livres de empréstimos em moeda estrangeira. Mas como a Hungria, esses países estão expostos a outra mudança dolorosa -um esperado declínio acentuado na demanda da Europa Ocidental. A Eslováquia, com sua dependência pesada de uma única indústria -a automotiva- está particularmente vulnerável.

Mas com exceção da Hungria, os banqueiros estão menos preocupados com a Europa central e mais com os países bálticos e do Sudeste Europeu, onde os déficits em conta corrente são elevados. Todos se apoiaram fortemente em uma mistura de investimento estrangeiro direto e crédito para financiar seu rápido crescimento recente. Mas com a desaceleração das economias, os banqueiros se perguntam quais países conseguirão evitar um pouso duro -ou pior. A Estônia e a Letônia, que enfrentavam dificuldades financeiras antes mesmo da crise global, já estão em recessão. A Lituânia não está muito atrás. Mas pelo menos os déficits em conta corrente bálticos estão em queda, de 18% do PIB em média no ano passado, pra 8,6% em 2009, segundo o FMI.

No sudeste europeu, o FMI prevê que os déficits permaneçam em 14% no próximo ano, incluindo 21,5% na Bulgária. "É necessária uma ação para conter os desequilíbrios externos e internos, atenta às condições de financiamento externo mais voláteis", disse o FMI. Mas se a ação chegará a tempo é discutível. Analistas do Citigroup colocam a Romênia e a Bulgária ao lado dos países bálticos, Hungria e Ucrânia como países vulneráveis a "riscos para a estabilidade financeira".

À medida que o crescimento do crédito desacelera por toda a região, colocando um freio na economia, o atual déficit em conta corrente deverá cair à medida que caírem as importações financiadas por crédito. Logo, pousos suaves certamente são possíveis. A dificuldade está em superar as dificuldades de financiamento que deverão surgir em meio às condições financeiras mais hostis em 60 anos. Se há uma migalha de conforto, é que estes ex-países comunistas têm mais experiência do que a maioria na implantação de políticas econômicas duras sob pressão. Com a ampliação da crise, o ex-bloco soviético está vendo seus bancos, moedas e mercados de ações sob pressão -e as finanças públicas em muitos casos em condições inadequadas para suportar uma desaceleração econômica George El Khouri Andolfato

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