Entre as necessidades e sonhos do Iraque

Roula Khalaf

As autoridades iraquianas nos dizem há anos que sua maior ambição é colocar um fim ao mandato da ONU que governa a presença das tropas estrangeiras. Apenas aí, eles reconheceram, o Iraque poderia se considerar realmente livre e soberano.

Por que, então, quanto mais os Estados Unidos e o Iraque se aproximam de um acordo de segurança para substituição do mandato e preparação da saída americana em 2011, os iraquianos se tornam mais hesitantes?

Após meses de negociações, Washington e Bagdá declararam recentemente que chegaram ao esboço final do chamado Acordo de Status das Forças. Mas o governo iraquiano repentinamente levantou objeções na semana passada.

As autoridades americanas, convencidas de que suportaram atrasos demais e já fizeram muitas concessões ao longo do caminho, não escondem sua irritação. A eleição presidencial americana está próxima e o mandato da ONU expira no final de dezembro. "O tempo está passando", disse Robert Gates, o secretário de Defesa americano, alertando que um fracasso do acordo teria "conseqüências dramáticas".

Mas as hesitações do Iraque não deveriam causar surpresa. Incoerência e indecisão são características do governo de Nouri Al Maliki. Para ser justo, a decisão em torno do Acordo de Status das Forças é a mais importante que o governo, e o bloco xiita que o lidera, tomará. É esperado que a busca de um consenso em torno disso seja tortuosa. Mas o problema mais amplo é que o governo iraquiano está preso entre as necessidades do Iraque e os sonhos do Iraque.

Os partidos xiitas estão diante de eleições provinciais ainda neste ano e de uma eleição legislativa no próximo ano. Eles reconhecem que a presença americana é profundamente impopular, com oposição mais ferrenha pelo poderoso movimento do jovem clérigo radical xiita Muqtada Al Sadr. Uma importante figura religiosa associada ao movimento de Sadr, atualmente no Irã, afirmou na semana passada que o Acordo de Status das Forças é "um pecado que Deus não perdoará".

Mas o bloco xiita também precisa enfrentar uma realidade: apesar da melhoria significativa na segurança ao longo do último ano, o Iraque ainda é um caos, ainda longe de pronto para governar a si mesmo ou proteger seu povo. Se os Estados Unidos se retirarem de forma precipitada, conflitos étnicos e religiosos provavelmente se transformarão em uma guerra civil plena.

A capacidade do exército iraquiano melhorou, mas ele não está pronto para assumir. Como diz o Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais, com sede nos Estados Unidos, as forças de segurança "ainda são em grande parte uma obra em progresso".

O Iraque também não conseguiu progresso suficiente na reconciliação nacional entre a maioria xiita e as minorias curda e árabe sunita. O Estado iraquiano permanece terrivelmente fraco e as várias comunidades ainda não conseguem concordar em uma estrutura legislativa que distribua de forma justa os recursos do petróleo.

É irônico que muitos árabes sunitas, que foram os mais devastados pela invasão americana de 2003, agora procurem a proteção americana contra os xiitas iraquianos e seus aliados no Irã. Dada a repressão do governo aos conselhos do "Despertar" sunitas - os ex-rebeldes apoiados pelos americanos que se voltaram contra a Al Qaeda - suas preocupações parecem justificadas.

Os curdos do Iraque também precisam aceitar a necessidade de concessões políticas. A determinação deles em integrar Kirkuk, uma cidade rica em petróleo, à sua região semi-autônoma no norte ameaça explodir em um conflito entre curdos e árabes e envolver os vizinhos do país.

Mas os americanos também precisam enfrentar a realidade: um acordo de segurança que os políticos iraquianos não possam vender aos seus eleitores é uma receita para maior instabilidade.

Atribuir as dúvidas dos iraquianos às pressões iranianas é uma reação previsível. Sim, os líderes iraquianos querem a bênção do Irã para o acordo porque isso torna a vida deles mais fácil. E sim, Teerã não está satisfeita com a minuta do acordo. Mas trocar acusações com Teerã sobre o Acordo de Status das Forças não resolverá o problema.

Também é verdade que os negociadores americanos fizeram várias concessões no Acordo de Status das Forças. Eles concordaram que as forças americanas começarão a deixar as cidades iraquianas em 2009 e depois se retirarão em 2011, mesmo se as datas puderem ser mudadas por consentimento mútuo e dependendo das condições em solo. Mas um prazo para retirada também é benéfico para os Estados Unidos - ele força os iraquianos a começarem a assumir a responsabilidade por seu próprio destino, e a fazer concessões que podem ser evitadas em caso de persistência da ocupação americana.

Os Estados Unidos reconheceram que, em casos criminais, empresas de segurança particulares e prestadores de serviço estrangeiros devem estar sujeitos à lei iraquiana - uma grande exigência de Bagdá. Mas eles resistiram à pressão iraquiana por tratamento semelhante aos militares americanos.

O que os americanos farão se os iraquianos não cederem? Eles teriam pouca escolha a não ser negociar mais a respeito das dúvidas restantes dos iraquianos. Olhando mais atentamente, o relógio pode não estar correndo tão rapidamente quanto as autoridades americanas nos fazem acreditar. Mesmo não sendo um resultado ideal, o mandato da ONU que rege as tropas estrangeiras pode ser prolongado. A Rússia já indicou que concordaria em uma prorrogação.

De qualquer forma, há um argumento para este governo não se apressar em um acordo de segurança controverso em seus últimos dias de mandato, mas sim deixá-lo para ser finalizado pelo novo presidente americano - particularmente considerando que os candidatos, Barack Obama e John McCain, discordam em relação ao Iraque.

Sem dúvida a equipe de Bush está disposta a mostrar que sua saída do Iraque foi mais organizada do que sua estadia. Mas o legado do presidente George W. Bush não deve ser a prioridade aqui. Erros demais cometidos no Iraque foram causados pela obsessão americana com prazos adequados aos interesses americanos, mas não necessariamente aos de Bagdá. George El Khouri Andolfato

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