Wolf: Impedir a recessão global deve ser a prioridade

Martin Wolf
Colunista do Financial Times

É preciso dar crédito a quem ele é devido: Nouriel Roubini, da Escola Stern de Administração e Negócios da Universidade de Nova York, estava certo. Em 20 de fevereiro de 2008, eu escrevi uma coluna intitulada "Riscos econômicos dos EUA são a mãe de todos os desastres", baseada em sua análise dos 12 passos para o desastre. A propósito, os Estados Unidos não apenas deram esses passos, mas também - com a ajuda de outros, incluindo o Reino Unido - arrastaram o mundo consigo.

Em uma nota mais recente, o professor Roubini prevê uma combinação de estagnação e deflação*. Ao fazê-lo ele aponta, com certo júbilo, para a mais recente análise do panorama mundial feito pelo JPMorgan Chase, antes entre os analistas mais agressivos. Agora, sob a chamada "Uma semana ruim no inferno", o JPMorgan declara que: "Fomos novamente obrigados a cortar as previsões de crescimento a curto prazo para o mundo desenvolvido e provavelmente faremos revisões adicionais para baixo para as economias emergentes nas próximas semanas. Nossas previsões já sugerem que o produto interno bruto global encolherá aproximadamente a uma taxa de 1% ao ano" no quarto trimestre de 2008 e no primeiro trimestre de 2009.

O JPMorgan espera uma retração neste trimestre a uma taxa anual de 4% nos Estados Unidos, 3% no Reino Unido e 2% na zona do euro. Ele prevê um crescimento global de 0,4% em 2009, com os países ricos encolhendo 0,5% e os emergentes crescendo 4,2%.

Dada a quase desintegração do sistema bancário ocidental, a fuga para ativos seguros, o arrocho do crédito para a economia real, o colapso dos preços dos ativos, a turbulência nos mercados de câmbio, a continuidade da desvalorização dos imóveis, o rápido saque de capital investido nos fundos hedge e o colapso do chamado "sistema bancário paralelo", estas previsões parecem um bocado otimistas. O resultado no próximo ano poderia ser bem pior.

Se os governos ocidentais não tivessem intervindo para garantir e recapitalizar os sistemas bancários, nós certamente estaríamos bem pior. Mas, como mostram os gráficos, até mesmo isso não impediu a turbulência. Considere duas estatísticas: a capitalização dos mercados de ações mundiais foi reduzida pela metade; e, segundo o mais recente Relatório de Estabilidade Financeira do Banco da Inglaterra, as perdas "marcadas a mercado" em instrumentos de dívida vulneráveis agora chegam a imensos US$ 2,8 trilhão.**

E o que deve ser feito? Alguns argumentariam: nada. A posição é amplamente mantida, principalmente nos Estados Unidos, de que o mundo precisa de uma grande purgação dos excessos do passado. Recessões, segundo esta linha de raciocínio, são boas. As pessoas que mantêm esta posição também argumentam que os governos causaram todos os erros. O mercado, elas insistem, seria incapaz dos erros que vimos. Para elas, a confissão de Alan Greenspan na semana passada de que "eu cometi o erro de presumir que o interesse próprio das organizações, especificamente bancos e outros, era tamanho que seriam mais capazes de proteger seus próprios acionistas", foi tão bem-vinda quanto a faca de Brutus para César.

De forma intrigante, o Relatório de Estabilidade Financeira do Banco da Inglaterra fornece algum apoio para esta posição: em 1900, os bancos americanos tinham quatro vezes mais capital, em relação aos ativos, do que hoje. De forma semelhante, a liquidez dos ativos mantidos pelos bancos britânicos ruiu ao longo do último meio século. Garantias implícitas e explícitas dos governos de fato tornaram o sistema financeiro mais perigoso do que antes. A combinação de garantias com desregulamentação provou ser letal. O risco moral está longe de ser insignificante.

Mas a idéia de que uma recessão rápida purgaria o mundo dos excessos do passado é absurda. O risco é, sim, de uma recessão, à medida que a montanha de dívida privada - nos Estados Unidos, igual a três vezes o PIB - ruir em uma falência em massa. O mergulho em parafuso começaria com um maior declínio dos sistemas financeiros e prosseguiria por meio de uma desconfiança predominante, o desaparecimento do crédito, fechamento de um vasto número de empresas, aumento do desemprego, queda brutal dos preços das commodities, declínios em cascata nos preços dos ativos e alta das retomadas de posse. A globalização espalharia a catástrofe para toda parte.

Muitas das vítimas seriam inocentes dos excessos do passado, enquanto muitos dos maiores culpados manteriam seus ganhos indevidos. Esta não seria uma receita para um renascimento do laisser faire do século 19, mas sim para xenofobia, nacionalismo e revolução. Como está, esses resultados são concebíveis. Optar por correr o risco desse resultado seria como optar por deixar uma cidade arder em chamas visando punir alguém que fumou na cama. Correr o risco de danos imensos agora na esperança de reduzir o risco moral posteriormente é loucura.

Todo o possível deve ser feito para impedir que a recessão inevitável se transforme em algo pior. Muitas das ações necessárias foram apresentadas ontem por Jeffrey Sachs, da Universidade de Colúmbia, nesta página. Eu destacaria cinco pontos.

Primeiro, como argumenta John Muellbauer da Universidade de Oxford, a deflação é um risco real.*** Mas a deflação é letal para as economias endividadas. Hoje, as taxas de juros de curto prazo parecem bem mais altas na zona do euro e no Reino Unido. Os bancos centrais precisam olhar de novo para suas economias e reduzir as taxas em pelo menos 1 ponto percentual, idealmente 2.

Segundo, a única forma de permitir a desalavancagem do setor privado, sem uma falência em massa e quedas imensas nos gastos, é substituindo o ativo que todos querem: a dívida do governo. Diferente do professor Sachs, eu acho que redução de impostos faz parte da solução.

Terceiro, é crucial que os empréstimos sejam mantidos tanto dentro quanto entre as economias. Após tanto trabalho para recapitalizar os bancos, os governos devem insistir para que o dinheiro deles seja usado para sustentar as linhas de crédito para aqueles que provavelmente permanecerão solventes. Se os bancos não estiverem dispostos a fazer isso, os bancos centrais terão que substituí-los, como o Federal Reserve (o banco central americano) está fazendo no momento.

Quarto, é de interesse próprio vital que os países de alta renda afetados mantenham as economias emergentes mais duramente atingidas à tona durante a crise.

Finalmente, é igualmente evidente que o mundo não retornará ao equilíbrio se os países em posição financeira forte não expandirem a demanda doméstica. Os dias de bolhas imobiliárias e imensos déficits em conta corrente nos países de alta renda acabaram. Aqueles que dependem de superávits em conta corrente para sustentar a demanda devem pensar de novo.

As decisões tomadas nos próximos meses poderão muito bem moldar o mundo por uma geração. Em jogo pode estar a legitimidade da própria economia de mercado aberto. Aqueles que vêem a liquidação dos excessos do passado como solução não entendem os riscos. O mesmo vale para aqueles que sonham com novas ordens globais. Vamos primeiro superar a crise. O risco permanece imenso e o tempo é curto.

*The Coming Global Stag-Deflation (a futura estagdeflação global), 25 de outubro de 2008, www.rgemonitor.com;** www.bankofengland.co.uk; ***The folly of the central banks of Europe (a tolice dos bancos centrais da Europa), 27 de outubro de 2008, www.voxeu.org George El Khouri Andolfato

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