Wolf: o que as autoridades britânicas devem tentar agora

Martin Wolf

O Reino Unido está em recessão. A estimativa de retração de 0,5% no terceiro trimestre, após estagnação no segundo trimestre, coloca um fim ao debate. Este é o início de uma longa e, possivelmente, profunda recessão. Quão longa e quão profunda? A resposta dependerá do que as autoridades fizerem.

Este é o momento em que David Blanchflower, um membro externo do comitê de política monetária e professor de economia no Dartmouth College, nos Estados Unidos, tem direito de dizer "eu não disse". O professor Blanchflower votou pelo corte em todas as ocasiões desde outubro de 2007. Olhando para trás, ele estava certo em pressionar fortemente nesta direção, geralmente contra a opinião da maioria no comitê de política monetária. Suas opiniões sobre a economia merecem respeito agora.

O prof. Blanchflower as expôs nesta semana em um discurso feito, de forma apropriada, no Keynes College, Universidade de Kent.* Nele, para seu crédito, ele não se gaba demais. Seus principais argumentos são que, primeiro, a economia do Reino Unido provavelmente seguirá um trajeto de queda semelhante ao dos Estados Unidos; segundo, os riscos de um aumento sustentado das expectativas inflacionárias são inexistentes; e, finalmente, as conseqüências das "condições de crédito restrito" em uma economia com preços de ativos em rápido declínio provavelmente provarão ser devastadoras.

O relatório de quinta-feira da Nationwide apontando que os preços dos imóveis residenciais caíram 14,6% no ano até outubro ressalta o último risco. O prof. Blanchflower também se apóia em sua experiência como economista do trabalho para argumentar que os riscos de uma passagem de preços mais altos de importados para expectativas de preço sempre foram pequenas. Agora, com o colapso dos preços das commodities e o início da recessão, o risco é de queda nos preços. Apesar da recente intervenção sem precedente pelos governos, liderados pelo Reino Unido, um maior arrocho do crédito ocorreu. Até mesmo Charles Bean, vice-presidente para política monetária do Banco da Inglaterra, descreve o que está acontecendo como "possivelmente a maior crise financeira do gênero na história humana".

E o que deve ser feito? O ponto de partida precisa ser a política monetária. Minha posição cada vez mais forte é a de que o comitê de política monetária deve, a esta altura, repensar sua posição da estaca zero. Não faz sentido a taxa de juros americana estar a 1%, enquanto a do Reino Unido está em 4,5%. Nas atuais circunstâncias, eu gostaria de ver a taxa de juro do Reino Unido cair para 2,5%.

Obviamente, há algum risco de uma maior desvalorização da libra. Nas atuais circunstâncias, isso precisa ser ignorado. Na verdade, uma ação determinada pode fortalecer a libra, não enfraquecê-la. Em sua Mais Lecture na quarta-feira, Alistair Darling, o ministro das Finanças do Reino Unido, felizmente deu sinal verde ao comitê de política monetária para ignorar altas de curto prazo na inflação. Ele não mediu esforços para destacar que o Banco da Inglaterra desfruta de "liberdade em relação ao horizonte em que a inflação deve ser trazida de volta à meta".**

Enquanto o Banco desfrutar de espaço para reduzir as taxas de juros, parece desnecessária a adoção de qualquer grande ação fiscal, particularmente considerando que a posição fiscal certamente será terrível. O ministro declarou acertadamente que "é sensível aumentar a tomada de empréstimos em uma recessão". Ele também está certo em argumentar que o estoque de dívida do Reino Unido é baixo em relação aos padrões dos grandes países ricos. Mas os déficits são grandes e certamente se tornarão bem maiores. Tendo isso como fundo, a ausência de uma estratégia clara para retorno a uma posição mais sustentável a médio prazo é preocupante. Essa estratégia é prometida para o próximo relatório pré-Orçamento. Ela tem que ser boa. O Reino Unido não pode presumir que a paciência de seus credores seja ilimitada.

Tanto o Banco quanto o Tesouro também precisam examinar o que fariam em caso da taxa de juro oficial cair a zero. Isso parece altamente provável para os Estados Unidos e é concebível para o Reino Unido. Esse seria o momento para "dinheiro de helicóptero", com dinheiro sendo espalhado por toda parte como confete.

Mais urgente do que uma ação fiscal é fazer com que os bancos emprestem. Este é o motivo para terem sido ajudados. Infelizmente, o custo marginal dos fundos deles, mais as margens exigidas, estão acima das taxas que deverão cobrar. Este é o motivo para reduções profundas nas taxas de intervenção oficiais serem vitais. Além disso, o governo pode ser forçado a encorajar o empréstimo direto pelo Banco da Inglaterra para grandes corporações não financeiras ou oferecer garantias parciais temporárias aos empréstimos para lares e pequenas empresas. O governo também deve entender que poderá ter que recapitalizar novamente os bancos. O que está sendo levantado até o momento é cerca de 1% dos ativos combinados dos principais bancos. À medida que a crise se desdobra, as necessidades podem provar ser maiores que essas.

Estes são tempos históricos. Dadas as origens da crise no colapso de uma bolha de preço de ativos e a conseqüente desintegração do mecanismo de crédito, a forma como a recessão evoluirá permanece obscura. As autoridades devem agora concentrar toda sua atenção na redução de sua provável escala. Depois elas devem se perguntar como esta encrenca gigante ocorreu. Sobre isso a Mais Lecture nada diz. Mas todas as salvaguardas importantes fracassaram. Um governo no poder desde 1997 não pode ignorar esta terrível verdade para sempre.

*Where next for the UK economy? (para onde seguirá a economia britânica) www.bankofengland.co.uk; ** www.hm-treasury.gov.uk George El Khouri Andolfato

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