Ataques na Índia podem indicar adoção de táticas de guerrilha pelo terrorismo

James Blitz e Roula Khalaf
Em Londres (Reino Unido)

Enquanto oficiais de inteligência ocidentais analisam os vínculos entre os terroristas de Mumbai (antiga Bombaim) e grupos externos, uma questão reverbera nos círculos de inteligência: os assassinatos de Mumbai marcariam o início de um novo capítulo na história do terrorismo global, no qual os jihadistas passarão a usar metralhadoras e granadas em locais cheios de gente, em vez de planejarem atentados tecnicamente ambiciosos?

Desde a destruição do World Trade Center em 2001, a Al Qaeda e aqueles influenciados pela sua ideologia jihadista concentraram-se em tentar realizar um outro atentado espetacular e complexo, muitas vezes procurando detonar várias bombas simultaneamente. Em Madri, em 2004, e em Londres, em 2005, ataques com múltiplas bombas foram sincronizados pelos sistemas de transporte. Em 2006, jihadistas britânicos tentaram - e não conseguiram - explodir aviões sobre o Oceano Atlântico. Enquanto isso, um grande temor nas agências ocidentais de inteligência refere-se à possibilidade de a Al Qaeda e as suas afiliadas conseguirem armas de destruição em massa.

No entanto, em Mumbai as táticas foram diferentes. Os terroristas de Mumbai usaram algumas idéias tiradas do "Manual da Al Qaeda", tais como a realização de ataques sincronizados em vários pontos de uma cidade e a escolha de cidadãos note-americanos e britânicos como alvos. Mas embora os ataques tenham sido sofisticados, alguns analistas de inteligência acreditam que eles sugerem que os terroristas estão "retornado ao básico", usando armas e granadas, em vez de aeronaves e bombas.

"Isto lembra bastante aqueles ataques desfechados por terroristas como Abu Nidal e Carlos, o Chacal, há 20 ou 30 anos", diz um analista de inteligência, apontando para a similaridade, por exemplo, com a atrocidade cometida no aeroporto de Roma em 1973, quando terroristas árabes mataram 31 pessoas em ataques múltiplos realizados nos balcões de check-in e em um avião. "É um terrorismo que se encaixa mais no reino da guerra de guerrilha - e, embora os terroristas no caso de Mumbai estivessem preparados para morrer, o suicídio não é a arma deles".

Nigel Inkster, do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, sugere que os métodos utilizados pelos terroristas de Mumbai não refletem necessariamente uma reavaliação estratégica por parte dos jihadistas. "O tipo de técnica de tomada de assalto que presenciamos, com a utilização de armas de fogo e granadas, é característico de grupos de terroristas da Caxemira como o Lashkar-e-Toiba", afirma ele.

No entanto, outros acreditam que isso possa refletir uma mudança mais ampla de pensamento entre os grupos internacionais de terrorismo. A comunidade de inteligência acha há algum tempo que a Al Qaeda e as suas afiliadas tornam as tarefas delas bem mais difíceis ao tentarem executar ataques complexos e espetaculares que são freqüentemente descobertos pelas autoridades. Esta pode ser uma das razões pelas quais a Al Qaeda não conseguiu inspirar qualquer grande ataque na Europa desde os atentados à bomba de Londres. E pode ser por isto também que neste ano chegou-se à conclusão de que ela está na defensiva.

"Uma das coisas que mais impressiona em relação à Al Qaeda é o fato de eles terem se concentrado nesse modus operandi de lançar ataques à bomba espetaculares quando existem outras formas mais básicas de aterrorizar populações", diz um especialista em inteligência.

O argumento dele é que é bem mais fácil treinar terroristas para o uso de armas de fogo do que para a confecção de bombas, e que é bem mais fácil transportar armas do que explosivos por uma cidade. Este é um assunto sobre o qual poucos membros da comunidade de inteligência se disporão a falar publicamente. Mas uma das lições a respeito do terrorismo global nas décadas recentes é o fato de ele modificar-se no que diz respeito às suas táticas. Um dos perigos implícitos na atrocidade desta semana é a possibilidade de que outros jihadistas, vinculados ou não aos extremistas de Mumbai, aprendam esta lição. UOL

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