Um bom debate sobre imigração na Suécia

David Ibison

A frase "backhand bitchslap" (tapa com as costas da mão no rosto) não costuma ser transmitida pela emissora de televisão estatal bem-comportada da Suécia, a SVT. Logo, quando o apresentador aprumado do programa matinal de televisão se levantou de seu sofá, informou o público que estava prestes a introduzir essa bizarra frase em inglês e então atravessou o estúdio para receber voluntariamente um tapa de uma jovem mulher muçulmana, trajando hijab, era uma forte indicação de que este país nórdico pacato e conservador estava em meio a um tumulto.

Para aqueles que não sabem, o "backhand bitchslap" envolve um tapa forte com as costas da mão na bochecha da parte ofensora. Neste caso, ele soou extremamente satisfatório, resultando em um forte estalo, e foi seguido por um sorriso irônico para as câmeras.

A sorridente autora do tapa foi Khadiga El-khabiry, uma das três apresentadoras muçulmanas da "Halal-TV", uma nova série de programas semanais de meia hora que deixou supercarregado o debate nacional de décadas na Suécia sobre raça, imigração, Islã, integração e o papel e responsabilidades da SVT financiada publicamente.

O debate em torno da imigração nunca fica muito abaixo da superfície na Suécia. O país mantém uma política de portas abertas desde 1970 e, no final de 2007, cerca de 13% de sua população era nascida no exterior, muitos do Irã, Iraque e outros países muçulmanos, transformando em um curto período de tempo uma sociedade relativamente homogênea em uma profundamente multiétnica. Este desenvolvimento trouxe oportunidades assim como profundas tensões.

Para entender por que um sueco bem-intencionado estava disposto a se deixar abusar por uma mulher muçulmana na televisão é necessário revisitar um evento que ajudou a tornar a "Halal-TV" em um dos programas de televisão mais comentados do ano.

O programa envolve três jovens mulheres, que nasceram na Suécia, mas têm raízes em países diferentes do Oriente Médio e Norte da África, todas trajando o hijab, viajando pelo país em uma van vermelha e fazendo para várias pessoas perguntas sobre imigração e integração na Suécia pelo prisma do Islã. As questões tratadas envolvem classe, sexo, álcool e matrimônio, e as entrevistas são intercaladas com conversas descontraídas, sem roteiro, sobre suas experiências na Suécia e como vêem a vida. Assim, é um programa leve e incontestável.

Cherin Awab, 23 anos, uma das apresentadoras e advogada, disse: "A Suécia tem uma imagem estereotipada das mulheres muçulmanas e dos muçulmanos em geral. Nós queríamos lhe dar uma chance de falar sobre coisas como assassinato em nome da honra e terrorismo, que são coisas com as quais somos constantemente associados. Há muita islamofobia neste país. Esta é a primeira vez que é possível ver muçulmanos rindo na televisão".

Mas os risos pararam repentinamente, após duas das apresentadoras terem recusado o convite de apertar a mão de um colunista de jornal branco e, em vez disso, cumprimentá-lo de acordo com a tradição muçulmana de colocar sua mão sobre o coração. O colunista ficou parado desajeitadamente com seu braço estendido. Ele posteriormente escreveu em sua coluna: "Quem deve se adaptar a quem? Para as apresentadoras da 'Halal-TV', a resposta é óbvia. A maioria dos suecos que cumprimentam com aperto de mão deve se adaptar à minoria de crença muçulmana, que não cumprimenta com aperto de mão.

Este aperto de mão se tornou um símbolo da moderna política de integração da Suécia e foi atacado tanto pela mídia quanto por blogueiros. Com o debate público se tornando incendiário, surgiu a idéia de que um interlúdio bem-humorado injetaria uma dose altamente necessária de humor e ajudaria a restaurar parte da perspectiva.

Mas a verdade é que a "Halal-TV" arrancou a casca de uma ferida sensível na Suécia. Um de seus maiores críticos é Dilsa Demirbag-Sten, uma curda turca ateísta que chegou à Suécia com seis anos e que argumenta que apresentadoras muçulmanas vestindo trajes tradicionais transmitem uma visão unilateral, ortodoxa, do Islã, que mina os homens e mulheres muçulmanos mais liberais e retarda o processo de integração. "A 'Halal-TV' exibe um estereótipo das mulheres muçulmanas", segundo ela.

Ela acredita que, por ser uma emissora pública, a SVT tem a responsabilidade de exibir uma imagem do Islã que seja tão diversa quanto a própria religião. "Por que todas elas são garotas? Por que todas vestem véu? Por que não um homem e duas garotas? Por não garotas que não usam véu ao lado de garotas que usam?" ela pergunta.

Poucos assuntos apresentam questões tão espinhosas a respeito do que o famoso modelo sueco de bem-estar social significa atualmente. A política de imigração do país, concebida nos anos 70, quando a economia era próspera e o país era rico, se baseava em três princípios: igualdade, liberdade de opção cultural e cooperação e solidariedade.

Mas a realidade é que a Suécia não estava preparada para a chegada dos chamados "novos suecos" e enfrenta dificuldade para integrá-los. Muitos imigrantes acabam desempregados e vivendo em conjuntos habitacionais na periferia de Estocolmo, Gotemburgo e Malmö, em guetos que são gentis em comparação aos padrões franceses, mas ainda assim guetos.

Com um desempenho pior da economia e o crescimento da pressão financeira sobre o Estado de bem-estar social, há um crescente ressentimento em relação aos fundos destinados à população imigrante em conseqüência dos benefícios famosamente generosos da Suécia. Isso encontrou uma expressão insalubre no aumento da popularidade dos democratas suecos de extrema direita, que correspondem a cerca de 30% dos políticos locais no sul do país e que estão ganhando popularidade nacionalmente. A "Halal-TV" e o tapa televisionado são incomuns, mas todavia contribuições poderosas para este debate.

Joakim Sandberg, o diretor editorial do programa na SVT, responde argumentando que o debate furioso é uma prova do sucesso do programa. "Nós estamos procurando por vozes que não são ouvidas na Suécia. Uma mulher trajando hijab é uma dessas vozes. (...) Nós tentamos mostrar três individualidades e perguntar se podemos ver além da imagem do Islã, para ver três mulheres simplesmente perguntando o que acham de seu país. E então começar um debate." George El Khouri Andolfato

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