Uma maior aproximação

Daniel Dombey e Tony Barber

As relações transatlânticas ficaram estremecidas sob Bush, mas o governo que assumirá em Washington daqui uma semana poderá não ser fácil


Em junho de 2002, Robert Kagan, o acadêmico americano conservador, publicou um artigo agora famoso afirmando que "nas atuais grandes questões estratégicas e internacionais, os americanos são de Marte e os europeus são de Vênus".

Na época, esse resumo conciso das diferenças entre americanos e europeus tinha um quê de verdade. O governo Bush foi acusado de unilateralismo bélico como nunca antes, a União Europeia parecia exageradamente multilateralista, quando não simplesmente dividida. Hoje, entretanto, muitos observadores acreditam que a unidade interplanetária é provável.

Com a chegada de Barack Obama à Casa Branca daqui uma semana, as diferenças entre os Estados Unidos e a Europa provavelmente diminuirão em políticas que variam da mudança climática às detenções dos suspeitos de terrorismo no campo americano de prisioneiros em Guantánamo, Cuba. Como resultado, os líderes em ambos os lados do Atlântico - a aliança que venceu a Guerra Fria e que ainda representa o relacionamento econômico mais importante no mundo- esperam trabalhar mais estreitamente do que nunca em anos.

Ao mesmo tempo, a Europa está prestes a descobrir novamente que os Estados Unidos podem ser aliados desconfortáveis. Strobe Talbott, o ex-vice-secretário de Estado sob o presidente Bill Clinton, alerta sobre "um risco real de excesso de expectativas". Mas ele acrescenta: "Haverá uma ânsia em muitas capitais do mundo pelo sucesso do presidente Obama... devido ao reconhecimento de que esses numerosos problemas extraordinários e difíceis não serão fáceis de ser resolvidos sem um esforço mútuo e liderança americana".

Em questões como Guantánamo e o Afeganistão, os Estados Unidos provavelmente farão pedidos dolorosos aos europeus, pedidos que serão difíceis de ignorar precisamente por causa da convergência filosófica entre os dois lados. Decisões estratégicas difíceis aguardam em assuntos como Irã, Oriente Médio e Rússia. O tempo todo, a Europa e os Estados Unidos terão de trabalhar mais estreitamente em uma questão que Obama identifica como seu maior desafio entre todos - a crise econômica e financeira.

Autoridades e diplomatas tanto da Europa quanto dos Estados Unidos argumentam que as relações entre governos melhoraram durante o segundo mandato de George W. Bush. Primeiro, os Estados Unidos fizeram um esforço para um maior engajamento diplomático com o continente; então mais líderes atlanticistas surgiram, como o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel.

Mas o próprio Bush permaneceu profundamente impopular nas pesquisas de opinião européias - limitando sua influência sobre seus aliados europeus.

O sentimento evidentemente ainda é mútuo. Ontem, o presidente americano revelou a profundidade do seu ressentimento com as críticas européias contra ele, em sua última coletiva de imprensa na Casa Branca. "Em certas partes na Europa, é possível ser bastante popular atribuindo todos os problemas no Oriente Médio a Israel", ele se irritou. "Ou é possível ser popular ingressando no Tribunal Penal Internacional. Eu acho que poderia ser popular caso tivesse aceitado Kyoto (o protocolo de mudança climática), que senti que era um tratado falho."

Obama, por sua vez, está prestes a testar que força extra ele terá graças à sua popularidade extraordinária na Europa, ao tentar duas metas pedidas pelos europeus há anos: o fechamento de Guantánamo e uma concentração dos esforços militares no Afeganistão, não no Iraque.

Por meses, os Estados Unidos estão à procura de países dispostos a aceitar os presos em Guantánamo prontos para soltura - mas com sucesso limitado. Na Europa, apenas um punhado de países, como Portugal, Alemanha e o Reino Unido, expressaram a possibilidade de aceitar os prisioneiros - e os britânicos enfatizaram que seu interesse principal é o de receber um pequeno número de detidos que já residiram no Reino Unido.

Como resultado, as autoridades americanas se queixaram de que a disposição dos europeus para ajudar a fechar a base militar é mais retórica do que real. "Quando chega a hora desses países que criticam a América receberem alguns desses detidos, eles não estão dispostos a ajudar", Bush se queixou na segunda-feira.

Mas nenhum outro símbolo de um recomeço nas relações transatlânticas seria mais forte do que o fechamento de Guantánamo. Em uma tentativa de fechar um acordo, dois altos diplomatas europeus disseram ao FT que o bloco poderia fornecer fundos para ajudar a construir uma estrutura judicial, penal e de contraterrorismo no Iêmen, lar de mais de um terço dos cerca de 250 presos restantes em Guantánamo.

"Não há uma diferença ideológica na política aqui, de forma que é uma questão de trabalharmos juntos sobre como lidar com isso", disse um. Mas ainda não se sabe se Obama, que recentemente reconheceu que seria um "desafio" fechar Guantánamo em seus primeiros 100 dias de governo, ficaria satisfeito com essa oferta.

Um dilema mais profundo para ambos os lados é o Afeganistão, que provavelmente estará no centro do encontro de cúpula do aniversário de 60 anos da Otan, em abril, que Obama atenderá como parte de sua primeira visita agendada à Europa como presidente. Naquele evento, Sarkozy deverá marcar a melhora nos laços transatlânticos ao anunciar o retorno formal da França às estruturas militares da Otan, 43 anos depois que Charles de Gaulle se retirou do comando militar da aliança.

Apesar do simbolismo dessa medida, as autoridades de ambos os lados reconhecem que o Afeganistão se tornou a questão definidora da Otan -e que a guerra não está indo bem.

Os europeus também estão cientes de que Obama exige que enviem mais tropas para um conflito que muitas pessoas no continente veem com crescente apreensão. "O povo afegão precisa de nossas tropas e de suas tropas; nosso apoio e seu apoio para derrotar o Taleban e a Al Qaeda", disse o presidente eleito para uma multidão em Berlim, em um pedido que ainda não foi respondido.

Agora se arrastando ao seu oitavo ano, a guerra está se tornando cada vez mais um teste da unidade da Otan, particularmente considerando que os países com tropas no sul e leste violentos do Afeganistão -como os Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Holanda- estão à procura de mais apoio militar de seus aliados europeus.

Mas alguns democratas americanos notam que o pedido inicial de Obama -mais tropas- pode não ser o que ele realmente deseja. Os Estados Unidos deverão enviar mais 20 mil a 30 mil soldados para o país, atendendo grande parte da necessidade puramente militar, mas à procura de maior apoio europeu em áreas como treinamento militar e policial, combate aos narcóticos e ajuda econômica.

"Nós precisaremos de mais forças da coalizão e de segurança afegã, incluindo equipes adicionais de treinamento para ajudar a desenvolver o exército nacional afegão e a polícia nacional afegã", disse o general David Petraeus, o chefe do comando central americano, para uma conferência em Washington na semana passada. "Mas nós também precisaremos de mais contribuições civis e um maior envolvimento internacional para assegurar que a abordagem do governo seja unificada e coordenada."

Quanto a outras disputas dentro da Otan, o governo Bush foi amplamente visto como tendo feito um favor à equipe de Obama em dezembro, quando engavetou seu esforço para o ingresso da Geórgia e da Ucrânia na aliança. França e Alemanha, em particular, têm profundas objeções à entrada de ambos os ex-Estados soviéticos.

Alguns países europeus também vêem com apreensão os planos de Bush de base de defesa antimísseis na Europa Central - assim como muitos conselheiros de Obama. As propostas provocaram objeções furiosas da Rússia.

Os conselheiros de Obama esperam melhorar o clima com Moscou por meio de um novo acordo para substituição dos tratados de redução de armas estratégicas dos anos 90. Talbott previu que o novo governo "buscará trabalhar rapidamente nos assuntos mais importantes - como controle de armas; e fará mais consultas com os aliados para uma abordagem mais coordenada". Essas medidas são apoiadas pelos diplomatas da Europa Ocidental, mas poucos têm a ilusão de que as relações com Vladimir Putin, o primeiro-ministro da Rússia, e o presidente Dmitry Medvedev serão fáceis.

Quanto ao Irã - que os membros do governo Bush dirão que é o maior desafio à frente - Condoleezza Rice, a secretária de Estado de saída, disse ao FT no mês passado que não sabe ao certo se as sanções internacionais funcionariam antes que Teerã atinja capacidade de armas nucleares. "Esse é o motivo para a importância de, pelo menos, um endurecimento das restrições ao Irã", ela disse.

Mas apesar de Obama também ser favorável a mais sanções à república islâmica - juntamente com a possibilidade de negociações diplomáticas - países como a Alemanha e a Itália mostraram relutância no passado em impor medidas mais duras.

Alguns dos conselheiros de Obama são mais rápidos do que seus pares europeus em ver a mão do Irã por trás do grupo radical islâmico palestino Hamas, que está envolvido em uma guerra com Israel neste ano. Mas apesar das percepções diferentes nos dois lados do Atlântico em relação ao conflito entre israelenses e palestinos, muitos diplomatas esperam que Israel suspenda sua ofensiva em Gaza no momento em que Obama tomar posse - em parte para evitar exacerbar ainda mais as tensões internacionais. O presidente eleito também prometeu iniciar seu governo com um novo esforço para "obtenção de uma paz mais duradoura na região" - uma medida que atenderá velhas exigências européias.

Outra área ainda mais nevrálgica de antigas tensões americanas e européias é a mudança climática. Quando Bush se encontrou pela primeira vez com os líderes europeus, reunidos em um encontro de cúpula da União Europeia na Suécia, em 2001, as relações tiveram um início difícil, à medida que um primeiro-ministro após o outro condenavam o presidente americano por sua oposição ao protocolo de Kyoto.

Obama, por outro lado, já concordou com a meta de reduzir as emissões americanas até os níveis de 1990 até 2020, assim como reduzi-las em 80% adicionais até 2050. E apesar de que nunca será fácil uma ratificação pelo Senado de qualquer tratado pós-Kyoto, os europeus são rápidos em responder à agenda verde de Obama.

"Eu fico realmente entusiasmado ao ver os primeiros comentários do presidente eleito Obama", disse José Manuel Barroso, o presidente da Comissão Européia, ao FT. "Eu não finjo que nós na Europa estejamos o inspirando diretamente. Mas até recentemente nós temíamos estar pregando no deserto." Como os autores de políticas energéticas e ambientais da Comissão Europeia, Obama fala da recessão mundial como uma oportunidade para acelerar uma troca para uma economia de energia limpa, de baixa emissão de carbono - apesar de algumas preocupações nos Estados Unidos sobre possíveis tensões entre as metas climáticas e a recuperação econômica.

De fato, nenhuma questão provavelmente dominará as relações transatlânticas no próximo ano como o esforço para a reestruturação da arquitetura financeira mundial e a retirada dos Estados Unidos e da Europa de sua desaceleração econômica.

Assim como o encontro de cúpula da Otan, em abril, revelerá a extensão da unidade transatlântica no poder "hard", o encontro de cúpula financeiro em Londres será o indicador chefe da cooperação internacional na crise econômica.

De forma mais reveladora, o encontro é do G20, não dos Estados Unidos e da União Europeia, nem mesmo do G7, no qual na Europa é representada de forma desproporcional. Os convidados - incluindo países como Índia, China e Arábia Saudita- acentuam quão longe a crise global está fora do controle apenas da Europa e dos Estados Unidos.

Apesar da Europa e dos Estados Unidos trabalharem juntos, ambos os lados estão cientes de que não é possível deter a ascensão da Ásia - um motivo a mais, insistem alguns diplomatas, para somar recursos ao máximo.

Quanto a Kagan, ele está aguardando até que Obama tome posse para apresentar seus pensamentos sobre o impacto do novo governo sobre a divisão planetária entre Europa e Estados Unidos. Mas já está claro que, apesar das metas agora compartilhadas, restam muitas possibilidades de tensão e discórdia nos meses a anos à frente.

Série de agonias

Tanto Barack Obama, o presidente eleito, quanto seus aliados europeus querem ver o fechamento do centro de detenção em Guantánamo e uma estratégia mais bem-sucedida para a guerra da Otan no Afeganistão - que os Estados Unidos alertam que exigirá mais recursos.

Também há outras metas. Há quatro anos, o Irã era a maior fonte de tensão nos dois lados do Atlântico. Hoje, à medida que Teerã se aproxima da capacidade de armas nucleares, e Obama promete uma "nova abordagem" diplomática, o Ocidente terá novamente que buscar uma estratégia comum em relação à república islâmica. Os combates em Gaza também atraíram nova atenção para o conflito entre árabes e israelenses; muitos diplomatas europeus dizem que sua exigência mais importante é para que os Estados Unidos façam mais para ajudar na causa da paz.

Várias questões envolvem a Rússia. Os conselheiros de Obama são céticos em relação aos planos de defesa antimísseis que enfureceram Moscou, apesar do governo Bush ter engavetado seus esforços para colocar a Geórgia e a Ucrânia na rota de ingresso na Otan. A nova equipe buscará assegurar uma cooperação com Moscou por meio das negociações de armas.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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