"Eu costumava contar meus filhos quando saía. Agora não preciso mais", conta palestino

Anna Fifield

Anwar Khalil Baalousha entendeu que uma tragédia atingira sua família quando a caixa de água da sua casa explodiu sobre ele conta ele dormia.

"Não ouvi o ataque aéreo -foi como um sonho. Depois, subitamente, estava mergulhado em água", diz Baalousha, homem magro de barba negra com olheiras igualmente escuras.

O que começou como um sonho se tornou um pesadelo. Quando um ataque aéreo israelense destruiu a mesquita Imad Akl, na área de Jaaliya, da Cidade de Gaza naquela noite, levou também sua casa e cinco de suas filhas.

Tahreir, 17, Ikram, 14, Samar, 12, Dina, 7, e Jawaher, 4, morreram quando a mesquita caiu na parede de seu quarto. Baraa tinha apenas doze dias de idade quando a guerra começou e foi salva quando a força da explosão virou o seu berço que proveu-lhe abrigo.

"Antes, eu costumava contar meus filhos quando saía para um almoço ou jantar de família, para ter certeza que todos os nove estavam lá", diz Baalousha, 37. "Agora, não preciso mais".

Os habitantes de Gaza dizem que os ataques aéreos israelenses destruíram mais do que 35 mesquitas, muitas das quais Israel suspeitava de serem centros de armazenamento de munição do Hamas.

Ontem, Israel disse que suas tropas deixariam a Faixa de Gaza antes da posse de Barack Obama hoje, a primeira indicação oficial de que o Estado judeu planeja uma rápida retirada de suas forças.

Com os tanques se retirando para a fronteira, os moradores da Cidade de Gaza se aventuraram para as ruas, tentando avaliar a extensão da destruição de seus bairros e entendê-la.

Baalousha e sua mulher, Samira, 36, voltaram para sua casa pela primeira vez desde que enterraram as filhas. A família -que ainda tem três filhos e um filho- agora está morando no apartamento de um quarto de um amigo, tendo como mobília apenas uma cama e colchonetes na sala.

"Foi tão inacreditável. Ainda me sinto doente", diz Baalousha. Sua mulher não profere uma única palavra, apenas seus olhos se movem. É como se o resto de seu rosto estivesse congelado de terror.

Baalousha -que era alfaiate até que, devido ao bloqueio israelense de Gaza, a falta de tecido deixou-o desempregado- diz que estão tentando se levantar novamente, pelo bem das crianças que sobreviveram.

Iman, 16, que têm dificuldade para andar por causa dos ferimentos sofridos no ataque, diz que agora vai estudar medicina, como sua irmã mais velha estava planejando fazer.

O ataque, contudo, mudou a vida de Baalousha de outras formas. "Estou pronto para me tornar um mártir agora", diz, sem paixão. "Estou pronto para tomar parte na operação de martírio".

O irmão dele, Nafez, explica: "Acontece que ele não era político antes do ataque. Ele até costumava trabalhar em Israel. O assassinato de suas cinco filhas fez isso com ele".

De fato, apesar do enorme custo humano dos ataques israelenses, a devastação fortaleceu o apoio do Hamas em algumas partes.

"São muçulmanos comprometidos com a resistência a Israel. Com o governo do Hamas, teremos vitória contra os israelenses", diz Hitam, dona-de-casa de 39 anos que agora mora em um campo de refugiados em uma escola da Organização das Nações Unidas.

Alguns palestinos salientam que Israel conseguiu atingir apenas duas altas figuras da organização. Apesar de centenas de combatentes do Hamas terem morrido, pelo menos 15.000 soldados permanecem.

O grupo islâmico diz que perdeu apenas 48 combatentes durante a guerra de 22 dias, muito menos do que os 500 que Israel alega ter matado, e promete continuar a luta. "Demos ao inimigo sionista uma semana para se retirar da Faixa de Gaza. Se não fizerem isso, vamos continuar a resistência", diz Abu Obeida da Brigada Ezzedine Al-Qassam, o braço militante do Hamas.

Perto da casa arruinada de Baalousha, um jovem que trabalha como guarda-costas para um alto membro do Hamas fala desafiadoramente enquanto observa a destruição.

"Antes, o Hamas ficava dentro de Gaza. Foi apenas depois que Israel fechou as fronteiras que começamos a lançar foguetes para fora", disse o homem, que se recusou a dar seu nome. "Agora, o Hamas vai ficar ainda mais forte, porque todos os palestinos podem ver que Israel destruiu casas e mesquitas, que matou mulheres e crianças inocentes."

Nem todos, contudo, pensam assim. Ra'afad, segurança de 27 anos que apóia Mahmoud Abbas, líder do partido rival Fatah, culpa o Hamas por trazer a guerra à Gaza.

"Estou com tanta raiva do Hamas, especialmente já que não tivemos resultados concretos", disse ele na frente dos destroços do que era a delegacia de polícia. "Se o Hamas pudesse concordar com a Fatah, o cerco seria levantado, e não haveria guerra."

Tradução: Deborah Weinberg

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