Bancos financeiros cautelosos contribuem para introspecção dos mercados financeiros

Peter Thal Larsen e Gillian Tett

Em meio às recriminações e manifestações de preocupação em relação às causas e às consequências da crise financeira, banqueiros e representantes de governo presentes no Fórum Econômico Mundial, em Davos, identificaram uma nova ameaça à prosperidade global: a ascensão do protecionismo financeiro.

Os grandes pacotes governamentais de socorro aos bancos na Europa e nos Estados Unidos, embora necessários para prevenir um colapso da confiança no sistema financeiro, forçaram os bancos a retirarem-se dos mercados externos para concentrarem os seus recursos limitados nos seus próprios países. Para alguns observadores, caso este processo não seja contido, ele agravará a crise global e reverterá o resultado de décadas de globalização.

O Instituto de Finanças Internacionais, uma associação de grandes bancos, previu nesta semana que os fluxos de capital líquido para os mercados emergentes sofrerão uma queda de US$ 165 bilhões neste ano - o que é menos de um quinto do nível de dois anos atrás. O instituto informou que os bancos deverão promover uma retirada líquida de capital.

A mudança súbita de direção dos fluxos de capital parecem ter sido provocados pelo menos em parte pela pressão política sobre os bancos - especialmente aqueles que receberam consideráveis auxílios governamentais - para que estes sacrificassem as suas operações internacionais no sentido de privilegiar a manutenção de empréstimos a consumidores e companhias domésticos.

Trata-se de uma resposta compreensível por parte de governos que procuram explicar as suas decisões de utilizar centenas de bilhões de dólares dos contribuintes. No entanto, alguns especialistas enxergam paralelos alarmantes com as desvalorizações competitivas e o protecionismo que marcaram a Grande Depressão. "Existe o perigo de perdermos o sistema financeiro global da mesma forma que perdemos o sistema comercial globalizado na década de 1930", adiverte Simon Gleeson, da firma de advocacia Clifford Chance.

Nem todos os bancos compartilham esta visão pessimista. Alguns observam que a retirada de capital dos mercados emergentes faz parte de uma tendência mais ampla segundo a qual os bancos e os investidores afastam-se dos ativos arriscados na tentativa de minimizar os prejuízos e reduzir os níveis gerais de endividamento. A crise financeira simplesmente expôs até que ponto algumas instituições financeiras - especialmente aquelas localizadas em pequenos países, como Bélgica e Áustria - envolveram-se em negócios que estavam além da sua capacidade na busca de melhores oportunidades de crescimento.

"Se uma instituição toma uma decisão ruim, ela irá reduzir a sua carteira de empréstimos, e a redução será para o patamar que ela conhece melhor", diz o diretor de um grande banco de investimento.

O que está claro é que a repatriação de capital tem sido dolorosa para aqueles países que dependiam fortemente dos fluxos de capital internacional. Um importante banqueiro russo afirma: "Estamos nos deparando com a regionalização dos investimentos... a questão agora é saber se teremos que substituir os empréstimos estrangeiros por empréstimos russos".

Não são apenas os mercados emergentes que estão sentindo esta pressão. Uma dos motivos pelos quais a crise de crédito no Reino Unido está sendo particularmente severa é o fato de os bancos irlandeses, islandeses e belgas que emprestaram agressivamente durante o boom terem se retirado abruptamente do mercado.

Um grande investidor do Oriente Médio diz: "Neste momento, enxergamos muito mais vantagem e segurança em ficar em casa do que em operar no exterior. É necessário que haja mais informação e transparência no mundo desenvolvido - precisamos disso para investir".

Os temores quanto ao protecionismo fizeram com que aumentasse a percepção de que, para um futuro visível, o quadro para o sistema financeiro é sombrio. Uma pesquisa realizada pela firma Oliver Wyman revelou que os líderes dos bancos globais temem que o processo de "deleveraging" - ou a redução da dívida - possa continuar por mais três anos, provocando condições econômicas ruins até 2011.

Ela sugere ainda que 75% dos diretores de corporações no setor financeiro não acreditam que haverá qualquer recuperação dos mercados de crédito e equity até o ano que vem - e a metade teme que tal recuperação não ocorrerá antes de 2011, devido à dimensão do deleveraging que está em andamento. Segundo a pesquisa, cerca da metade do valor de mercado do setor financeiro simplesmente desapareceu durante os últimos 18 meses, corroendo todos o valor acionário criado desde 2003.

Deparando-se com o risco da desintegração do sistema financeiro, os delegados de Davos têm sido quase unânimes em pedir uma solução global coordenada para a crise. No entanto, uma questão que tem sido repetidamente mencionada é a dificuldade para a criação de uma resposta desse tipo.

Lord Turner, presidente da Autoridade de Serviços Financeiros do Reino Unidos disse aos delegados na última quarta-feira: "Não existe nenhum equivalente à Organização Mundial de Comércio no universo das finanças. Quem tenta seguir em frente em meio a este quadro de mudanças é obrigado a utilizar organizações ad hoc desprovidas de autoridade - trata-se de um problema clássico de governança global. Não temos um tratado internacional. Precisamos de regras globais claras".

Tradução: UOL

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