Análise: Os Estados Unidos e o mundo

Gideon Rachman

Os indivíduos que modelarão a política externa do governo Obama estão, a julgar pelas suas histórias e textos publicados, ansiosos para reavaliar o poder dos Estados Unidos e aproximar o país da Europa




Neste fim de semana as autoridades governamentais europeias serão capazes de observar de perto pela primeira vez a equipe de política externa do presidente Barack Obama. A delegação norte-americana enviada à conferência anual de segurança, em Munique, será liderada pelo vice-presidente Joe Biden, e incluirá o general James Jones, o assessor de Segurança Nacional de Obama.

Mas, para aqueles que procuram sinais que indiquem qual será a abordagem do novo governo em relação ao resto do mundo, existe um conjunto precioso de material pouco examinado - os escritos das pessoas que modelarão a política externa dos Estados Unidos.

Vários deles são escritores prolíficos. Muitos estão mudando de local de trabalho dentro da própria Washington, de respeitáveis instituições como a Brookings Institution, na Avenida Massachusetts, para escritórios no Departamento de Estado ou na Casa Branca. Outros chegam de universidades, incluindo Harvard, Princeton e Stanford.

Seria ingênuo acreditar que ideias expressas em artigos de jornal serão diretamente traduzidas em políticas externas dos Estados Unidos. O mundo real é demasiado caótico para isso. Mas os escritos das autoridades nomeadas e dos indivíduos que trabalharão com elas pelo menos ilustram o presente clima intelectual e ajudam a identificar algumas das ideias subjacentes básicas.

Sai de cena o termo "guerra ao terror", que o novo governo considera ideológico e não militar. E surge a necessidade de reavaliar não só o poder, mas também as vulnerabilidades norte-americanas. Retorna também uma crença na importância da Organização das Nações Unidas (ONU), na diplomacia em geral - com uma nova ênfase em iniciativas regionais amplas - e nas relações com os aliados na Europa Ocidental.

Como a "guerra ao terror" era o princípio organizador da política externa de George W. Bush, não é de se surpreender que a equipe de Obama esteja exigindo uma reavaliação nesta área. A decisão anterior de fechar a prisão na Baía de Guantánamo refletiu a ideia de que a luta contra o terrorismo refere-se tanto a ideias e princípios quanto à força militar. Daniel Benjamin, pesquisador da Brookings Institution que deverá assumir um cargo importante no Departamento de Estado na área de contra-terrorismo, argumentou que é improvável que o terrorismo algum dia desapareça completamente. Em vez disso, trata-se de uma ameaça que precisa ser "administrada e reduzida".

De forma similar, Philip Gordon - também da Brookings Institution, e que deverá assumir o cargo de secretário assistente de Estado para a Europa - argumenta que "a batalha contra o terrorismo islâmico será vencida quando a ideologia que o sustenta deixar de ser atraente".

Essa reformulação da guerra contra o terror reflete uma reavaliação mais ampla, tanto do poder norte-americano quanto da segurança nacional dos Estados Unidos. Em vez de colocar o poderio militar no centro da política externa norte-americana, a equipe de Obama deseja reabilitar o "poder brando" dos Estados Unidos - diplomacia, persuasão, influência cultural, auxílio para desenvolvimento e o poder do exemplo. Aliás, o homem que cunhou o termo "poder brando" - Joseph Nye, professor da Universidade Harvard - poderá ser o embaixador dos Estados Unidos no Japão ou na China.

Anne-Marie Slaughter, uma acadêmica da Universidade de Princeton, deverá ser designada para comandar o planejamento de políticas do Departamento de Estado - uma função que já foi desempenhada por George Kennan, o arquiteto da política de contenção da União Soviética. Slaughter está ansiosa para afastar-se da visão de mundo militarizada e maniqueista dos anos Bush. Em um artigo recente, ela sugere que os Estados Unidos "não precisam enxergar-se como país preso a uma luta global com outras grandes potências. Em vez disso, o país deveria ver-se como um protagonista central em um mundo integrado". Para ela, o poder norte-americano tem tanto a ver com uma densa rede de conexões culturais e econômicas com o resto do mundo quanto com o número de porta-aviões da marinha dos Estados Unidos.

Mas embora os pensadores em torno de Obama tenham minimizado as tradicionais ameaças à segurança nacional, eles desejam que o governo leve bem mais a sério uma nova geração de ameaças. Kurt Campbell, que deverá ser secretário assistente de Estado para a Ásia, argumenta que "sem que se tomem providências, a mudança climática talvez venha a representar o maior risco à nossa segurança nacional". Susan Rice, a nova embaixadora dos Estados Unidos na ONU, acredita que a pobreza extrema implica no fracasso do Estado e, portanto: "Nós corremos risco ao ignorarmos ou minimizarmos as implicações da pobreza global para a segurança mundial".

Algumas das declarações passadas de Obama sugerem que a visão do governo Bush, frequentemente messiânica, de "promoção da democracia" como prioridade central da política externa dos Estados Unidos, pode agora ter sido discretamente arquivada. Mas esta é uma área na qual provavelmente haverá debates e discórdias consideráveis dentro do governo Obama. Alguns dos indivíduos nomeados pelo novo presidente podem demonstrar tanto ardor em relação à promoção da democracia quanto qualquer neo-conservador.

Michael McFaul, um acadêmico da Universidade Stanford que deverá assumir o departamento da Rússia no Conselho de Segurança Nacional, por exemplo, argumentou em 2002, no periódico "Policy Review": "Os Estados Unidos precisam novamente tornarem-se uma potência revisionista... O principal objetivo do poder americano é a criação de uma comunidade internacional de Estados democráticos espalhados por todas as regiões do planeta".

Embora a ideia de criação de uma Liga de Democracias como fonte alternativa de legitimidade em relação à ONU tenha ficado fortemente associada à campanha presidencial republicana de John McCain, este é também um conceito que foi usado por alguns assessores de Obama. Ivo Daalder, que deverá ser o embaixador dos Estados Unidos na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), propôs a formação de uma "Otan Global" - uma ideia que pode causar alguma estranheza entre os outros embaixadores da instituição em Bruxelas. Daalder argumentou que, como atualmente a aliança está engajada em missões de âmbito global, sendo a mais óbvia no Afeganistão, ela deveria "abrir vagas para qualquer país democrático do mundo que desejasse e fosse capaz de contribuir para o cumprimento das novas responsabilidades da Otan".

Embora Obama tenha manifestado oposição à Guerra do Iraque, membros da sua equipe de política externa não são contrários ao uso expansivo do poderio norte-americano. Samantha Power, que deverá assumir um cargo graduado no Conselho de Segurança Nacional, atraiu a atenção de Obama quando este leu o livro dela, "A Problem from Hell", ("Um Problema do Inferno"), que criticou a passividade norte-americana frente ao genocídio no Camboja e em Ruanda. Ela acredita fortemente no uso do poderio dos Estados Unidos para alcançar metas humanitárias e impedir futuros genocídios.

Uma crença no intervencionismo liberal e na promoção da democracia não destoa da visão de mundo neo-conservadora. O campo de Obama frequentemente diverge muito da era Bush quanto à crença na importância da ONU. O segundo livro de Power, "Chasing the Flame" ("Perseguindo a Chama"), é uma biografia admirável de um funcionário da ONU morto em um ataque terrorista no Iraque. O fato de o livro dela demonstrar a crença na instituição mundial como uma força benigna constitui-se em um distanciamento da hostilidade e do ceticismo que marcaram os anos Bush.

Acredita-se que, no Conselho de Segurança Nacional, Power receba a missão de lidar com a governança mundial. O congênere dela no Departamento de Estado provavelmente será Carlos Pascual, da Brookings Institution, um outro firme apoiador da ONU. Ele defende a expansão das capacidades da instituição para missões de manutenção da paz.

Muitos desses argumentos pertencem ao reino das grandes teorias. Mas os membros da equipe de Obama também escreveram bastante sobre os problemas diplomáticos difíceis que já estão enfrentando. Richard Holbrooke, que foi nomeado enviado especial para o Afeganistão e o Paquistão, deixou claro que é a favor de uma abordagem regional ampla do problema. Em um artigo recente no periódico "Foreign Affairs", ele argumentou que o Afeganistão deveria ser visto como parte de um "arco de crise" que se estende da Turquia ao Paquistão, passando pelo Iraque e pelo Irã.

A preferência da equipe de Obama por uma abordagem regional poderá também ser demonstrada no Oriente Médio, onde a questão israelense-palestina deverá ser enfrentada como parte de um pacote de problemas interconectados, incluindo países como a Síria, o Líbano e o Irã.

O amplo material escrito pela equipe de Obama fornece alguns indícios de como certos indivíduos nomeados para cargos no governo abordarão as questões. Mas existem também nuances culturais que não são capturadas nos artigos de periódicos e em palestras. Embora muitos dos assessores de Bush fossem do sul e do meio-oeste dos Estados Unidos, vários assessores de Obama possuem laços culturais com a Europa.

Vários deles - incluindo Rice e McFaul - estudaram na Universidade de Oxford com bolsas Rhodes. Daalder nasceu na Holanda e Power na Irlanda. Gordon foi o tradutor oficial da biografia do presidente francês Nicolas Sarkozy; a mãe de Slaughter é belga. E a pièce de résistance: o general Jones, o novo assessor de Segurança Nacional, fala francês fluentemente, tendo cursado a escola secundária na França.

É provável que a velha Europa seja recebida de braços abertos na Washington de Obama.

Seis temas emergem dos escritos daqueles que modelarão a política externa dos Estados Unidos:

  • É preciso reavaliar a guerra ao terror.
  • Os Estados Unidos precisam repensar as suas ideias quanto ao poder e às ameaças.
  • Pode haver intervenção para evitar desastres humanitários.
  • Há uma forte crença na ONU.
  • A diplomacia voltou à moda.
  • A velha Europa também está de volta.

    Tradução: UOL
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