Por que o G20 deve se concentrar na sustentação da demanda

Martin Wolf
Colunista do FT

O encontro de cúpula do Grupo dos 20 principais países industrializados e emergentes em Londres, em 2 de abril de 2009, fracassará. Seus membros estão se recusando a cumprir o que Lawrence Summers, o alto conselheiro econômico do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, chama de "agenda universal de demanda". O saber convencional é o inimigo. A propósito, ele está vencendo.

Nos Estados Unidos, o espírito de Andrew Mellon, o secretário do Tesouro do presidente Herbert Hoover, permanece vivo. Seu conselho - lamentou Hoover - foi: "liquidar a mão-de-obra, liquidar os estoques, liquidar os produtores rurais, liquidar os imóveis". Mas esta visão tola não está animando a política americana. O risco não é não fazer nada, mas sim fazer muito pouco. Se tamanha timidez fracassar, os oponentes argumentarão: estas políticas fracassaram. Isto exacerbará a confusão, tornando mais difíceis e ineficazes as tentativas de uma ação decisiva posterior.

O certo a fazer é mais do que o suficiente. Sempre será possível retirar um estímulo daqui um ano ou dois. Será bem mais difícil agir de modo eficaz se a depressão, tanto econômica quanto social, se instalar.

O que então é "mais do que o suficiente"? Para responder isso, nós temos que reconhecer onde estamos. Primeiro, a recessão é global. Países profundamente dependentes das exportações como fonte de demanda, como a Alemanha, Japão e Coréia do Sul, foram afetados de forma ainda pior do que os Estados Unidos ou o Reino Unido. Segundo, as forças por trás desta recessão são poderosas e duradouras. Elas incluem: vastas perdas de riqueza (estimadas por um estudo do Banco Asiático de Desenvolvimento como próximo a produção global de um ano); dívidas privadas imensas nos países deficitários; e um colapso do funcionamento normal do sistema financeiro.

E o que deve ser feito? A política monetária está em grande parte esgotada: até mesmo taxas de juros próximas de zero fracassam em estimular o crédito e o mundo não pode se desvalorizar em uma recuperação liderada pela exportação. A política monetária pode - e deve - desbloquear os mercados de crédito, sustentar a oferta de dinheiro e apoiar a política fiscal. O Federal Reserve (Fed, o banco central americano) foi o mais longe que pôde nestas direções. Outros estão sendo forçados, aleatoriamente, a segui-lo.

A política fiscal tem um grande papel a cumprir. Em um excelente trabalho, economistas do Fundo Monetário Internacional descrevem o que é necessário como "oportuno, grande, duradouro, diversificado, contingente, coletivo e sustentável": oportuno, grande e duradouro, porque a recessão está aqui, hostil e resistente; diversificado, porque a eficácia de cada medida é incerta; contingente, porque surpresas certamente surgirão; coletivo, porque um estímulo será mais eficaz se mais países participarem; e sustentável, porque reações adversas nos mercados de dívida devem ser contidas.*

Contra estes padrões, os pacotes de estímulo são perturbadoramente modestos. Segundo o FMI, mesmo o estímulo americano representa apenas 4,8% do produto interno bruto. Além disso, como nota o FMI, os estabilizadores automáticos são maiores na Europa do que nos Estados Unidos, por causa de um artigo de bem-estar social mais generoso.** No geral, os Estados Unidos estão fazendo mais do que outros países ricos, mas não muito mais: em relação ao ano pré-crise, a mudança no equilíbrio fiscal geral é prevista em 5,7% do PIB nos Estados Unidos neste ano, contra 4,4% na Alemanha.

Sem causar surpresa, os críticos condenam o recente pacote de estímulo americano como pequeno demais. O professor Martin Feldstein, da Universidade de Harvard, o ex-presidente do conselho de assessores econômicos de Ronald Reagan, argumenta que a "economia americana enfrenta uma demanda US$ 750 bilhões aquém da necessária", em grande parte devido ao declínio de US$ 12 trilhões na riqueza dos lares. O pacote americano compensará, segundo ele, apenas 40% da demanda perdida em 2009 e 2010. Se confirmado, a recessão será profunda e prolongada. O professor Feldstein conclui que "um segundo pacote de estímulo fiscal é provável". De fato, será essencial. Mas, àquela altura, Obama poderá ter perdido o argumento e sua autoridade.

Mas a vontade em fazer mais é fraca, nos Estados Unidos e em outros lugares. A principal justificativa para a cautela é a preocupação com a sustentabilidade a longo prazo. Isto é um erro: a principal ameaça à sustentabilidade não é a crise, mas os gastos em benefícios sociais. As tentativas de coibir os déficits fiscais quando o setor privado está fortemente reduzindo gastos provavelmente fracassará mesmo em seus próprios termos. Finalmente, a política fiscal não pode ser feita de forma independente do que o setor privado está fazendo - de fato, agora estamos vendo aumentos enormes nos déficits fiscais, por causa da gastança anterior nos setores privados, frequentemente de outros países.

Lembre-se que mesmo um aumento de 50 pontos percentuais na relação entre dívida pública e PIB impõe um custo permanente aos contribuintes de 1% a 1,5% do PIB, em um país capaz de tomar empréstimos a taxas de juros reais de, digamos, 2% a 3%. Desde que a credibilidade seja mantida, isto é administrável e, de fato, menos preocupante do que a perda inerente em qualquer desaceleração prolongada.

Resumindo, deter a depressão incipiente vem primeiro. Para que isto funcione, entretanto, uma ação fiscal precisa ser reversível de forma crível: os gastos temporários e reduções de impostos voltados aos grupos de altos gastos serão mais eficazes e menos arriscados do que amplas reduções de impostos.

Os chefes de governo do G20 devem resolver fazer tudo o que for necessário para a sustentação da demanda em casa e nos países em desenvolvimento vulneráveis. Eles devem abandonar a saber convencional e, em vez disso, ousarem ser bem-sucedidos.

*Política Fiscal para a Crise, dezembro de 2008; **O Tamanho da Expansão Fiscal, fevereiro de 2009, www.imf.org

Tradução: George El Khouri Andolfato

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