Wolf - por que os 'brotos verdes' da recuperação ainda podem murchar

Martin Wolf

A primavera (no hemisfério Norte) chegou e os autores de políticas veem "brotos verdes". O conselheiro econômico de Barack Obama, Lawrence Summers, diz que a "sensação de queda livre" na economia americana deve passar em poucos meses. O próprio presidente vislumbra "brilhos de esperança". Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), disse na semana passada que "recentemente passamos a ver pequenos sinais de que o declínio acentuado na atividade econômica pode estar diminuindo, por exemplo, em dados de vendas de imóveis residenciais, construção e no consumo, incluindo a venda de veículos motorizados".

O pior já ficou para trás? Em uma palavra, não. A taxa de declínio econômico está desacelerando. Mas é cedo demais até mesmo para ter certeza de uma recuperação, muito menos de um retorno a um rápido crescimento. Ainda mais remota é a eliminação do excesso de capacidade. O mais remoto de tudo é o fim da desalavancagem. A complacência é perigosa. Estes ainda são os primeiros dias.

Como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) notou em seu recente Panorama Econômico Interino, "a economia mundial está no meio de sua recessão mais profunda e sincronizada de nossas vidas, causada pela crise financeira global e aprofundada pelo colapso do comércio mundial". Na área da OCDE como um todo, a previsão é de que o produto interno sofra uma contração de 4,3% neste ano e 0,1% em 2010, com o desemprego aumentando para 9,9% da força de trabalho no próximo ano. Até o final de 2010, o "hiato do produto" -uma medida de excesso de capacidade- é previsto para ser de 8%, duas vezes mais do que na recessão do início dos anos 80.

Nos Estados Unidos, a taxa de declínio na produção do setor manufatureiro é comparável ao da Grande Depressão. A produção de manufaturados no Japão já caiu quase tanto quanto nos Estados Unidos durante os anos 30. A desintegração do sistema financeiro é, supostamente, pior do que naquela época.

Se o mundo experimentar uma "Grande Recessão", em vez de uma Grande Depressão, a escala das políticas será a explicação. Três dos bancos centrais mais importantes do mundo -o Federal Reserve, o Banco do Japão e o Banco da Inglaterra- possuem taxas oficiais próximas de zero e adotaram políticas não convencionais. O verdadeiro déficit fiscal em toda a OCDE é previsto como sendo de 8,7% do produto interno bruto no próximo ano, com um déficit estrutural de 5,2%. Nos Estados Unidos, os números correspondentes são de 11,9% e 8,2%. Os governos dos países ricos também colocaram suas saudáveis classificações de crédito à disposição de seus sistemas financeiros que se comportaram mal, na mais abrangente socialização do mercado de risco na história mundial.

Seria impossível tamanha atividade não ter nenhum efeito. Nós podemos de fato ver uma normalização parcial dos mercados financeiros, com uma redução acentuada nos spreads entre ativos de maior e menor risco. O índice mundial FTSE saltou em 24% e o S&P 500 em 23% desde 9 de março de 2009. Os índices dos gerentes de compras estão ganhando força. Mais amplamente, as chances de uma recuperação no setor manufatureiro são altas: grandes quedas na demanda geram acúmulo de estoque e colapso na produção. Esta última certamente será revertida. O crescimento da China está sendo retomado.

Nós podemos dizer com certa confiança que o sistema financeiro está estabilizando e a taxa de declínio na demanda está desacelerando. Mas esta recessão global é diferente de qualquer outra desde a Segunda Guerra Mundial. Sua principal característica é a incerteza.

Considere os perigos óbvios: dada o imenso excesso de capacidade, permanece um risco de deflação, com resultados potencialmente terríveis para os devedores excessivamente endividados; dado o aumento do desemprego e as perdas imensas de riqueza, os lares endividados em países com baixa poupança poderão aumentar suas taxas de poupança em níveis excepcionais; dado o colapso na demanda e lucros, cortes de investimento poderão ser excepcionalmente prolongados e severos; dados os imensos e persistentes déficits fiscais e crescimento de dívidas, a aversão ao risco poderá levar a taxas de juros mais altas nos empréstimos pelo governo; e dada a fuga de devedores de maior risco, várias economias emergentes poderão se ver em uma queda em parafuso viciosa de enfraquecimento do afluxo de capital, queda no produto interno e redução na qualidade dos ativos.

Resumindo, como notaram Stephen King e Stuart Green do HSBC em um recente relatório, a dinâmica excepcional desta crise sugere um ceticismo saudável a respeito do tempo e velocidade da recuperação. O que é mais perturbador, entretanto, é a escala da ação política necessária para conter esta queda em parafuso. Isto gera a grande pergunta: como e quando o mundo poderá voltar à normalidade, com posições fiscais sustentáveis, taxas de juros de curto prazo fortemente positivas e sistemas financeiros solventes? O fato do Japão ter fracassado em conseguir isso ao longo de 20 anos é certamente assustador.

O que considero mais perturbador de tudo é a relutância em admitir a natureza do desafio. Em seu conselho de políticas, mesmo a OCDE parece acreditar que esta é principalmente uma crise financeira e uma que pode ser superada em curto prazo. Mas isso parece cada vez mais implausível: em seu mais recente Relatório de Estabilidade Financeira Global, o Fundo Monetário Internacional agora estima as perdas gerais no setor financeiro em US$ 4,1 trilhões. A próxima estimativa supostamente será maior.

Acima de tudo, a crise financeira é por si só um sintoma de uma desordem no balancete. Esta, por sua vez, é em parte consequência dos desequilíbrios estruturais em conta corrente. Logo, nem um estímulo macroeconômico de curto prazo e nem uma reestruturação dos balancetes das instituições financeiras gerará um crescimento global saudável e sustentável.

Considere o exemplo dos Estados Unidos, dos quais a demanda final tanto depende. A dívida total do setor privado aumentou de 112% do PIB em 1976 para 295% no final de 2008. Somente a dívida do setor financeiro saltou de 16% para 121% do PIB ao longo desse período. Quanta redução destas medidas de alavancagem ocorreu no ano de crise de 2008? Nenhuma. Pelo contrário, a alavancagem aumentou ainda mais.

O risco é de que uma recuperação, apesar de rasa, convencerá o mundo de que as coisas em breve retornarão a como eram. Elas não retornarão. Apenas mostrará que o colapso não dura para sempre assim que um estímulo substancial é aplicado. A verdade brutal é de que o sistema financeiro ainda está longe de saudável, a desalavancagem dos setores privados dos países altamente endividados ainda não começou, o reequilíbrio necessário da demanda global mal começou e, por todos estes motivos, um retorno ao crescimento sustentado, liderado pelo setor privado, provavelmente permanece distante no futuro.

A economia mundial não pode voltar a como era antes da crise, porque ela era comprovadamente insustentável. Ela está nos primeiros estágios de uma longa e dolorosa desalavancagem e reestruturação. Felizmente, os autores de políticas eliminaram os piores resultados possíveis. Mas ainda resta muito a ser feito antes que os frágeis brotos possam se tornar plantas saudáveis.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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