Desespero cresce diante de pouca ajuda em porto chileno

Andrés Schipani

Em Talcahuano

  • Ricardo Mazalan/AP

    Homem observa destruição causada pelo terremoto em Talcahuano (Chile)

    Homem observa destruição causada pelo terremoto em Talcahuano (Chile)

O ar está pesado com o fedor de peixe podre no porto arruinado de Talcahuano, no Sul do Chile, mas as pessoas temem que de fato possa ser o cheiro dos mortos.

Os moradores acham que inúmeras pessoas ainda podem estar presas sob a lama e os destroços que caíram enquanto tentavam correr para as montanhas acima do porto, no meio da noite no último sábado, quando um terremoto devastador de 8,8 graus de magnitude liberou uma tsunami que arrasou cidades ao longo da costa.

Um navio mercante de 25.000 toneladas é um testamento à força da onda. Seu casco vermelho e preto agora está preso no píer. Estava em um estaleiro para reparos, mas foi jogado com a tsunami.

“Talcahuano foi devastada –devastada”, diz Jorge Cabrales, empurrando um carrinho com garrafas plásticas vazias enquanto busca água.

“Estamos desesperados. Não há comida, água, combustível, nada –nada. Estamos sem água potável desde sábado.

“Eles nos disseram que os bombeiros viriam logo, mas só fazemos esperar, e nada.”

Talcahuano era um dos maiores portos do Chile, uma porta para as exportações de cavala, sardinha e produtos industriais para o Pacífico. Agora, os barcos estão de cabeça para baixo, os contêineres, espalhados, e há carros destruídos por toda parte até 500 metros da costa. Sacas de farinha de peixe estouraram e grandes trechos da estrada simplesmente foram destruídos.

O total oficial provisório de mortos no país aumentou para mais de 800, mas as pessoas em Talcahuano, em choque, não têm a menor idéia de quantas vidas se perderam.

“Não sei quantas pessoas podem estar mortas. Nenhuma autoridade veio aqui. Mas acho que não serão poucas”, disse um homem chamado Jorge.

Poucas ruas para dentro da cidade, na parte antiga, Abel Flores está chorando a perda de seu pai, que foi esmagado quando seu quarto de dormir desmoronou.

A casa de Flores se foi, a fábrica onde trabalha foi danificada e fechada até segunda ordem, e ele não tem notícias da filha. “Sei que não devo desistir, mas perdi tudo”, diz, empurrando um carrinho de mão enquanto ajuda seu vizinho a remover uma enorme pilha de destroços.

O Chile, devastado pelo mais forte terremoto do século 20 em 1960, no qual 1.665 pessoas morreram, é um dos países mais sismicamente ativos do mundo.

“Essa área em particular estava esperando um terremoto nos últimos 175 anos”, disse Marcelo Lagos, geógrafo e especialista em tsunami.

“Houve um acúmulo enorme de energia desde o terremoto que atingiu essa área em 1835 –que foi um dos primeiros relatos de tsunamis escritos e pelo próprio Charles Darwin”, acrescenta.

“Em algum momento, ia acontecer.”

Ali perto fica Concepción, a segunda maior cidade do país, que foi atingida por uma série de réplicas violentas de até 6,8 de magnitude nos últimos dias, enquanto um enorme esforço de emergência entrou em ação no país.

Mas Talcahuano –que, como outras cidades do Sul continua sob toque de recolher com soldados em jipes patrulhando as ruas- ainda tem muitos saques, e a ajuda ainda não parece ter chegado em grande escala.

“Estamos fazendo tudo o que podemos, mas a tsunami lavou embora nosso escritório daqui”, diz Elizabeth Rueda do ramo local da Cruz Vermelha, localizado na frente do mar.

“Ainda há desaparecidos e pânico –muito pânico”.

Um morador, Enrique Vivas, estava carregando duas garrafas plásticas cheias de combustível de um posto de gasolina onde dezenas que estava sendo saqueado, apesar da patrulha militar na rua seguinte.

“Estamos com fome e sede, e as autoridades estão dando atenção a outros lugares, como Concepción, mas não para nós”, diz ele. “Não somos criminosos. Simplesmente estamos desesperados.”

Tradutor: Deborah Weinberg

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