Bancos estrangeiros podem enfrentar crise com vencimento de trilhões em dívidas

Jack Ewing

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Era de se esperar que crise da dívida soberana já criasse preocupação demais para os bancos europeus, mas há outra ameaça crescente que não despertou tanto a atenção: os trilhões de dólares em empréstimos de curto prazo que instituições de todo o mundo precisam pagar ou renegociar nos próximos dois anos.

O Banco Central Europeu, o Banco da Inglaterra e o Fundo Monetário Internacional alertaram recentemente em relação à ameaça de uma quebra, especialmente na Europa, onde os bancos já têm problemas suficientes para levantar dinheiro.

Eles temem que a fome dos bancos por refinanciamentos concorra com os governos – que também precisam renegociar grandes somas – pelos favores do mercado de títulos. Como resultado, o crédito para empresas e consumidores poderia ser muito caro e escasso, com consequências desagradáveis para o crescimento econômico.

“Estamos correndo em direção a um precipício – é muito sério”, diz Richard Barwell, economista do Banco Real da Escócia que já foi economista sênior no Banco da Inglaterra, o banco central do país. “Ninguém parece falar muito sobre isso”. Mas, ele acrescentou: “é de importância prioritária para os empréstimos e rendimentos.”

Bancos em todo o mundo devem cerca de US$ 5 trilhões para donos de títulos e outros credores, e isso vencerá até o fim de 2012, de acordo com estimativas do Banco de Acordos Internacionais. Cerca de US$ 2,6 trilhões dessa dívida estão na Europa.

Os bancos norte-americanos precisam refinanciar cerca de US$ 1,3 trilhão até o fim de 2012. Embora não se possa brincar com esse número, os analistas parecem mais preocupados com a Europa porque o sistema bancário lá já está sobrecarregado com a crise da dívida soberana.

Como os bancos arranjarão dinheiro é uma questão em aberto. Com os investidores preocupados com o excesso da dívida governamental da Grécia, Espanha, Irlanda e outras partes da Europa, muitos bancos relutam ou não podem vender títulos, que eles normalmente usam para levantar dinheiro que depois emprestam para empresas e indivíduos.

A quebra financeira tem suas origens numa tendência mundial dos bancos de emprestarem dinheiro por períodos mais curtos.

A prática de tomar dinheiro a curto prazo e emprestar a longo contribuiu para o quase colapso do sistema financeiro mundial no final de 2008 quando os financiamentos de curto prazo secaram. Os bancos se descobriram sem dinheiro, e alguns teriam entrado em colapso sem o apoio do banco central.

As garantias dos bancos do governo que foram estendidas em resposta à crise também encorajaram inadvertidamente os empréstimos a curto prazo. As garantias eram normalmente por poucos anos, e os bancos emitiram títulos para completá-las.

Outros bancos tiraram vantagem da diferença entre as taxas de curto e longo prazo, tomaram empréstimos com juros baixos nos mercados de dinheiro ou dos bancos centrais e emprestaram para seus clientes a longo prazo, com juros mais altos.

Um estudo de novembro feito pelo Serviço Moody's para Investidores descobriu que os novos títulos emitidos pelos bancos durante os últimos cinco anos expiram em média dentro de 4,7 anos – a menor média em 30 anos.

Desde então, as preocupações em relação à dívida da Grécia e da Espanha e o temor de que a Europa esteja a caminho de outra recessão causaram novos problemas. Os investidores não têm certeza de quais instituições estão em boa forma e quais estão sentadas em pilhas de empréstimos ruins e títulos governamentais de má qualidade.

A emissão de títulos por instituições financeiras na Europa caiu para US$ 10,7 bilhões em maio, em comparação com US$ 106 bilhões em janeiro e US$ 95 bilhões em maio de 2009, de acordo com a Dealogic, empresa que fornece dados. Novas emissões se recuperaram de certa forma desde então, para US$ 42 bilhões em junho e US$ 19 bilhões até agora em julho.

Os testes de estresse bancário que estão sendo feitos por reguladores europeus podem ajudar se conseguirem convencer os mercados que a maior parte dos bancos está saudável. Os reguladores dos bancos planejam divulgar os resultados desses testes que cobrem 91 grandes bancos, em 23 de julho.

Sandeep Agarwal, chefe de capital de débito de instituições financeiras na Europa no Credit Suisse, prevê que o mercado pode se separar entre os que têm e os que não têm, com os bancos saudáveis levantando dinheiro com facilidade e os bancos fracos tendo que pagar uma quantia para isso. “Há dinheiro disponível pelo preço certo para muitas instituições, mas não para todas”, diz Agarwal.

Isso pode acrescentar pressão nos bancos mais fracos para que eles façam fusões, busquem ajuda do governo, ou reduzam suas atividades. Alguns podem até quebrar. O Landesbanks na Alemanha, os bancos de poupança na Espanha ou outras instituições que tiveram problemas podem ser obrigados a confrontar escolhas difíceis.

Uma falta de finanças bancárias também poderia criar problemas para o Banco Central Europeu, que parece ansioso para desmamar os bancos do dinheiro barato que começou a fornecer no auge da crise financeira global.

Se as instituições forem incapazes de levantar o dinheiro que precisam no mercado aberto, o Banco Central Europeu teria que decidir se continua a ajudá-las.

“Os bancos que tiverem dificuldades em conseguir novas fontes de fundos terão que reduzir de tamanho”, o Banco de Acordos Internacionais disse em seu relatório anual no final de junho. A instituição, sediada em Basel, na Suíça, reúne os principais bancos centrais do mundo.

Stephen G. Cecchetti, chefe do departamento monetário e econômico da instituição, chamou o problema do refinanciamento de “uma vulnerabilidade que precisamos observar”. Mas acrescentou numa entrevista por telefone: “Estou confiante que as autoridades nacionais tomarão as medidas necessárias para que isso não seja um problema.”

Os bancos insistem que têm a confiança dos mercados e serão capazes de levantar o dinheiro de que precisam.

“Estamos numa posição confortável”, disse Horst Bertram, chefe de relações com investidores no Bayerische Landesbank, o maior Landesbank da Alemanha, que pertence ao Estado da Bavária e a bancos de poupança locais. Ele disse que como resultado do apoio do governo e de uma restruturação radical no ano passado, o banco tem bastante dinheiro e uma necessidade limitada de novos financiamentos.

O Commerzbank, que pertence em parte ao governo alemão depois da ajuda financeira, diz que sua liquidez está com folga dentro dos limites regulatórios. O Commerzbank “pode refinanciar a qualquer momento em condições de mercado”, disse o banco.

Mesmo que não haja uma crise no mercado, os bancos ainda enfrentam a transição para um período de taxas de juros mais altas que pesarão sobre os lucros.

O custo de emprestar dinheiro deve aumentar mais rápido do que os bancos podem repassar para seus clientes, dizem os analistas.
Jean-François Tremblay, vice-presidente da Moody's que estudou o tema do refinanciamento, diz que até agora os bancos conseguiram refinanciar suas dívidas melhor do que o esperado. Eles aumentaram os depósitos de clientes, tiraram dinheiro dos bancos centrais, ou simplesmente reduziram seus empréstimos e sua necessidade de novos financiamentos – o que é exatamente o que alguns economistas temiam.

O Banco da Inglaterra estima que os bancos britânicos precisarão emitir 25 bilhões de libras em títulos a cada mês para atingir suas necessidades de refinanciamento, o que o banco central estabelece em 800 bilhões de libras, ou US$ 1,2 trilhão. Isso significa que os bancos terão que vender novos títulos com o dobro de juros que vêm emitindo até agora este ano.

“Existe o risco de que os bancos aliviem suas próprias pressões de financiamento reduzindo ainda mais as condições de crédito para os clientes”,disse o Banco da Inglaterra no mês passado em seu Relatório de Estabilidade Financeira. “Isso reduziria a recuperação econômica e então aumentaria o risco de crédito para todos os bancos.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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