Terremoto é somado aos desafios para o líder chileno Sebastián Piñera

Jude Webber

  • Martin Bernetti/AFP

    Presidente do Chile, Sebastián Piñera, toma posse

    Presidente do Chile, Sebastián Piñera, toma posse

Sebastián Piñera, a face da nova direita respeitável do Chile, quer ser um estadista. Mas quatro meses após o início de sua presidência, ele parece e soa mais como um empresário em uma missão de recuperação de empresa.

Se o Chile fosse uma empresa como aquelas com as quais Piñera ganhou seus bilhões, ela seria uma história de sucesso: o crescimento é alto, apesar do panorama difícil para muitos parceiros comerciais. O país tem reservas de US$ 11 bilhões oriundas do cobre, seu principal produto de exportação e um retrospecto invejável de gestão financeira prudente. Mas quase todo centímetro da mesa de Piñera, no palácio presidencial La Moneda, está tomado por relatórios sobre como o país poderia se sair melhor. Ele tem uma calculadora à mão, um bloco com números anotados diante dele e um terminal Bloomberg. A impressão é de um microgestor workaholic, um Nicolas Sarkozy sul-americano hipercinético.

Piñera conquistou seu mandato de quatro anos pregando a necessidade de mudança de marcha após 20 anos de governo da coalizão esquerdista Concertación, que assumiu o poder após os 17 anos de ditadura do general Augusto Pinochet. Isso foi antes de um terremoto e tsunami devastadores, duas semanas antes de sua posse, terem causado US$ 30 bilhões em danos e virado sua agenda pelo avesso.

O Chile se recuperou e a economia cresceu 7,1% em maio em comparação ao mesmo mês do ano passado, estabelecendo o curso para uma expansão de 4,8% neste ano, após uma retração de 1,5% em 2009. Mas tanto quanto cumprir as promessas ambiciosas de criar 1 milhão de empregos, aumentar o crescimento para uma média de 6% ao ano e atingir um equilíbrio orçamentário estrutural até 2014, Piñera precisa encontrar US$ 8,4 bilhões extras para reconstrução das casas, escolas, hospitais e infraestrutura destruídos.

“Não julgue nossa intenção, mas sim os resultados”, ele diz. “Eu sinto que em pouco mais de 100 dias, nós conseguimos resultados muito férteis, mas o melhor ainda está por vir.”

Piñera está assumindo causas que poderiam parecer surpreendentes para a direita no Chile socialmente conservador, como o apoio à lei que permite a união civil de homossexuais. Mas muitos chilenos contestam sua afirmação de “grandes mudanças”. Mesmo dentro da comunidade empresarial – o eleitorado natural de um presidente que foi um grande acionista da companhia aérea LAN e ainda é dono de uma emissora de televisão, que ele está tentando vender– há dúvidas. “Não é muito diferente do governo anterior”, nota um executivo. As pesquisas de opinião colocam os índices de aprovação de Piñera em 53% a 54%, o mais baixo de qualquer presidente em início de mandato desde o retorno da democracia em 1990, e o Gabinete, repleto de economistas pesos pesados e ex-industriais, é mais popular do que seu chefe.

Um poliglota com Ph.D. em economia por Harvard, que faz referências frequentes à sua fé católica, valores familiares e fala de forma resumida sobre sua vocação para o serviço público, Piñera tem sido atacado por ser extremamente informal e satirizado na televisão

Ele reconhece “não ficar impassível” diante das críticas, mas diz: “O Concertación esteve no poder por 20 anos. Somos uma equipe nova. Nós temos que aprender”.

Um problema é que algumas reformas, como a dos mercados de capital para aumentar os investimentos e empregos, são técnicas demais para muitos eleitores entenderem. A pobreza é mais fácil de entender: Piñera prometeu erradicar a indigência entre os 17 milhões de habitantes até 2014, mas novos dados mostram que a taxa de pobreza, que caiu de quase 40% em 1990 para 13,7% em 2006, aumentou para 15,1%. O governo concedeu um aumento no salário mínimo de apenas 4,2%, para 172 mil pesos (US$ 320) neste mês, dizendo que não pode arcar com mais.

Muitos pobres sentiram que isso foi um tapa na cara.

Piñera planeja um subsídio de “bolsa-família ético”, condicional e que diminuirá com o tempo para não criar uma cultura de esmola.

Ele prevê a “mãe de todas as batalhas” em seus planos para reforma do sistema de educação, em parte por meio de melhor gestão e maior treinamento.

A flexibilidade do mercado de trabalho e a agenda tradicional conservadora de combate às drogas e ao crime também são prioridades.

Mas nem tudo tem transcorrido de forma tranquila. Os planos para criação de um imposto de mineração para levantar US$ 1 bilhão para a reconstrução foram descartados pelo Congresso neste mês. No lado positivo, o Chile foi elevado pela agência de classificação Moody’s em junho, para Aa3, o quarto mais alto grau de investimento.

Piñera é claro a respeito da necessidade de manter o embalo.

“Sem coragem, sem glória”, ele diz.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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