De skinhead a judeu ortodoxo

Dan Bilefsky
Em Varsóvia

Às vezes, quando Pawel se olha no espelho, ainda é capaz de enxergar um skinhead neonazista retribuindo seu olhar, o homem que costumava ser antes de cobrir sua cabeça raspada com um yarmulke, substituir sua ideologia fascista pela Torá e trocar a violência e o ódio pelo louvor a Deus.

“Ainda luto todos os dias para descartar minhas antigas ideias”, diz Pawel, um judeu ultraortodoxo e ex-motorista de caminhão de 33 anos, observando com alguma ironia que teve de parar de odiar os judeus para poder se tornar um.

  • Yannis Behrakis/Reuters

    Judeu ortodoxo assiste a um vídeo sobre propaganda nazista na Segunda Guerra Mundial, em mostra no museu do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, Israel

“Quando vejo uma foto minha da época de skinhead, fico envergonhado. Todo dia tento fazer teshuvah”, diz ele, usando a palavra hebraica para penitência. “A cada minuto do dia. Há muito para redimir.”

Pawel, que também usa seu nome hebreu Pinchas, pediu para que seu sobrenome não fosse divulgado, temendo que seus antigos amigos neonazistas pudessem ir atrás dele ou de sua família.

Pawel talvez seja o exemplo mais improvável do atual renascimento judeu na Polônia, no qual centenas de poloneses, a maioria criados como católicos, estão se convertendo ao judaísmo ou descobrindo suas raízes judaicas enterradas há décadas, logo após a 2ª Guerra Mundial.

Antes de 1939, a Polônia abrigava mais de três milhões de judeus; mais de 90% deles foram mortos pelos nazistas durante o Holocausto. A maioria dos que sobreviveram emigraram. Entre os menos de 50 mil que permaneceram na Polônia, muitos abandonaram ou esconderam o judaísmo ao longo décadas de opressão comunista durante a qual continuaram os massacres contra judeus.

Mas o rabino Michael Schudrich, rabino chefe da Polônia, observou que 20 anos depois da queda do comunismo, um reconhecimento histórico finalmente começou a acontecer. Ele disse que a metamorfose de Pawel ilustra o quanto o país se transformou.

“Antes de 1989 havia uma sensação de que não era seguro dizer 'Eu sou judeu'”, diz ele. “Mas hoje, há um sentimento crescente de que os judeus são uma espécie de membro perdido na Polônia.”

Há cinco anos, observa o rabino, havia cerca de 250 famílias na comunidade judaica de Varsóvia; hoje há 600. Durante esse período, o número de rabinos que serve o país aumentou de um para oito. Os cafés e bares do antigo bairro judeu em Cracóvia estão cheios de jovens judeus recém-convertidos ouvindo hip-hop israelense. Até vários padres decidiram se tornar judeus.

A transformação de Pawel, de skinhead batizado na igreja católica em judeu, começou num bairro frio e cheio de prédios de concreto em Varsóvia nos anos 80. Pawel contou que ele e seus amigos reagiram à uniformidade mordaz do socialismo abraçando o antissemitismo e a ideologia de extrema-direita. Eles raspavam a cabeça, carregavam facas, e cumprimentavam uns aos outros com o gesto de saudação dos nazistas.

“Oy Vey [Oh, não], odeio admitir isso, mas nós batíamos nas crianças judias e árabes e em alguns moradores de rua”, disse Pawel recentemente na Sinagoga Nozyk. “Cantávamos sobre coisas estúpidas como Satã e assassinatos. Acreditávamos que a Polônia deveria ser só para os poloneses.”

  • Laszlo Balogh/Reuters

    Marca nazista tatuada na mão de um skinhead é flagrada durante ato do dia do “orgulho nazista” em Budapeste, em 09 de fevereiro de 2008

Um dia, lembra-se, ele e seus amigos mataram aula e tomaram um trem para Auschwitz, o campo de concentração nazista, próximo de Cracóvia. “Fizemos piada dizendo que queríamos que a exposição fosse maior e que os nazistas tivessem matado ainda mais judeus”, diz.

Ele conta que seus pais, uma professora e um homem de negócios, católicos praticantes, suspeitaram que ele era skinhead, mas tinham esperança de que fosse só uma fase.

“Nunca fui pego pelas coisas que eu fiz e nem fui preso, então meus pais não perceberam que as coisas estavam tão ruins”, diz ele. “Mas eles ficavam estressados vez ou outra quando eu chegava em casa de manhã ferido e coberto de sangue.”

Pawel conta que, mesmo quando escolheu a vida de neonazista, ele tinha a sensação de que sua identidade havia sido construída sobre uma mentira. Seu pai, frequentador da igreja, parecia gostar muito de citar o Velho Testamento. E seu avô havia dado dicas de que havia segredos quanto ao passado da família.

“Uma vez, quando falei para o meu avô que os judeus eram maus, ele explodiu e gritou comigo: 'Se eu ouvir você dizendo algo assim de novo na minha casa, você nunca mais voltará aqui!'”

Pawel entrou para o exército e se casou com uma colega skinhead aos 18 anos. Mas seu senso de identidade mudou irrevogavelmente aos 22, quando sua mulher, Paulina, suspeitou que ele tinha raízes judaicas, foi a um instituto genealógico e descobriu o nome dos avôs maternos de Pawel num registro de Judeus de Varsóvia, junto com os seus próprios avós.

Pawel conta que, quando confrontou seus pais, eles não resistiram e disseram a verdade: que sua avó materna era judia e que havia sobrevivido à guerra escondida num convento por um grupo de freiras. Seu avô paterno, também judeu, tinha cinco irmãos e irmãs, a maioria mortos no Holocausto.

“Fui até meus pais e disse: 'Que diabos?' Imagine só, eu era um neonazista e recebi essa notícia. Não consegui olhar no espelho durante semanas. Aquilo foi um choque e ainda é um choque para mim”, diz ele. “Meus pais eram os típicos filhos de sobreviventes de guerra judeus, que decidiram esconder sua identidade judaica para tentar proteger a família.”

Estremecido por descobrir suas raízes judaicas, Pawel disse que decidiu ver o rabino Schudrich, que deu a ele uma cópia da Bíblia Hebraica.

“Passei semanas fechado como uma tartaruga, questionando tudo em que eu havia acreditado. Eu tinha dentro de mim uma sensação profunda de que precisava fazer isso, eu tinha que me tornar judeu. Quando perguntei ao rabino: 'Por que me sinto assim?', ele respondeu: 'As almas dormentes de seus ancestrais o estão chamando.'”

Pawel disse que sua transformação foi árdua, semelhante a um renascimento. Ele disse que obrigou-se a reler “Mein Kampf” mas não conseguiu chegar ao fim porque sentiu uma repulsa física.

Aos 24 anos, ele foi circuncidado. Dois anos depois, decidiu se tornar um judeu ortodoxo. Sua mulher começou a usar um sheitel, a boina que as mulheres ortodoxas usam para demonstrar modéstia.

Hoje, eles têm dois filhos, que estão criando num lar judeu. Pawel também está estudando para se tornar um shochet, a pessoa encarregada de matar animais de acordo com as leis judaicas. “Sou bom com facas”, explicou.

Pawel disse que gosta do significado e disciplina que o judaísmo ultraortodoxo trouxe para sua vida. Ele reconhece que é atraído por extremos.

“Quando faço qualquer coisa, não vou só até a metade do caminho”, diz ele. “Eu ainda tenho dificuldades acordar para rezar todas as manhãs. Tenho que lembrar que quando eu como carne, não posso tomar leite com o café porque não é kosher. Tenho que pensar antes de fazer qualquer coisa.”

Seus pais não abraçaram o judaísmo, mas ele diz que sua mãe às vezes visita a casa dele nas sextas-feiras e acende as velas do Sabbath.

Quando seu pai morreu no ano passado, Pawel foi a um cemitério católico e fez a kaddish, a oração judaica do luto, em frente do túmulo.

Embora a Polônia tenha desejado superar sua história de antissemitismo, cultivando laços estreitos com Israel, adotando a música Klezmer e escritores em iídiche como seus tesouros nacionais, e desculpando-se pelas transgressões do passado, Pawel observa que ele continua sendo alvo dos mesmos antissemitas que antes contavam com ele entre seus membros.

Ele elogia a nova receptividade que as gerações mais jovens da Polônia têm em relação ao judaísmo, mas diz que alguns, apesar disso, internalizaram o ódio de seus pais.

“Quando os jovens me veem nas ruas com meu chapéu e costeletas, às vezes riem de mim. Mas as mulheres mais velhas são as piores”, diz ele. “Às vezes, elas usam a mesma linguagem que eu usava quando era skinhead e dizem: 'Vá embora e volte para o seu país', ou 'Judeu, vá para casa!' Outros sentem o vazio que os judeus deixaram na Polônia quando foram assassinados e se aproximam para dizer 'shalom'.”

Quaisquer que sejam os desafios, o rabino Schudrich diz que a transformação de Pawel é uma história com uma moral decididamente judaica a respeito da possibilidade de mudança.

“A lição da história de Pawel é que ninguém deve perder a esperança”, diz ele. “O impossível só leva um pouco mais de tempo.”

Tradutor: Eloise De Vylder

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