O Taleban está batendo, mas não está vencendo no Afeganistão, diz o secretário-geral da Otan

Anders Fogh Rasmussen

Em Bruxelas (Bélgica)

  • Christian Charisius/Reuters

    O dinamarquês Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da Otan

    O dinamarquês Anders Fogh Rasmussen, secretário-geral da Otan

As notícias do Afeganistão nos últimos dias têm sido perturbadoras: um ataque terrorista do Taleban em Cabul; um assalto dramático, porém fracassado, contra uma base da Otan; incidentes de intimidação pelo Taleban em Helmand Central e Candahar, onde as forças afegãs e da Otan estão aumentando suas operações. 

Nada disso pode ou deve ser negado. Mas é importante explicitar adequadamente o que está acontecendo em 2010. Sabemos que continuará havendo ofensivas do Taleban e de outros insurgentes terroristas. Seria impossível tentar deter ou impedir todos os ataques. 

Acontece que em 2010, impedir cada ataque não é o ponto. Sim, há uma ofensiva afegã e da Otan em 2010 –mas a nossa ofensiva é política e tem como alvo o coração do Taleban. 

A meta desta ofensiva política é, em essência, mudar as condições políticas nas principais áreas estratégicas do Afeganistão, para que sejam marginalizados os elementos mais extremos da insurgência –aqueles que não vão desistir do terrorismo e da intimidação sob nenhuma circunstância. Nossa meta é assegurar que não tenham o apoio político para impor um desafio estratégico ao governo afegão –e, que com isso, percam a força. 

Uma série de medidas está sendo tomada para lidar com esse desafio político. Elas são todas lideradas pelos afegãos, mas a Otan está fornecendo apoio generalizado. 

Primeiro, a jirga de paz do presidente Karzai, que terá início em poucos dias, vai pavimentar o caminho para um processo de paz interno no país. A jirga vai estabelecer as condições pelas quais os afegãos que não quiserem mais apoiar o Taleban possam levar uma vida pacífica e honrosa dentro do sistema afegão. 

Segundo, a Conferência da Cabul, no final de julho, vai estabelecer as fundações da transição para a liderança política e militar afegã. Nossa meta é começar o processo de transição este ano. 

Terceiro, haverá eleições em setembro para dar ao parlamento afegão um novo mandato. As eleições devem ser bem administradas e inclusivas. Há já um sinal encorajador: 20% dos que se inscreveram para concorrer são mulheres. Isso é notável para o Afeganistão e um exemplo para a região. 

A operação política e militar em Halmand Central e Candahar reflete esse foco político. Não haverá um “dia D” em Candahar. Nosso esforço nesta região consiste numa campanha combinada afegã e internacional, civil e militar, para mudar a situação política e gradualmente aumentar a segurança, reforçar a governabilidade e expandir a autoridade do governo em áreas importantes de influência insurgente. 

É mais lento do que um assalto militar. Não é tão visível quanto um ataque a uma base aérea ou um ataque suicida no centro de Cabul. E vai levar tempo. 

Mas três meses após o início de nossos esforços em Helmand Central, há claras indicações que esta ofensiva política pode funcionar. Em uma área onde não havia governo exceto pela brutalidade do Taleban, os líderes locais agora estão se reunindo livre e regularmente para traçar seu próprio futuro. Vinte e duas novas escolas estão ensinando mais de 3.000 crianças, das quais pelo menos 400 são meninas –algo impossível poucas semanas antes. Por causa da segurança aumentada, mais de 20 mercados agora estão abertos. E como o público se sente mais seguro, o trânsito quadruplicou nas últimas 10 semanas. 

É claro que a situação de segurança permanece difícil. O Taleban está se escondendo entre a população local e tentando intimidá-la. Sua arma preferida –o dispositivo explosivo artesanal- continua sendo uma ameaça letal aos moradores, às autoridades locais e às nossa forças. Felizmente, o número de ataques por esses dispositivos no Helmand Central está declinando, enquanto o número de apreensões de explosivos está aumentando, em parte porque as pessoas estão denunciando aos soldados onde estão sendo plantados. 

Ninguém tem ilusões que o sucesso no Afeganistão será fácil. Nós –o povo afegão e os soldados da missão da Otan- já pagamos um preço alto, e há mais dias difíceis à frente. 

Mas lenta e seguramente, o governo afegão vai continuar a se fortalecer e se tornar mais legítimo aos olhos de seu povo. Cada vez mais afegãos vão se afastar do Taleban. E o Afeganistão vai se tornar um lugar onde o terrorismo não será acolhido, não terá porto seguro, ou um local onde se reagrupar e se inspirar. 

(Anders Fogh Rasmussen é secretário-geral da Otan).

Tradutor: Deborah Weinberg

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