Em meio à crise, surgem dúvidas sobre a atuação do Banco Central Europeu

Landon Thomas Jr.

Em Londres (Reino Unido)

  • Johannes Eisele/Reuters - 07.maio.2009

    Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu

    Jean-Claude Trichet, presidente do Banco Central Europeu

O euro diz respeito apenas ao Banco Central Europeu. Ou não?

Em meio a sinais de que alguns nervosos detentores de depósitos na problemática zona periférica da Europa estão transferindo o seu dinheiro para os supostamente mais seguros bancos alemães, alastra-se nas bolsas de todo o mundo – de Hong Kong a Frankfurt e Nova York – o temor de que o banco central da Europa e as 16 nações que o integram possam ser incapazes de conter um clássico pânico no setor bancário.

O euro caiu ainda mais na terça-feira passada devido à persistência das preocupações quanto aos problemas relativos a dívidas que infernizam a Europa, em parte devido a notícias de que quatro problemáticos bancos de investimentos na Espanha foram obrigados a implementar uma fusão corporativa por causa dos prejuízos crescentes no setor imobiliário. Esse fato deu ainda mais credibilidade à ideia de que os banco espanhóis não fizeram uma reserva suficiente de capital para contrabalançar os seus empréstimos pouco seguros.

Não há uma evidência conclusiva de que o dinheiro esteja deixando a Europa em quantidades significantes. E o Banco Central Europeu conta com vários instrumentos cruciais para apoiar bancos vulneráveis, incluindo a capacidade de comprar mais títulos desses bancos e até mesmo, caso pressionado, de elevar as taxas de juros a fim de atrair capital de outras regiões do mundo.

Mas o enfraquecimento contínuo do euro em relação a outras moedas e o clima sombrio nos mercados financeiros expõe aquela que talvez seja atualmente a questão mais crucial para a Europa: quem apoiará os bancos caso os empréstimos que eles e o banco central concederam à Grécia, a Portugal, à Espanha e alguns outros países não forem pagos?

“Se a situação se referisse a um país e a um banco central, isso funcionaria”, opina Timothy Congdon, um economista que é um crítico confesso do euro em Londres, e cujas críticas mordazes ao Banco Central Europeu estão se tornando cada vez mais lidas. “Mas o que temos é uma moeda e 16 governos. Qual deles vai garantir as dívidas espanhola e grega?”.

Congdon argumenta que o medo de que um dos países mais fracos seja obrigado a abandonar o euro já desencadeou um deslocamento de depósitos das economias periféricas para as nações mais robustas. Ele afirma que houve um aumento de crédito da ordem de 46 bilhões de euros (US$ 57 bilhões, R$ 104 bilhões) às “instituições de crédito da zona do euro”, segundo uma folha de balanço do banco central divulgada no dia 18 de maio (na última terça-feira, o banco divulgou dados que mostram um aumento extra de cinco bilhões de euros nesta modalidade de crédito).

O crescimento mostra que o banco central está aumentando o crédito a bancos que amargam retiradas de depósitos, diz Congdon. Esta é uma tendência que também ficou clara com o grande crescimento dos mecanismos de refinanciamento do banco central para os bancos da zona do euro – no valor de mais de 60 bilhões de euros (R$ 134 bilhões) desde o dia 30 de abril.

“As pessoas na Espanha, em Portugal e na Grécia estão com medo de perder os seus depósitos, de forma que os estão transferindo para bancos na Alemanha”, afirma Congdon.

Procurada pela reportagem, uma porta-voz do Banco Central Europeu recusou-se a tecer comentários sobre o assunto.

Esses recentes deslocamentos de capital dentro da zona do euro evidenciam uma tendência de longo prazo de redução de depósitos na região, que teve início alguns dias após o colapso do Lehman Brothers, em setembro de 2008. Desde então essa tendência só aumentou, obrigando os bancos a recorrerem ao Banco Central Europeu e a formas mais arriscadas de empréstimos entre instituições bancárias para superarem as suas situações debilitadas no que diz respeito ao capital.

Os bancos mais desesperados na Grécia não são mais capazes de pegar dinheiro emprestado nesses mercados; eles estão dependendo completamente do Banco Central Europeu para financiamentos que superam o capital depositado que possuem.

Enquanto isso, segundo uma pesquisa feita pelo BNP Paribas, os depósitos nos bancos da zona do euro sofreram uma queda de 8,8 bilhões de euros (R$ 19,7 bilhões) em março deste ano, em relação ao mês anterior, e o total destes depósitos ficou 50 bilhões de euros (R$ 111,8 bilhões) abaixo do nível registrado em março de 2009.

As transferências de depósitos podem ser motivadas por muitos fatores, além da fuga para algo mais seguro, como quando os poupadores transferem seu dinheiro para instrumentos financeiros alternativos, como ações. Embora seja muito cedo para se ter certeza, caso persistisse neste ano, esse fato poderia indicar que o banco central poderá precisar se empenhar ainda mais para aumentar a confiança no sistema bancário da Europa.

Até o momento, a relutância do banco em fazer qualquer coisa que possa dar a impressão de comprometer a sua independência tem sido interpretada por muitos investidores como um sinal de indecisão. Essa visão tem ganhado força à medida que aumentam as indicações de que o programa do banco central para compra de títulos poderá não reproduzir aquelas infusões financeiras estabilizadoras protagonizadas pelo Federal Reserve, pelo Banco da Inglaterra e pelo próprio Banco Central Europeu em 2008 e 2009.

Mesmo assim, a ideia que atualmente ganha terreno entre os investidores impacientes – de que o banco central tornou-se um símbolo impotente da estagnação do euro, e demasiadamente fixado na inflação – pode também ser exagerada.

Na verdade, foi o Banco Central Europeu, muito mais do que o Banco da Inglaterra, que atuou como um agressivo financiador de última instância durante a crise bancária de 2008, disponibilizando mais de 700 bilhões de euros para bancos da zona do euro que encontravam-se desesperados por liquidez.

Além do mais, os compromissos assumidos em 2008 pela Alemanha, pela França e por outros países, de que eles não permitiriam que os seus grandes bancos falissem, continuam válidos, juntamente com graus variados de seguros de depósitos.

Paul De Grauwe, um economista de Bruxelas que assessora o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, discorda da ideia de que a o sistema divergente da zona do euro impede que os governos europeus ajam por conta própria como financiadores de último recurso.

De Grauwe cita o exemplo de 2008, quando o Banco Nacional Belga – e, por extensão, o Banco Central Europeu – aceitou uma garantia altamente questionável do Fortis Bank, que estava entrando em colapso, para conceder-lhe mais crédito, estabelecendo que quaisquer prejuízos seriam absorvidos pelo governo belga.

“Essa foi a condição imposta pelo sistema do euro para a função de financiador de último recurso exercida pelo banco nacional”, diz ele. “Essa técnica foi utilizada em outros países da zona do euro, e acabou com o processo de retirada em massa dos depósitos bancários”.

Mas a grande questão agora é saber se a magnitude da dívida soberana duvidosa da zona do euro nas mãos dos bancos europeus é tão grande – chegando talvez a um trilhão de euros (R$ 2,2 trilhões) – a ponto de ameaçar a capacidade até mesmo de um país tão financeiramente robusto como a Alemanha de honrar tais compromissos.

A Grécia já deixou claro que não se encontra em condições de garantir o pagamento das suas dívidas. E crescem às dúvidas quanto à capacidade da Espanha de pagar o que deve, ao se levar em consideração os bilhões de euros em empréstimos imobiliários não saldados que foram feitos pelos bancos regionais do país.

Mais cedo do que se pensa, o Banco Central Europeu poderá ser obrigado a intervir.

Tradutor: UOL

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