Para a África do Sul, um momento que demorou a chegar

Rob Hughes

em Johannesburgo (África do Sul)

  • EFE

    O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, brinca com Zakumi, o mascote da 1ª Copa africana

    O presidente da África do Sul, Jacob Zuma, brinca com Zakumi, o mascote da 1ª Copa africana

Todo mundo está aqui por causa do futebol, mas não vamos fazer de conta que será como qualquer outra Copa do Mundo. Os riscos são dez vezes maiores. Talvez esta seja a 19ª Copa do Mundo em 80 anos, mas é a primeira neste continente.

Um evento desta magnitude e custo, que exige tanto dos recursos da nação que o sedia, era inimaginável na África até agora. E na África do Sul, que há vinte anos era banida dos esportes internacionais por causa de suas políticas racistas de apartheid, isso seria impensável, enquanto Nelson Mandela ainda estava atrás das grades.

Mandela disse a vinte anos que o futebol era o jogo das favelas, o jogo que alguns de seus companheiros prisioneiros em Robben Island jogavam para se manter sãos. E é o jogo que ele queria ver em seu solo em sua forma mais grandiosa -a Copa do Mundo- antes de morrer.

Ele implorou por isso. Foi até Zurique não apenas uma vez, mais duas vezes para usar sua influência e seu legado e persuadir a Fifa, instituição responsável pela gestão do futebol mundial, a levar seu circo de 32 nações e 64 jogos para a África do Sul.

“Acreditem”, ele disse às autoridades, “temos os recursos humanos, mesmo nesta terra que foi partida, para abrigar com segurança o torneio global de futebol de um mês”.

Há esperanças que ele assista o jogo de abertura na sexta-feira e a final, no dia 11 de julho. Dada a frágil saúde de Mandela, isso pode exigir dele cada última gota de bravura em seu corpo de 91 anos de idade.

Que história isso daria. Os dois jogos são em Soccer City, o mesmo estádio gigantesco entre Soweto e Johannesburgo onde Mandela, prisioneiro 46664, fez seu primeiro discurso público quando foi solto depois de 27 anos como preso político. Estima-se que 85.000 pessoas encheram estádio naquele dia, 13 de fevereiro de 1990. Na sexta-feira, são esperadas 94.700 no estádio renovado para assistir a África do Sul dar o chute inicial do evento em um jogo contra o México.

Isso deixa menor os eventos anteriores, da liga de rúgbi em 1995, a Copa das Nações Africanas de futebol em 1996 e a Copa Mundial de críquete em 2003, usados por Mandela como ferramenta de reconciliação.

A Copa do Mundo de futebol vai complicar cada faceta da vida sul-africana, vai colocar em teste cada aspecto de cooperação entre os setores público e privado para que funcione e seja seguro. O evento vai muito além de quem ganha ou quem perde, muito além de nossa fascinação com a questão de quem será melhor: Lionel Messi ou Cristiano Ronaldo, ou possivelmente desta vez um africano Samuel Eto’o ou Didier Drogba, se ele jogar, apesar de sua contusão.

Se der tudo certo, os próximos 31 dias serão acrescentados ao legado que já é enorme de Mandela. Talvez também reforce o de Sepp Blatter, presidente da Fifa, que colocou sua própria liderança em jogo incitando todo mundo a acreditar que a hora da África tinha chegado.

“Temos praticamente uma obrigação moral em relação ao futebol africano e ao povo africano”, disse Blatter. Desde então, seu lema tem sido: “Quem vence é o futebol. Quem vence é a África.”

O sentimento é louvável, mas há uma contradição implícita. O mundo veio para jogar em uma terra onde a beleza sem paralelos coexiste com uma pobreza indescritível e onde 50 seres humanos são assassinados diariamente.

O país tem dez estádios novos ou reformados que em breve talvez fiquem obsoletos, elefantes brancos de alto custo cercados de favelas. Há também auto-estradas, trens de alta velocidade e aeroportos modernos construídos para receber 400.000 visitantes da Copa do Mundo e alavancar o turismo para o futuro.

Então talvez o futebol seja uma esperança, um catalisador para a reestruturação da África do Sul?

A campanha da África do Sul para receber a Copa do Mundo durou mais tempo do que a presidência de Mandela. De fato, três chefes de estado – Mandela, Thabo Mbeki e agora Jacob Zuma- acompanharam o processo e o tornaram realidade. Um homem, contudo, moveu a candidatura do início ao fim: Danny Jordaan.

Jordaan é diretor-executivo da organização da Copa do Mundo da África do Sul 2010. Ele sustentou o esforço durante todo o processo, perseguindo o objetivo com determinação.

“Não tenho dúvidas”, disse ele no mês passado, “este será o momento mais unificador da história da África do Sul. Não tivemos muros ou guerras como a Alemanha Oriental e Ocidental, mas tivemos a separação dos povos, negros e brancos.”

Tal retórica elevada é rara para Jordaan. Ele é famoso por deixar a oratória para o presidente. Sua tenacidade foi equiparada com uma vigilância consciente, nascida do conhecimento que palavras sem cuidado poderiam custar votos preciosos. A palavra que mais se ouve dele é esperança -a esperança de chances mais justas na África do Sul do que tiveram as gerações anteriores sob o apartheid.

Outra frase que ele usa frequentemente com certeza aprendeu com Mandela: “Você tem que ser magnânimo.” Ele a repetiu na BBC outro dia quando perguntado como a maioria dos africanos podem perdoar o que passaram sob o governo da minoria branca.

Jordaan não tem o carisma de Mandela, sua eloquência fácil, sua “mágica madiba”. Quem no mundo tem?

Contudo, ele sabe quem será responsabilizado se algo der desastrosamente errado nesta Copa. Foi o sonho de Mandela, mas a responsabilidade é de Jordaan.

Há similaridades entre os dois homens. Os dois são da província do Cabo, os dois nasceram desafortunados e lutaram para ter honras universitárias em um sistema que os discriminava por causa da cor de sua pele.

Mandela tornou-se advogado e líder do Congresso Nacional Africano; Jordaan, 23 anos mais moço, entrou para o movimento ativista estudantil e liderado por Steve Biko em sua cidade natal de Port Elizabeth. Depois de se graduar, Jordaan tornou-se professor, jogador de futebol e de críquete do município e mais tarde congressista do CNA.

A política de Jordaan e seus esportes se encontraram quando ele se envolveu, com Mandela, na tentativa fracassada de levar os Jogos Olímpicos para a Cidade do Cabo em 1994. Seus esforços continuaram por mais de uma década com a proposta, que foi uma vez recusada e depois se tornou vitoriosa, de levar a Copa do Mundo para África do Sul.

Para vencê-la, Jordaan foi se estabelecer no coração da Fifa, trabalhando como coordenador-geral e entrando para os comitês organizadores das Copas de 2002, na Coreia do Sul e Japão, e de 2006 na Alemanha. Desde 1998, ele é membro do conselho de televisão e marketing da Fifa.

Neste conselho está o poder financeiro da Fifa e marca uma incongruência entre o custo que a África do Sul está pagando para sediar esta copa e o lucro que a Fifa está embolsando.

Avaliar o peso financeiro para a África do Sul é tão difícil quanto o lucro da Fifa é evidente. Por algumas estimativas, os contribuintes sul-africanos vão pagar contas que chegam a US$ 2,4 bilhões quando este torneio tiver terminado. Isso é quase oito vezes os US$ 310 milhões que o governo orçou quando o país recebeu o direito de organizar o evento, seis anos atrás.

A soma também é temerosa, tendo em vista que um quarto da força de trabalho da África do Sul está desempregada, dois terços da população vive abaixo da linha de pobreza e 5,7 milhões dos 49 milhões dos sul-africanos estão infectados com o HIV/Aids.

A Fifa, enquanto isso, publicou suas contas na primavera. Elas mostram que, com direitos de televisão e contratos de patrocínio assinados antes da crise financeira global, a instituição tem atualmente US$ 1 bilhão em reserva e contratos que valem US$ 3,1 bilhões em receitas em seu ciclo de quatro anos para a próxima Copa do Mundo, no Brasil em 2014.

Se Jordaan tem alguma coisa contra isso, não ousa dizer. Ele ajudou a garantir a Copa para seu país fincando um pé em cada lado. Ele vive com os extremos, e apenas suas olheiras e rugas sugerem os conflitos que talvez sinta. Ele teve que fazer o jogo da Fifa para vencer os votos do comitê executivo de 24 membros e evita questões polêmicas e acusações de corrupção ou de lucros amorais para conseguir completar sua missão.

Jordaan disse que o crime é “uma coisa sul-africana... e não deveríamos ter esperado até 2010 para lidar com ele.” De fato, o Escritório Exterior Britânico e o Departamento de Estado dos EUA emitiram advertências sobre os perigos para seus cidadãos durante a Copa do Mundo.

Recentemente, um grupo de estadistas internacionais representando a Fundação Nelson Mandela, levantou questões de consciência não tanto sobre a capacidade dos esportes de expressarem os melhores valores da humanidade, mais sobre a questão prática dos vendedores de rua banidos porque não possuem uma licença da Fifa para vender artigos de sua marca.

Os milionários do futebol jogam dentro das arenas, enquanto os pobres da África do Sul estão do lado de fora, sem ter aonde ir.

Jordaan tenta lançar uma luz diferente sobre o evento. “Liberdade para sonhar” é como ele resume o que este evento significa para seu país e seu povo.

“O que você tem que fazer em seu país é criar a possibilidade de cada garoto ou garota terem um sonho e que este se torne realidade. O esporte é um sonho que pode se tornar realidade”, diz.

Jordaan está próximo a realizar seu sonho -e o sonho de Mandela- no próximo mês.

O sonho não é e nunca foi que África do Sul vença esta Copa ou mesmo chegue longe na competição o suficiente para animar os torcedores da nação. Com este propósito, alguns sul-africanos torcerão para seu Bafana Bafana, seleção mais antiga da África, enquanto outros sem dúvida vão torcer pelo Brasil, por causa de sua história de jogar um futebol vistoso, um futebol “samba”.

A Holanda também talvez tenha muitos seguidores, pois há uma década, quando os sul-africanos tinham menos esperança do que têm hoje, um jovem jogador holandês, Ruud Gullit, fez um gesto para um homem deixado para apodrecer na cadeia.

Gullit, surinamês orgulhoso de sua descendência africana, venceu o troféu de melhor jogador do ano de 1987. Ele o dedicou a Mandela, que então ainda era prisioneiro, considerado por seu governo como inimigo de Estado.

“O caso de Mandela é incrível. Todo mundo deve ser tratado como ser humano, e ele não é. Não há liberdade sem igualdade”, disse Gullit na época.

Algumas pessoas criticaram o jogador na época por misturar esporte com política. Hoje, é possível que o jogador e o ex-prisioneiro que se tornou presidente sentem-se no mesmo estádio, procurando alegria de um jogo que não deveria ter barreiras.

Tradutor: Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos