Até que ponto a British Petroleum é realmente britânica?

Karl E. Meyer e Shareen Blair Brysac

  • Tannen Maury/EFE

    Trabalhadores da British Petroleum tentam remover petróleo acumulado numa praia de Los Angeles

    Trabalhadores da British Petroleum tentam remover petróleo acumulado numa praia de Los Angeles

O governo britânico considera esta questão tão delicada que o primeiro-ministro David Cameron empenhou-se durante um telefonema de 30 minutos de duração em lembrar com firmeza ao presidente Barack Obama que a BP é uma corporação, e que ela há muito tempo deixou de chamar a si própria de British Petroleum.

Bem, sim. Isso poder ser literalmente verdadeiro, mas para milhões de não britânicos em todo o mundo, essa pode ser uma distinção destituída de uma diferença. A British Petroleum não só tem a sua sede em Londres, mas também, por mais de um século os seus diretores executivos têm sido todos britânicos. Certamente para qualquer pessoa que conheça as operações passadas da empresa no Oriente Médio, na Ásia Central, na África e na América, a British Petroleum é tão britânica quanto a cerveja morna.

E tampouco há qualquer novidade quanto às reclamações de que a BP é sigilosa nas suas operações e tem a tendência de responder de forma ambígua a críticas válidas feitas a ela nos países em que atua. Esta certamente não é a história integral, mas esses fatores negativos britânicos estão profundamente entranhados no seu DNA corporativo.
Eis aqui uma breve história da empresa:

Três britânicos de grande importância foram responsáveis pelo nascimento da British Petroleum em 1909: um bucaneiro empresarial chamado William Knox D'Arcy, um jovem membro do parlamento chamado Winston Churchill e o principal “maníaco do petróleo” da Real Marinha Britânica, o almirante Sir John Fisher.

Segundo a história autorizada da British Petroleum, “se um único homem tivesse a permissão para receber o título, D'Arcy deveria passar para a posteridade como o pai de toda a indústria petrolífera no Oriente Médio”. Isso é verdade. Tendo acumulado uma fortuna na corrida do ouro na Austrália, em 1901 D'Arcy apostou em relatórios segundo os quais haveria petróleo abundante no sudoeste da Pérsia.

Por 20 mil libras esterlinas em dinheiro vivo, mais ações de mesmo valor total, 650 libras esterlinas em alugueis anuais, propinas para autoridades e 16% de lucros líquidos, os enviados de D'Arcy obtiveram do xá da Pérsia um contrato válido por 60 anos e que cobria uma área de 1,24 milhão de quilômetros quadrados (mais ou menos o dobro do tamanho do Estado do Texas).

Durante seis anos infrutíferos de prospecção, D'Arcy e a sua Companhia Anglo-Persa de Petróleo (Apoc, na sigla em inglês) foram salvas da falência pelo almirante Fisher – na sua iniciativa determinada no sentido de modernizar a Real Marinha Britânica, fazendo com que esta substituísse o carvão pelo petróleo como combustível – e por Churchill como Primeiro Lorde do Almirantado.

Finalmente, em 1908, quando D'Arcy estava a ponto de abandonar a sua procura por petróleo, o produto jorrou em Majid-i-Suleiman, um platô nas montanhas Zagros. O campo petrolífero foi imediatamente cercado pelos Lanceiros de Bengala da Índia, como se aquilo fosse território britânico, e um exultante tenente A.T. Wilson enviou por telégrafo uma mensagem codificada aos seus superiores: “Ver Salmo 104 Verso 15 Terceira Sentença” (“Que ele possa retirar óleo da terra para tornar a sua fisionomia alegre”).

Essa foi a primeira descoberta comercial significante de petróleo no Oriente Médio. Atuando tanto para o país quanto para a companhia, Wilson ajudou a firmar um acordo com as tribos locais que permitiu que a Apoc construísse um oleoduto (o primeiro na região) ligando o campo petrolífero às refinarias em Abadan, a 222 quilômetros de distância. Assim, a companhia foi totalmente integrada à grande estratégia imperial britânica, conforme ficou evidente no serviço posterior prestado por Wilson como pró-cônsul de tempos de guerra no recém-criado Iraque, e a seguir como diretor administrativo da Apoc.

O petróleo persa era tão crítico para a segurança britânica que, a pedido de Churchill, o parlamento aprovou em 1914 a aquisição de 51% das ações da Apoc. Meses mais tarde, quando a Turquia Otomana entrou na Segunda Guerra Mundial do lado alemão, forças anglo-indianas chegaram ao Golfo Pérsico com ordens urgentes de proteger os navios petroleiros, os oleodutos, as refinarias e os campos de petróleo da companhia.

Ao final da guerra, Lord Curzon, falando como ministro das Relações Exteriores, sustentou que os aliados navegaram rumo à vitória “em um mar de petróleo”. Em 1920 ele exerceu pressões para que fosse feita uma revisão da ainda em vigor concessão de D'Arcy, a fim de garantir que todas as futuras vitórias fossem alimentadas pelo petróleo persa. Com pequenas modificações, Curzon prevaleceu – em parte porque um funcionário do Tesouro Britânico atuou como principal negociador da Pérsia.

Durante três décadas, o petróleo envenenou as relações entre o Reino Unido e o Irã (conforme a Pérsia passou a se chamar oficialmente, em uma tentativa de se reinventar). Os iranianos reclamaram de que a Companhia Anglo-Iraniana de Petróleo (Aioc, na sigla em inglês, conforme a companhia também passou a se chamar) ocultava as suas políticas de preços, sonegava royalties por meio de artifícios de contabilidade, resistia a treinar iranianos para cargos gerenciais e mostrava-se indiferente para com as preocupações de ordem ambiental (até hoje, o petróleo continua vazando para o Shatt-al Arab, as águas estuarinas que constituem-se em fronteira entre o Irã e o Iraque).

“A administração da Anglo-persa era capaz de repetir interminavelmente que a companhia operava como uma entidade comercial, independente do governo”, escreveu o historiador da área de energia Daniel Energy, no livro “The Prize” (“O Prêmio”). “Mas nenhum persa jamais acreditaria em tal afirmação”.

Finalmente, após anos infrutíferos de discórdias, o parlamento iraniano aprovou, em 1951, uma proposta para nacionalizar a companhia petrolífera.

Aos olhos dos britânicos, o vilão responsável pela nacionalização foi o primeiro-ministro Mohammad Mossadeq, que ousou insistir em que, como as companhias petrolíferas norte-americanas aumentaram os seus royalties pagos aos países anfitriões, a Aioc deveria fazer o mesmo.

Dias após a ação do Irã, o Reino Unido fechou a sua refinaria em Abadan, congelou ativos iranianos, impôs sanções econômicas e tentou convencer os Estados Unidos a revogarem a medida que era tida por Londres como o elemento que mais prejudicava a maior propriedade britânica no exterior. Mas o presidente Harry Truman simpatizava com o então altamente popular Mossadeq (que foi eleito o homem do ano pela revista “Time”) e repeliu as solicitações britânicas.

A companhia petrolífera tornara-se de alguma forma um símbolo da grandeza britânica, uma memória de eras passadas, mesmo quando o Partido Trabalhista – supostamente contrário às iniciativas imperialistas – liderado por Clement Attlee estava no poder.

Uma visão ampla foi articulada por um porta-voz graduado do Ministério de Combustíveis e Energia: “Foram a iniciativa empresarial, a habilidade e o esforço britânicos que descobriram o petróleo sob o solo da Pérsia, que extraíram o petróleo, que construíram a refinaria, que desenvolveram mercados para o petróleo persa em 30 ou 40 países, com portos, tanques de armazenagem, bombas, estradas e tanques ferroviários e outras instalações de distribuição. Nada disso poderia ter sido feito pelo governo ou pelo povo persa”.

Um ano mais tarde, Churchill retornou a Downing Street, e Dwight Eisenhower assumiu a presidência em Washington. O novo governo conservador britânico aproximou-se do novo governo republicano norte-americano com a Operação Bota, um esquema clandestino para derrubar Mossadeq. Desta vez, as engrenagens funcionaram em conjunto: em agosto de 1953, Kermit Roosevelt (um neto de Theodore) da CIA (Agência Central de Inteligência) chegou a Teerã com sacos de dinheiro e, em uma questão de dias, provocou uma mudança de regime. Como recompensa, as companhias de petróleo norte-americanas tiveram pela primeira vez permissão para buscar concessões segundo um acordo negociado por Herbert Hoover Jr. (um filho do presidente).

Em 1954, a Aioc renasceu formalmente como British Petroleum, com uma área de operação que se estendia do Mar do Norte ao Alasca. Como parte do programa de privatização de Margaret Thatcher, o governo britânico vendeu todas as suas ações da British Petroleum. Em 1998 a companhia fundiu-se à Amoco (anteriormente conhecida como Standard Oil de Indiana), abreviou oficialmente o seu nome para BP e tornou-se a maior corporação do mundo.

Mas até que ponto a British Petroleum é britânica? Quando se trata de vazamentos de petróleo, evidentemente, ela não é nem um pouco. A sua cultura corporativa continua mais ou menos tão transparente quanto as águas cor de chocolate do Golfo do México. Conforme disse David Carr, do jornal “The New York Times”, em 14 de junho último, quando repórteres em Nova Orleans buscaram respostas para questões rotineiras, eles receberam um memorando da British Petroleum afirmando que a companhia “estava impossibilitada de responder a perguntas individuais devido às regras de sigilos que regem a comercialização das suas ações”. Ou seja, a antiga Britannia ainda comanda essas ondas.

 


*Karl E. Meyer e Shareen Blair Brysac são coautores do livro “ Kingmakers: The Invention of the Modern Middle East” (“Os Criadores de Reis: A Invenção do Oriente Médio Moderno”).

 

Tradutor: UOL

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