Duas narrativas paralelas sobre a modernização russa

Alison Smale

São Petersburgo (Rússia)

  • AP - 09.jun.2010

    O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, durante a reunião do Conselho de Segurança em Moscou, na Rússia

    O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, durante a reunião do Conselho de Segurança em Moscou, na Rússia

Milhares de tipos empresariais, líderes do governo e suas comitivas – membros de centros de estudos, assistentes pessoais velozes e, sim, jornalistas –se reuniram nesta cidade de vistas aparentemente eternas no último fim de semana para aquele que se tornou um novo ritual anual, o Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo.

Aqui, em seu ambiente mais orgulhoso e palaciano, o governo russo (altamente composto por homens de São Petersburgo) se encontra com o homem de Davos, aquela criatura dos anos 90 e início dos anos 2000 movida pelo mercado e que também inspirou grande parte da difícil jornada ao capitalismo que ocorreu aqui.

De modo adequado ao lar de Pushkin e Dostoiéviski, há, portanto, duas narrativas paralelas. Uma é o mundo da economia mundial, da regulamentação do mercado e da governança global imperfeita. A segunda é a da Rússia, e de buscas humanas não medidas por pontos percentuais, spreads de títulos e taxas cambiais.

Havia muito alimento para a primeira narrativa. Na parte final dos trabalhos, no sábado, chegou a notícia da mais recente minivolta da China em sua longa dança para revalorização de sua moeda, uma medida claramente visando a cúpula do Grupo dos 20, que ocorrerá no próximo fim de semana no Canadá. O ministro das finanças russo, Aleksei L. Kudrin, disse aos jornalistas que a medida da China teve pouco efeito imediato sobre suas tarefas.

E elas são enormes. O presidente Dmitri A. Medvedev presidiu o encontro deste ano com uma mensagem bem-recebida: Nós mudamos. Nós queremos o dinheiro estrangeiro, nós reduziremos o imposto sobre ganhos de capital, “nós estamos à procura de soluções”. Muito se falou sobre uma nova “tecnópole” russa, que Medvedev, que viajará para os Estados Unidos e especialmente ao Vale do Silício logo após o Canadá, deseja construir nos arredores de Moscou.

Aos 44 anos, Medvedev pode ser o homem para levar mais russos ao século 21. Ele fixou ousadamente uma meta de fornecer acesso à Internet para 90% dos russos, com 60% deles com banda larga de alta velocidade, até 2015.

Ele e seus assessores obviamente não querem apenas instruir os russos em tecnologia, mas também abrir as fronteiras e procedimentos desajeitados de visto para que, como colocou Medvedev, estrangeiros possam vir para cá realizar seus sonhos e torná-la “seu segundo lar”.

Até o momento, os estrangeiros têm ido para a Rússia principalmente para ganhar dinheiro. E dinheiro foi ganho por vários forasteiros e uma certa elite de russos que atualmente é coisa do passado –o comportamento de gângster dos anos 90. Eles agora vivem uma vida charmosa tão remota das classes média e baixa de sua terra quanto os grandes salários de Wall Street estão distantes dos novos pobres nos Estados Unidos.

Para ressaltar o quanto ele deseja, especialmente, uma abertura para a Europa, Medvedev encerrou o encontro com uma conversa calorosa com o presidente da França, Nicolas Sarkozy. “Nicolas” e “Dmitri” prometeram fazer com que o G20 preste atenção ao seu desejo conjunto de regulamentação do mercado. Eles então assinaram uma série de acordos que selam a estratégia russa de fechar acordos com potências europeias individuais – primeiro com a Alemanha, depois com a Itália e agora com a França– que têm ajudado a conter a abordagem unida da Europa na forma de lidar com Moscou.

Há dois anos, os russos estavam voando alto com os altos preços do petróleo. Mesmo com o colapso do Lehman Brothers em setembro daquele ano, Kudrin pode ter sido informado, mas o discurso público do governo era de que aquilo se tratava de um assunto para os especuladores malignos do Ocidente, e que a festa do consumidor continuaria.

O governo russo se conscientizou ao longo da virada de 2008-2009, fez uso dos bilhões que acumulou durante o boom do petróleo e suportou um ano difícil em que o PIB retraiu 8%.

Tempos melhores certamente chegaram. Jim O’Neill, o analista do Goldman Sachs que recebeu o crédito por inventar a sigla BRIC para as novas economias do Brasil, Rússia, Índia e China, disse que não ficaria surpreso com um crescimento de 7% ou mais na Rússia neste ano.

O’Neill foi realista, entretanto, ao pesar as metas do governo de Moscou contra a inação do governo na queda de 70% no mercado de ações russo durante a crise. “É fácil falar”, ele disse. “É preciso agir.”

Outro velho conhecedor da Rússia, Klaus Mangold da Alemanha, foi ainda mais duro. Ele chefia um comitê influente que supervisiona as relações comerciais entre o Leste e a Alemanha, a maior parceira comercial europeia da Rússia. “A Rússia não tem como ir mais longe” dependendo apenas de matérias-primas, ele disse sem rodeios. “É uma situação de impasse.” Sem mais tecnologia da Europa e melhores relações com a Europa, a conversa de modernização é vazia.

Mangold detecta que os parceiros comerciais russos estão “cada vez mais descontentes” com seu governo. Os empresários alemães, mais acostumados do que os americanos a fazer negócios por intermédio de estadistas, falam sobre corrupção e falta de direitos legais na Rússia – apesar dos laços excelentes, digamos, entre Vladimir Putin e o ex-chanceler Gerhard Schroeder.

Para os estrangeiros, o fórum de São Petersburgo é uma parada útil para encontro com russos de peso. Mas mesmo alguns desses russos, falando de forma privada, não sabem ao certo seu sentido: eles podem encontrar uns aos outros mais facilmente em Moscou e lidar com os estrangeiros como quiserem.

O que nos leva à Rússia fora dos pontos percentuais. Em São Petersburgo, uma das cinco maiores cidades da Europa, mas ainda distante do ritmo de Madri ou mesmo de Varsóvia, o maior evento neste fim de semana não foi o fórum, mas a festa anual de rua na qual os alunos comemoram a formatura.

A riqueza na Rússia costuma ser tão drenada pela corrupção que é apenas um gotejamento quando chega à população. Nesta ocasião, os governantes de São Petersburgo gastam abundantemente no show de fogos de artifício e laser ao longo de seus aterros e represas. O Cirque du Soleil se apresentou. Hordas de adolescentes, como também muitos outros habitantes, lotaram as ruas brilhantes das noites brancas.

Segundo qualquer padrão, foi uma ocasião festiva em uma cidade emocionante, onde os fantasmas da revolução e do cerco da Segunda Guerra Mundial ainda se agitam. Medvedev e seus homens de São Petersburgo precisarão conjurar muito mais desse espírito e empreendimento caso queiram ser bem-sucedidos em sua meta proclamada de modernizar a Rússia.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

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