Alemanha supera Brasil e Argentina e joga o melhor futebol da Copa do Mundo

Roger Cohen

Em Johannesburgo (África do Sul)

  • John MacDougall/AFP

    Jogadores da Alemanha comemoram gol de Friedrich na goleada sobre a Argentina: 4x0

    Jogadores da Alemanha comemoram gol de Friedrich na goleada sobre a Argentina: 4x0

Um dia.

Isso era o que se dizia no Rio de Janeiro depois que a Argentina demorou apenas 24 horas para seguir o favorito Brasil na eliminação da Copa do Mundo. Em Buenos Aires, a população comemorava a derrota brasileira. Mas o Schadenfreude (prazer derivado da desgraça alheia) argentina é uma produto desagradável que, felizmente, dura muito pouco.

O.k., é hora de confissões. Eu me transformei em um torcedor alemão – e não apenas porque a língua alemã possui uma palavra para designar o prazer derivado da dor dos outros.

Eu jamais poderia imaginar que me tornaria um torcedor alemão. A Alemanha transformou-se no país no qual eu jamais poderia morar, mas, no entanto, é o que eu mais aprecio. Ela jogou o futebol mais bonito aqui na África do Sul, incluindo a destruição da Argentina por 4 a 0, e fez a declaração política mais importante com a sua equipe de propaganda da Benetton.

Quando nós passamos muito tempo em zonas de conflito nas quais as pessoas não mudam, onde elas alimentam o descontentamento e fazem da diferença um fetiche, onde elas jamais esgotam uma capacidade sangrenta e antiga de deflagrar a violência, nós nos tornamos apreciadores da mudança. E eu adoro a Alemanha, sinceramente, por ela ter modificado o seu próprio estilo.

Eu a adoro por ter se tornado o lastro da Europa, em vez de o brutamontes do continente. Eu também porque o país enfrenta sem rodeios o seu passado, em vez de ceder a ele. E eu adoro a sua escola de futebol Stuttgart-on-the-Med, onde o talento turco encontra-se com a precisão que gera aquele ruído característico emitido pela porta de um carro alemão ao ser fechada. Eu adoro a nova dupla Müller-Khedira de atletismo e arte.

Deixando agora a África do Sul quando restam apenas quatro seleções de futebol, eu tenho pensado na nossa sede incorrigível pelo pior. Aqueles que não vieram devido ao medo perderam um evento edificante, e não apenas o show de talento da Alemanha.

A construção dos estádios foi concluída, os aeroportos, as estradas, tudo de forma geral funcionou. A violência fez uma pausa. Os sul-africanos uniram-se, deixando no ar a pergunta que que foi feita por Mohale Ralebitso, um banqueiro, desta forma: “Será que nós não poderíamos habitar este espaço de unidade, em vez de apenas visitá-lo?”.

Eu não sei. O que sei é que os pessimistas não perceberam algo de invisível: o espírito sul-africano alheio a raças. Eu sei também que nós somos bem melhores em cobrir conflitos do que comunidades, e fronteiras do que a abolição destas pelo Facebook.

Será que nós estaríamos apenas bitolados em fazer coberturas jornalísticas do mundo de formas convencionais, observando as estruturas formais (como os Estados) que são tão obsoletos como a minha velha máquina de datilografar Olivetti? As redes superam as nações que correm atrás umas das outras, como aqueles argentinos cabeludos perseguindo as delgadas sombras alemãs. Redes são fontes de esperança. São nelas que as gerações futuras viverão e amarão.

Os norte-americanos são os mais criativos inventores dessas redes e os mais teimosos em resistir ao impacto delas na dissolução das nações. Aqui se encontra uma grande dose das tensões mundiais.

Aqui, eu conheci Bassel Nasser, um xiita libanês, nascido em Serra Leoa, um comerciante de diamantes, herdeiro de uma longa tradição de mercadores árabes na África, cujos melhores amigos são judeus das bolsas diamantes de Nova York e Antuérpia (“Para mim é muito mais fácil lidar com os israelenses do que com os europeus, já que nós temos os mesmos gostos”), e cujas piores experiências foram vividas em países árabes sunitas, nos quais os xiitas são alvos de todos os insultos. O seu parceiro de negócios deixou por ora os diamantes de lado para investir no boom do mercado imobiliário libanês.

Nasser, cujo mundo não é aquele que a gente vê nas manchetes dos jornais, foi ao estádio Cidade do Futebol, em Soweto, envolto em uma bandeira libanesa e acabou conhecendo israelenses que portavam uma bandeira de Israel, e alguém acabou tirando uma foto deles enrolados nas duas bandeiras. “Você acha que haverá paz?”, me perguntou Nasser.

Se nos basearmos nas evidências, não, o Oriente Médio insistirá em dizer que a mudança é impossível, o Andy Roddick das regiões globais, incapaz de alterar o seu jogo. Mas, novamente, na África do Sul, simplesmente não se pode afirmar que a reconciliação quanto aos ferimentos históricos é algo de impossível.

Eu creio que a principal diferença reside na mania de se colocar como vítima. Os negros daqui jamais sucumbiram à cultura da vitimização, paralisante e voltada para o passado, a moeda corrosiva do reino do Oriente Médio.

Os negros perderam uma guerra, sobreviveram para lutar um outro dia, resistiram e prevaleceram. “É quando o indivíduo se percebe como uma vítima que ele se torna mais capaz de odiar, e a grande maioria de nós aqui não se enxerga desta forma”, me disse Moeletsi Mbeki, um empresário local.

Sem dúvida, conforme observou Nelson Mandela, “Não existe um atalho para o país dos nossos sonhos”. A rota de recuperação da África do Sul contava com a sua parcela integral de angústia. Mas os sul-africanos deram o primeiro e mais difícil passo e não se desviaram dessa rota. Essa é a rota que os israelenses e os palestinos se recusam a trilhar.

Para assistir ao último jogo da África do Sul, eu dirigi meu carro pela “platteland” (“terra plana”), o planalto do Estado Livre de Orange, onde o apartheid era mais intenso nas “dorps”, ou pequenas cidades, do Afrikaanerdom. Perto de Excelsior, algumas centenas de barracos precários formam uma favela à beira da estrada. Centenas de negros haviam emergido desses barracos. Eles dançavam, sorriam, acenavam, estavam felizes. E eles não tinham motivo algum para exibirem tal felicidade. Ou pelo menos isto é o que nos diriam as estatísticas relativas às suas vidas.

Esta é a primeira mágica da Copa do Mundo.

Qual é a diferença entre guerra e paz? Um dia.

Ah, sim, a Alemanha, o Friedenmacht, ou poder da paz, para vencer.

Tradutor: UOL

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