Obama se enfraquece com divisões em sua política externa

Roger Cohen

Em Nova York

  • Peter Souza/The White House via The New York Times

Os Clinton deram uma grande festa em Washington no dia 30 de junho para Huma Abedin, assessora de longa data de Hillary Clinton, e o que chamou a atenção de um dos muitos convidados foi a ausência de qualquer membro do círculo íntimo da Casa Branca do presidente Obama.

Os pesos pesados do Congresso lotaram o jardim da mansão Clinton na Embassy Row, inclusive a presidente da Câmara Nancy Pelosi. Os poderosos da cidade e vários manda-chuvas do Departamento de Estado estavam lá para uma festa pelo casamento de Abedin ao congressista Anthony Weiner, de Nova York. Mas o pessoal da Casa Branca manteve a distância.

Bem, como disse Bill Clinton à CNN recentemente: “Fiz tudo o que pude para derrotar o presidente Obama e queria que Hillary vencesse”- feridas antigas não se curam da noite para o dia. De fato, talvez não sarem nunca. Quando minha fonte fez alusão ao fato das antigas dissensões não terem ido embora, a resposta dos anfitriões foi algo do gênero: Não, não vão e nunca irão. Mas, somos servidores públicos e somos acostumados ao castigo, então prosseguimos.

Falando em prosseguir, a Sra. Clinton partiu para a Europa no dia seguinte e, enquanto os americanos celebravam o 4 de julho, ela estava na Armênia tentando resolver a briga Nagorno-Karabakh e mediar a discussão entre a Armênia e a Turquia sobre o que aconteceu em 1915.

Temos que saudar Hillary. Além de uma mente muito clara, ela tem coragem. É um papel muito difícil ser secretária de Estado quando a Casa Branca coloca uma coleira apertada em torno das grandes questões –Afeganistão, Irã, Israel-Palestina e Iraque- e você fica com Nagorno-Karabakh, crimes otomanos da Primeira Guerra e, se tiver sorte, as bases americanas em Okinawa.

A situação talvez fosse menos preocupante se os meninos na Casa Branca –e de fato, na maioria são meninos- fossem pesos pesados em política externa. Mas não são. De fato, me contaram que Henry Kissinger se refere a eles como “os garotos”.

O principal deles, de acordo com minha colega Helene Cooper, é Denis McDonough, do Conselho de Segurança Nacional. No início do mês, Cooper escreveu: “Esqueça a secretária de Estado Hillary Rodham Clinton ou o secretário de defesa Robert M. Gates. No que concerne segurança nacional, o círculo íntimo de Obama é tão fechado que consiste na maior parte de McDonough, 40, de Minnesota que é desconhecido da maior parte dos americanos”.

Conheço McDonough e passei um bom tempo em Minnesota. Ele tem muitas das qualidades do Estado: é positivo, ativo, acredita nas possibilidades, é afável e eficiente.

Mas se você me perguntar se fico tranquilo quando leio que o círculo íntimo de segurança nacional de Obama se compõe dele, a resposta será não. Ele é ótimo para controlar o lado de política externa de uma campanha –como fez com perfeição para Obama- mas não é um cara ótimo para pensar grande sobre o mundo.

E agora é preciso pensar grande e audacioso. O relógio está pesando sobre decisões presidenciais importantes. Entre elas, uma saída do Afeganistão que recupere um mínimo dos interesses de segurança dos EUA –que vão exigir uma negociação difícil com o Talibã- e o que fazer sobre o Irã quando ficar claro, no final deste ano, que as mais recentes sanções não mudaram nada. A aparente carta branca de Obama a Israel neste mês sobre o Irã foi preocupante.

Depois tem a questão de Israel-Palestina, onde Obama não consegue decidir se o custo de ser um intermediador honesto –e exercer pressão sobre os dois lados- vale a bronca interna que enfrenta por criticar Israel, e portanto fica ziguezagueando, com pouco efeito.

Após demitir o general Stanley A. McChrystal, Obama disse que toleraria debates, mas não divisões. Minha sensação é que sua política externa está dividida –e assim, enfraquecida. O general James Jones, seu assessor de segurança nacional, fala bem francês –e os franceses amam isso- mas não convenceu a maior parte das pessoas. Tom Donilon, vice de Jones, dança em torno do vácuo o melhor que pode. Como McDonough, David Axelrod e Rahm Emanuel foram estrategistas de campanha brilhantes, mas deveriam ser estrategistas de política externa?

Clinton é uma secretária de Estado da classe de Baker. Por quanto tempo ele vai delegar a ela Nagorno-Krabakh? O departamento de Estado, repositório de outros talentos subutilizados, não pode ser um anexo da Casa Branca para assuntos não críticos.

Na década de 1860, James Gordon Bennett, então editor do New York Herald, predecessor do International Herald Tribune, deu as seguintes instruções a um intrépido correspondente estrangeiro chamado Henry Morton Stanley: “Saque mil libras hoje; e quando tiverem terminado, saque outras mil; quando tiverem sido gastas, saque mais mil e assim por diante; mas ENCONTRE Livingstone.”

Ele estava se referindo ao explorador africano David Livingstone, que Stanley eventualmente encontrou no lago Tanganika, com as palavras imortais: “Doutor Livingstone, eu presumo?”

Esse tipo de jornalista saiu de moda. Então podemos agradecer à Rolling Stone por abrir sua carteira e dizer a Michael Hastings que fizesse o que fosse preciso para encontrar o general McChrystal. Em sua brilhante matéria, Hastings fez isso. Ele também encontrou outra coisa: uma política afegã tão fragmentada quanto o time de Obama que a dirige.

McChrystal saiu, mas os problemas não.

Tradutor: Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos