Morte durante concurso de sauna levanta questões sobre os limites de competições absurdas

Francesc Bracero

  • EFE/Mauri Ratilainen

    Russo Vladimir Ladyzhenskiy (esquerda) morre após disputar a final do Mundial de sauna, no domingo

    Russo Vladimir Ladyzhenskiy (esquerda) morre após disputar a final do Mundial de sauna, no domingo

O sofrimento de pessoas serviu de entretenimento para as massas desde tempos imemoriais. No circo romano, as multidões assistiam a espetáculos em que seres humanos, de forma involuntária, sofriam e morriam na arena. Os tempos mudaram, e os concursos que exploram o limite do corpo, agora com a voluntariedade de seus participantes, estão na telinha. No último domingo o russo Vladimir Ladizhensky, de 60 anos, morreu em uma sauna a 110 graus enquanto tentava resistir em uma competição - o Mundial de Sauna - com o finlandês Timo Kaukonen, de 40 anos, que também sofreu queimaduras e foi hospitalizado. O desejo de notoriedade - fama e prêmios - se soma ao interesse de uma parte do público por assistir a esse tipo de função mórbida, carregada de tons dramáticos. Uma combinação de sucesso.

Para ter uma ideia da dureza que representa para o corpo humano o Campeonato Mundial de Sauna em que Ladizhensky morreu, fica para a posteridade o documentário "Suor", de Thomas Hilland, em que Kaukonen, o adversário do russo morto, descreve suas sensações físicas quando participa desses shows: "A competição começa a 110 graus. Como todos medimos nossa resistência, ninguém quer ser o primeiro a sair".

O concorrente explica que o principal motivo de abandono é a dificuldade para respirar. "Você pode tirar 30 segundos quando sente dificuldades", salienta, "mas isso significa que pode sofrer danos físicos em seu sistema respiratório. Você queima por dentro." Trata-se de um desafio à beira da morte: "Os últimos dez minutos de competição são pura dor. É quase impossível respirar devido ao calor".

E todo esse espetáculo é acompanhado e incentivado das arquibancadas por pessoas acostumadas a usar a sauna e que conhecem seus limites. Na Finlândia existem 1,5 milhão de saunas para uma população de apenas 5,3 milhões. O Campeonato Mundial de Sauna se realiza desde 1999 na localidade de Heinola. Depois da morte do concorrente, os organizadores decidiram encerrar a competição para sempre. Como era transmitida pela televisão, tinha patrocinadores que colocavam sua publicidade em cartazes atrás dos concorrentes.

Por que ocorrem esses espetáculos? A psicóloga Isabel Larraburu afirma que "há muito narcisismo doentio", como o que é expressado nos "reality-shows" da televisão. "São pessoas que buscam seus 15 minutos de fama", observa, "e isso passa por cima de qualquer coisa, inclusive de seu próprio corpo." Esse comportamento é considerado anormal pelos especialistas, já que é adotado por pessoas que têm um "vazio interior" que compensam com a fama efêmera de suas façanhas: "Precisam do aplauso social como do ar que respiram". Ao ponto de que o reconhecimento dos demais "supera o respeito por si próprios".

A isto deve-se acrescentar o interesse de uma parte do público por ver alguém resistir até o limite. "É juntar a fome com a vontade de comer", comenta Larraburu. "O público que o fomenta e está disposto a comprar e o concorrente que se presta porque quer ser comprado." Do ponto de vista psicológico, "é uma aberração que uma pessoa se preste voluntariamente" a esse tipo de espetáculo. Na opinião dela, "o que se vende é o próprio sofrimento".

A antropóloga Mercedes Fernández considera que "faz anos que esse tipo de programa serve para que os espectadores aprendam coisas", porque "é capaz de representar a força do ser humano". Do ponto de vista do público, "esse desejo de observação tem a ver com a catarse coletiva diante de uma prática que pode ser um jogo, um divertimento". "Une a todos e transforma a tela em um ser próximo", indica.

Fernández duvida de que nesse caso exista "sadismo coletivo" no fato de ver alguém "até quando vai aguentar e quão valente é". Nesse comportamento, considera a antropóloga, "está disfarçado o que qualquer um é capaz de fazer para conseguir um prêmio". Segundo ela, trata-se de "um sistema de retroalimentação: acima da própria saúde estão o dinheiro e a fama". Ela salienta que nesses espetáculos, além do sofrimento que se pode observar entre os concorrentes, "ninguém deseja a morte".

O professor de comunicação audiovisual Jordi Balló reflete sobre o fato de que a intervenção da televisão transforma um espaço de confidências em voz baixa em uma zona aberta para outro tipo de diversão: "Certamente a febre competitiva da sauna seria impensável sem a televisão, que sempre procura criar competição em qualquer coisa, porque é a única que transforma o ao vivo em espetáculo".

Na opinião de Balló, "a sauna se mostrou um bom palco de televisão, porque é isolada e identificada como um lugar de conversa masculina". Como exemplo, dá uma ficção da televisão dinamarquesa, "Quem É Hitler?", em que um neonazista, um judeu e um comunista se encontram em uma sauna. A história acaba com o assassinato de um deles. Também menciona o documentário "Vapor de Vida", que percorre saunas por toda a Finlândia, onde se reúnem os homens e que constituem "espaços de reflexão filosófica melancólica". Tudo isso muito distante do concurso em que Ladizhensky morreu.

Essa competição tem muito em comum com os sérios riscos para a vida que outras pessoas assumem em busca de fama e fortuna. Trata-se de concursos absurdos ou de busca de recordes temerários - o Livro Guinness dos Recordes contém vários deles -, nos quais o limite é imposto pela natureza humana e não a habilidade ou capacidade para fazer algo. São aqueles que consistem em aguentar condições extremas, como o frio, em comer algum tipo de alimento até o esgotamento ou em ingerir uma bebida alcoólica até cair embriagado. O fim é ver quem aguenta mais. E o prêmio para o vencedor, um insignificante momento de glória.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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