A hora de Barghouti

Jo-Ann Mort

Barack Obama visitou Israel em julho, mas não é ele o homem que realmente poderá mudar as coisas para israelenses e palestinos. Pelo menos não por enquanto. O homem da hora é Marvan Barghouti, de 49 anos, o inconteste líder da "jovem" Fatah, que em breve poderá ser libertado de uma prisão israelense em troca do soldado israelense Gilad Shalit, capturado pelo Hamas há dois anos.

Barghouti, condenado por um tribunal israelense a cinco penas consecutivas de prisão perpétua em 2004 pelo seu papel na segunda intifada, tem um grande grupo de seguidores entre os palestinos, que admiram sua história de política popular a sua aparente imagem política sem mácula, num violento contraste com as figuras corruptas que povoam a autoridade palestina. Barghouti é popularmente visto como o único líder autêntico da Fatah que pode andar livremente por Gaza, controlada pelo Hamas, sem temer represálias. Como tal, sua libertação poderia reavivar o problemático processo de paz no Oriente Médio.

A libertação de Barghouti poderá vir numa época em que os dois lados continuam a sofrer com a fraca liderança política. O primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert provavelmente sairá de seu cargo quando as primárias para o seu partido Kadima forem realizadas em meados de setembro - ou talvez antes mesmo disso, graças a uma investigação policial sobre suas finanças. Ele provavelmente será substituído não por um linha-dura do Likud, mas por outro integrante do Kadima - a ministra das Relações Exteriores Tzipi Livni é a atual favorita - e o Partido Trabalhista provavelmente continuará como parceiro de menor hierarquia no governo.

O presidente palestino Mahmoud Abbas também está enfraquecido. Embora seu governo seja respeitado por líderes globais e por Israel, ele governa apenas Ramallah e outras partes da Cisjordânia depois que o Hamas assumiu o controle de Gaza em junho de 2007. "Tanto os palestinos quanto os israelenses têm seus próprios problemas domésticos," disse o membro do Knesset Haim Oron quando o visitei em seu escritório em Tel Aviv. Oron é o líder do Meretz, o partido de esquerda há muito identificado com o campo de paz de Israel. Ele é, além disso, o israelense mais próximo a Barghouti, e o visita com freqüência em sua cela na prisão.

Eu também visitei Qadura Fares, o aliado político mais próximo a Barghouti, em Ramallah. Fares esteve no parlamento palestino até que perdeu seu assento em Ramallah para o Hamas. Hoje ele dirige uma ONG dedicada a dar apoio a prisioneiros palestinos. Ele firmou a iniciativa de Genebra de 2003, que defendia uma solução de dois Estados, depois de consultas com Barghouti na prisão. Fares ficou sem autorização para falar com Barghouti durante sete meses. Mas confirmou para mim que o papel de Barghouti fora da prisão será o de sustentar o apoio para as negociações de paz de Abbas, especialmente em Gaza sob o domínio do Hamas.

Embora as negociações de paz estejam estagnadas há vários anos, os temas mais amplos continuam sendo os mesmos. Qualquer acordo final ficará em algum ponto entre os limites traçados pela iniciativa de Genebra e pelo acordo negociado pelo presidente Clinton durante seus momentos finais no cargo. Isso é, é preciso que haja o reconhecimento do problema dos refugiados, algum acordo em relação às colônias israelenses e talvez uma troca de terra para compensar as colônias que restarem e alguma adaptação, mesmo que simbólica, em relação a Jerusalém.

O apoio entre os palestinos para uma solução de dois Estados continua forte. Uma pesquisa realizada em junho de 2008 pelo Centro Palestino de Opinião Pública verificou que 60% dos palestinos apóiam a solução de dois Estados enquanto 30% querem um Estado binacional no total da Palestina histórica. E o apoio para a Fatah sobre o Hamas tem aumentado. Quando se perguntou aos palestinos quem eles prefeririam, em um confronto direto entre os líderes das duas principais facções, 40% preferiram Mahamoud Abbas e 19% Ismael Haniyeh do Hamas.
Abbas, porém, não continuará durante muito tempo. Seu mandato presidencial termina em 2009 - embora ele possa continuar no cargo até 2010 - e já se disse que ele não vai concorrer novamente. Barghouti já anunciou que vai se candidatar à presidência depois de Abbas seja na prisão ou fora. Em um hipotético confronto presidencial com dois candidatos, 61% dos palestinos disseram que votariam em Barghouti e 34% em Haniyyeh.

Israel compreende a influência que Barghouti tem entre os palestinos. Há um ano, o ministro da infra-estrutura Binyamin Ben-Eliezer declarou ao Haaretz: "Nós precisamos encontrar uma oportunidade adequada para apresentar um acordo final aos palestinos." Barghouti já apresentou um documento, negociado entre facções de prisioneiros representando o Hamas e o Fatah - as prisões israelenses são um ambiente favorável à atividade política - defendendo um Estado palestino junto de Israel, estabelecido pelas fronteiras anteriores a 1967.

Um novo presidente nos Estados Unidos - especialmente se for Obama - vai assumir as rédeas de um acordo de paz. No entanto, as prioridades do novo presidente serão domésticas e o Iraque. Portanto Israel e a Palestina serão deixados à parte por algum tempo ainda. Isso poderá dar espaço para que Barghouti se estabeleça e então preparar o caminho para que Obama ou McCain finalmente cheguem a um fim para o conflito.

(Jo-Ann Mort acaba de passar um mês em Israel e Ramallah. Ela escreve freqüentemente a respeito de questões palestinas e israelenses) Claudia Dall'Antonia

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