Putin e o telepopulismo na Rússia

Ben Judah

  • Presidência/AFP

    Os russos que vivem nas zonas rurais são capazes de se identificar com um Putin que nada sem camisa em um rio

    Os russos que vivem nas zonas rurais são capazes de se identificar com um Putin que nada sem camisa em um rio

Vladimir Putin caminha lentamente pelo palco. O sorriso dele é insincero. Usando um suéter azul sobre uma camisa de gola alta, ele tem uma aparência suave e atlética. A música “U Can't Touch This”, do MC Hammer anuncia a sua chegada; uma multidão de adolescentes aplaude e grita quando ele surge no mais popular show de hip-hop do país, “A Batalha por Respeito”. De pé em frente a uma tela gigante, Putin elogia os valores marciais do rap. Para expectadores espalhados pelos 11 fusos horários da Rússia, a imagem é tão surpreendente quanto seria ver Margaret Thatcher no programa da BBC “Top of the Pops”.

Alguns gritam, “Respeito, Vladimir Vladimirovich, Respeito!”. O vencedor de cabeça raspada do concurso de rap diz: “Este homem é uma lenda... ele é o nosso ícone... façamos algum barulho para que todos possam ouvir!”. E os telespectadores em casa, em sua maioria jovens em cidades industriais distantes de Moscou, ficam com a impressão de que Putin é “um cara sintonizado”.


É desta forma que a Rússia é governada. O telepopulismo é utilizado em uma campanha interminável e incansável de relações públicas feita através das redes de televisão estatais do país, mostrando o primeiro-ministro usando vários trajes diferentes, de forma a atrair diferentes grupos de todo o espectro da fraturada sociedade russa. O processo de construção de imagem tornou-se frenético após o início da recessão. Putin aparece na televisão como o defensor da dona de casa econômica: ele aparece na tela entrando em um supermercado para inspecionar os preços, e a seguir humilhando o proprietário de uma rede de supermercados devido ao preço das salsichas e exigindo que elas sejam vendidas por um valor menor.

Para os desempregados, ele é apresentado como o amigo do trabalhador: chegando de helicóptero em uma pequena cidade para exigir que um oligarca reative uma fábrica. Para aqueles que sentem nostalgia pela União Soviética, há as fotos das férias de Putin: usando um uniforme camuflado e caminhando como um caçador à espreita no interior do país, ele é a imagem do poder da Rússia. Os russos que vivem nas zonas rurais são capazes de se identificar com um Putin que nada sem camisa em um rio. E membros das forças armadas têm empatia pelo líder que aparece usando um uniforme de piloto de avião de caça ou de marinheiro. Uma seleção de calendários dedicados às habilidades de Putin como judoca também encontra-se disponível; e àqueles que podem se sentir tentados por algo mais extremista é oferecida a imagem de Putin atirando em um tigre siberiano com um dardo de sedativo.

E, após os atentados a bomba no metrô de Moscou no final de março, Putin procurou fortalecer a sua imagem colocando sem ajuda uma coleira de identificação em um urso polar sedado.

Enquanto isso, é oferecido à nova classe média o presidente Dmitri Medvedev, elegante, de fala suave a articulado. Usando calça jeans e uma jaqueta, Medvedev tem a aparência do genro perfeito e, aos olhos dos russos, do europeu consumado. A imagem dele atrai os russos que passam férias no exterior, que possuem o próprio negócio e que veem a si próprios como europeus. Ele é um crítico duro da corrupção, da ineficiência e do desrespeito às leis que atrapalham as ambições dessas pessoas e às vezes destroem os seus planos empresariais. Medvedev conta com um índice de aprovação de 82%, que é quase igual ao de Putin.

Mas o telepopulismo, apesar de bem sucedido, não criou uma fé no Estado. O clima nacional é de alienação: uma recente pesquisa de opinião pública revelou que 94% dos russos sentem que não têm influência alguma na política, que 68% não se sentem protegidos pela lei e que apenas 4% acreditam que as suas propriedades estão em segurança. Sendo assim, por que Putin faz tanto sucesso?

 


A verdade é que a popularidade dele é ao mesmo tempo manipulada e genuína. Sim, o Estado controla todos os principais canais de notícias televisivas. Os jornalistas que criticam o governo são perseguidos pelos grupos de jovens pró-Putin, e às vezes são assassinados. Ativistas da oposição são reprimidos, eleições são fraudadas. O telepopulismo de Putin usa uma versão simplificada das técnicas stalinistas para controlar a difusão televisiva e radiofônica como se ele fosse um Silvio Berlusconi eslavo. Mas ele ainda é respeitado pelos russos comuns, em parte porque supermercados foram criados durante o seu governo e as reformas capitalistas que provocaram tantos sofrimentos na década de noventa finalmente começaram a dar resultados – os salários médios dobraram de valor.

E os russos admiram o seu domínio do idioma. Boris Yeltsin era um alcoólatra resmungador; Gorbachev falava com um sotaque camponês, Brezhnev expressava-se com um ar de senilidade, Khrushchev comunicava-se como um provinciano – e Stalin tinha um sotaque georgiano tão forte que ele tinha medo de falar à nação. Mas Putin e o alinhado Medvedev são apresentados aos russos como estes gostariam de enxergar a si próprios: atléticos, saudáveis e orgulhosos – a antítese de uma nação atormentada por uma crise demográfica, pelo vício em heroína e pela desagregação social.

Os futuros diplomatas que são treinados na academia de elite administrada pelo Ministério das Relações Exteriores da Rússia me disseram ter achado a aparição de Putin no show de rap meio repulsiva, mas nada risível. Uma jovem chamada Masha, que deseja trabalhar na delegação russa na Organização das Nações Unidas (ONU), me explicou: “Os homens daqui esperam viver em média até os 59 anos de idade – o que é menos do que a expectativa de vida dos paquistaneses, ou mesmo do que a dos palestinos. O primeiro-ministro precisa promover a saúde e os exercícios físicos a todo custo. E se isso significar calendários nos quais ele aparece sem camisa, fotos dele nadando, exibições de judô ou um show de rap – que assim seja”. Um garoto chamado Sacha, cuja ambição é ser um dia embaixador na Índia, disse: “Os Estados Unidos estão em declínio, a China está em ascensão e, neste mundo perigoso cheio de terroristas e de potências emergentes, eu creio que Putin é o pior de todos os líderes possíveis – com a exceção de todos os demais que estão disponíveis ou que são testados periodicamente”.

(Ben Judah é um jornalista que trabalha em Moscou)

Tradutor: UOL

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