Raul Boesel usa experiência para dar a volta por cima e Indianápolis

Phillip B. Wilson
USA Today
Em Indianápolis (EUA)

Raul Boesel, o mais velho dos pilotos brasileiros que invadiram Indianápolis, começou a sua carreira na Fórmula Indy antes que o atual detentor da pole-position, Bruno Junqueira, entrasse no seu primeiro kart.

Essa garotada de pouco mais de 20 anos de idade -- Junqueira, Hélio Castroneves, Felipe Giaffone e Tony Kannan -- cresceu vendo Boesel. Eles idolatravam os compatriotas Emerson Fittipald, Nelson Piquet e Ayrton Senna, mas Boesel era o único piloto brasileiro nas pistas após 1994.

"Atualmente me sinto bem mais jovem", disse Boesel no domingo pela manhã, após ter se classificado para a primeira fila da 86ª edição das 500 milhas de Indianápolis. "Sou um cara de 44 anos com uma cabeça de 25".

Boesel não entrava em um carro da Fórmula Indy desde maio do ano passado. Mesmo assim precisou de apenas dois dias para voar baixo na pista. O carro nº 2, o Menara Racing Dallara/Chevrolet, teve uma velocidade média de 371 km/h em quatro voltas, dando ao dono da equipe, John Menard, o direito de participar da primeira fila pela 9ª vez desde 1994.

"Não sei se alguém necessariamente esperava por um resultado desses", afirma Menard, que contratou Boesel como substituto do piloto titular, que se machucou na quarta-feira passada.

A experiência fez com que Boesel mudasse de idéia com relação a esta pista que ele costumava ignorar quando dirigia na Fórmula 1, em 1982 e 1983. Ela acabou se tornando a mais importante para o piloto, e praticamente a única em termos de corridas de expressão, já que Boesel passou o restante da sua carreira correndo no circuito de stock cars no Brasil.

Ele atribuiu parte do seu sucesso no sábado às corridas de stock car, que teriam contribuído para manter a sua forma e conservar os seus reflexos apurados.

Ao contrário do que ocorreu em anos passados, quando forçou a barra para ter sucesso na Fórmula Indy, desta vez ele chegou mais relaxado. Boesel demonstrou ter uma mente aberta, apesar de possuir certas limitações.

"Não imaginei que isto fosse possível", afirmou. "Talvez fosse mesmo o destino".

Boesel assumiu o lugar de P.J.Jones, que se machucou, e que, por sua vez, substituía Jaques Lazier, que também se contundira.

No ano passado, Boesel se classificou para participar da competição em Indy com o carro reserva de Arie Luyendyk, mas teve que dar a vez para Giaffone nos minutos finais.

Mas Boesel não reclamou da má sorte. Ele sabia do risco quando aceitou participar. Tratava-se de negócios e a sua relação com a família Giaffone (o pai de Giaffone correu com Boesel e trabalha em motores e chassis de stock cars nas corridas brasileiras) não saiu prejudicada. O pai de Giaffone foi um dos primeiros a ligar para Boesel, manifestando o seu apoio, quando o piloto brasileiro fez a sua última corrida.

"O ano passado foi mais uma demonstração de que ele é um piloto de corridas, que tem plena capacidade de fazer bem o seu serviço", diz Menard.

Boesel e Menard tem na persistência uma característica em comum. Ambos estão na Fórmula Indy há muito tempo e, apesar de umas poucas corridas promissoras no currículo, ainda não experimentaram o sabor da vitória.

"Sentimos uma grande identificação mútua", afirma Menard. "Ambos sabemos o que é se sentir frustrado".

Boesel larga na primeira fila pela terceira vez em sua carreira.

Em 1993 ele começou em terceiro e terminou em quarto lugar.

"Me lembro de ter assumido a ponta e desaparecido", diz ele, referindo-se à ultrapassagem sobre Luyendyk, o pole-position, feita na primeira volta. Ele liderou a corrida até a 17ª volta.

Um ano depois, Boesel se classificou para largar em segundo lugar, mas terminou a corrida no 21º, devido a um problema com a bomba d'água após 100 voltas. A sua melhor colocação foi um terceiro lugar em 1989. Mas foi um terceiro lugar distante do vencedor. Fittipaldi, que venceu a prova, terminou a corrida com duas voltas de dianteira.

Boesel não conseguiu terminar uma corrida em uma posição melhor do que o 12º lugar em oito das suas participações na Fórmula Indy, incluindo as cinco últimas, quando terminou em 21º, 20º, 19º, 12º e 16º. A sua última participação no circuito foi em 2000.

Boesel quase conquistou o Troféu Borg-Warner, em 1995, mas um defeito no sistema de lubrificação fez com que ele parasse a 16 voltas do final. Jacques Villeneuve superou uma penalidade de duas voltas e ganhou a corrida. "Com 19 voltas para terminar, eu estava à sua frente", lembra Boesel.

Durante a entrevista coletiva à imprensa na manhã do domingo, o modesto Junqueira, de 25 anos, apontou para Boesel quando ambos foram perguntados sobre a tradição de corridas automobilísticas no Brasil.

"O mais velho, heim?", disse Boesel.

Junqueira foi o piloto mais rápido da semana, o cara sobre o qual todos estão falando mas, mesmo assim, ele demonstrou ter respeito para com a voz da experiência.

"Não dá para superar a experiência", disse Boesel. "Provavelmente é por isso que estou sentado aqui, falando para vocês sobre a minha próxima largada na primeira fila".

Tradução: Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos