Após brilhar nas pistas dos EUA, Cristiano da Matta já sonha com a F-1

Steve Ballard
USA Today
Em Indianápolis (EUA)

Cristiano da Matta imagina como é se sentir um Michael Schumacher. E em 2003, ele acha que terá uma idéia do que seja perseguir Michael Schumacher.

Da Matta é o piloto em atividade nos EUA que mais se aproxima do astro da Fórmula 1. Schumacher, que ganhou 10 das 15 corridas da temporada deste ano, ao vencer o GP dos Estados Unidos, conquistou o seu quinto título mundial.

Em uma era de paridade na maior parte dos circuitos dos Estados Unidos, da Matta está dominando de ponta a ponta a sua categoria, em um estilo semelhante ao de Schumacher. A não ser que se defronte com uma calamidade, ele conquistará o seu primeiro título na Fórmula Indy bem antes do final da temporada, em 17 de novembro, na Cidade do México.

Vencedor de oito das 17 últimas corridas, desde a temporada passada, da Matta poderá retornar ao seu prestigiado Newman-Haas Racing no ano que vem com expectativas realistas de continuar tendo sucesso. Para um brasileiro de 29 anos de idade, cujos heróis de infância eram Fittipaldi, Piquet e Senna, a chance de escrever o seu nome ao lado desses ídolos, tanto na sua mente quanto na dos seus compatriotas, é uma tentação da qual é difícil resistir.

A indústria de automóveis Toyota, desapontada com os medíocres resultados que obteve na sua primeira temporada de Fórmula 1, está substituindo os seus dois pilotos. Da Matta vem sendo cortejado pela empresa japonesa há vários meses e espera-se que o anúncio oficial da sua contratação seja feito nas próximas duas semanas, na última corrida da temporada de Fórmula 1 deste ano, em Suzuka, no Japão.

Da Matta disse que, para ele, mais do que a realização de um sonho, a Fórmula 1 é o próximo passo lógico, desde que lhe forneçam os meios para competir.

"Eu não trocaria a Newman-Haas pela Arrows ou pela Jordan", afirma ele. "O meu sonho é continuar me divertindo com as corridas pelo tempo que puder, e isso significa ser capaz de vencer provas e campeonatos".

"Tem gente que acha que a F-1 é o máximo, mas não quero ser apenas um figurante. Acho que é uma boa categoria, mas não é o sonho da minha vida. A F-1 é apenas algo que eu gostaria de experimentar".

O futuro de Cristiano da Matta tem sido objeto de considerável especulação desde que ele foi à França, fazer um teste junto à Toyota, em meados de maio. Mas, faltando ainda um ano para terminar o seu atual contrato, ele não contou com muito espaço de manobra, enquanto a Toyota negociava com Carl Hass, a sua atual equipe.

Para tornar as coisas mais complicadas, a Toyota vai passar a competir na Indy Racing League, em 2003, dando motivos à Hass para que dificulte os termos da barganha. Além disso, a divisão de F-1 da Toyota é controlada da sede da empresa no Japão, onde as decisões tradicionalmente não são tomadas rapidamente.

O finlandês Mika Salo marcou os únicos dois pontos da Toyota nesta temporada, com um sexto lugar na Austrália e um outro no Brasil. Ele e o britânico Allan McNish foram informados no mês passado que não teriam os seus contratos renovados. O francês Olivier Panis foi contratado para ocupar uma das vagas. Assim como da Matta, o brasileiro duas vezes vencedor do Indianápolis 500, Helio Catro Neves, cresceu sonhando com a Fórmula 1. Ele fez um teste junto à Toyota na semana passada, na França, mas isso foi mais uma cortesia de Roger Penske, cuja equipe vai promover a entrada da Toyota na Indy Racing League.

Minutos após um emocionante final da temporada de Fórmula Indy, quando Castro Neves disputou lado a lado a posição de frente com Sam Hornish Jr., em um tipo de corrida muito diferente da F-1, o brasileiro disse que não poderia deixar escapar a possibilidade de correr na modalidade mais famosa do automobilismo, ainda que as suas chances sejam remotas.

"Eu sempre quis pilotar um carro de Fórmula 1", diz Castro Neves, que afirmou ao jornal The Indianapolis Star que, apesar de ter feito um teste bem sucedido, a Toyota já optou pela contratação de da Matta.

Até onde da Matta consegue se lembrar, as corridas de F-1 são televisionadas nas manhãs de domingo no Brasil, sempre pela Rede Globo.

"A grande diferença entre a Fórmula Indy e a F-1 é a tradição. Nos outros países, a F-1 tem a mesma importância da Nascar nos Estados Unidos. É uma modalidade famosa desde a década de 50", explica.

"A F-1 é mais internacional do que a F-Indy, e, para os brasileiros, isso faz uma grande diferença. Na F-1 tivemos Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna, enquanto que Indy o nosso único campeão foi o Emerson, juntamente com o Gil de Ferran, que atualmente está na IRL".

Da Matta será o quinto campeão da Indy em dez anos a passar para a F-1. Os outros foram Michael Andretti (1993), Jacques Villeneuve (1996), Alex Zanardi (1999) e Juan Pablo Montoya (2001), cada um tendo obtido resultados diferentes com a transição.

Andretti e Zanardi só ficaram na F-1 por uma temporada, antes de retornarem. Villeneuve conquistou um campeonato, mas desde então não teve mais sucesso. Montoya cresce como grande rival de Schumacher.

"As pessoas gostam de dizer que os campeões da F-Indy trocam de modalidade e não se dão bem. Eu creio que talvez isso seja uma versão errônea que existe no meio da F-1. Deixe que eles venham para a nossa categoria e façam umas corridas para que depois conversemos", diz da Matta.

"Você acha que Jacques Villeneuve se esqueceu de como é que se dirige? Não. A diferença em termos de equipamento é que é muito grande. Na F-1, o pessoal sempre acha que é o melhor, no que quer que faça. Eles acreditam que a F-Indy está em um patamar inferior".

O presidente da categoria, Chris Pook, diz que caso alguém encare a modalidade como uma fornecedora de talentos para a F-1, ele não vê nenhum problema.

"Não nos importamos se os nossos pilotos vão para a F-1. Gostamos disso. É algo que conta pontos a favor da nossa modalidade", afirma. "Apenas não queremos que o Bernie Eclestone nos mande os seus pilotos fracassados. Essa possibilidade é que não nos agrada".

As diferenças no grid da Fórmula 1 são medidas em segundos inteiros, e não em centésimos ou milésimos, como da Matta está acostumado a ver na F-Indy. Comparativamente, os orçamentos são astronômicos, e a única forma de superar as discrepâncias é investir tanto quanto ou mais nas maiores equipes.

Mas, da Matta, que foi uma peça fundamental para o rápido crescimento da Toyota na F-Indy, diz que, quando olha para um Fórmula 1, os seus olhos ficam arregalados.

"Aqui, podemos resolver um problema no prazo de um ano. Lá, demora mais", diz ele. "Até mesmo Schumacher demorou alguns anos para chegar no seu nível atual".

"Se eu for para a F-1, não acharei que estarei subindo de status como piloto. Para mim, vai se tratar apenas de um desafio diferente. Nem melhor nem pior. Apenas diferente".

Tradução: Danilo Fonseca

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