Apelo erótico põe em risco a credibilidade de atletas femininas

Paola Boivin
USA Today

Reuters

A tenista russa Anna Kournikova
No mundo do atletismo feminino, a ânsia por uma maior exposição ao público sofreu uma virada inesperada, motivada por uma fonte improvável: as fotografias com apelo erótico.

Repentinamente, em uma arena onde o sucesso é geralmente medido pela força, a altura e a rapidez, a palavra "menos" passou a significar "melhor". Anna Kournikova! Abra espaço para a Associação Profissional de Jogadoras de Golfe (LPGA) e para a Associação Unida de Futebol Feminino (WUSA).

"As mulheres sempre receberam ofertas financeiras para tirar a roupa, portanto, não devemos nos surpreender com o fato de as atletas estarem sendo tentadas da mesma forma", afirma a escritora Mariah Burton Nelson, ex-jogadora de basquete da Universidade Stanford. "O problema é que imagens de cunho erótico de atletas femininas prejudicam o poder, a força e a graça que elas representam como atletas. É algo que diminui a sua estatura como modelos de comportamento".

Muitas ligas de esporte feminino estão utilizando o apelo erótico das jogadoras para vender os seus esportes e aumentar o número de torcedores. Essa abordagem gerou uma polêmica na qual entraram feministas, executivos da Madison Avenue, atletas e representantes de conselhos esportivos.

Uma das ligas que está no centro de tal polêmica, a WUSA, foi objeto de uma recente pesquisa de opinião da Playboy.com, que perguntou aos leitores quais são as jogadoras de futebol mais sexy da WUSA. Heather Mitts, do Philadelphia Charge, foi a vencedora, mas recusou uma oferta para posar nua para a Playboy. Ainda assim, ela causou furou ao aparecer na capa de uma revista de Filadélfia, usando um vestido Versace sumário.

"Creio que o fato ajudou a chamar atenção para o nosso time e talvez até para a liga", diz Mitts. "Por que não ser atleta e feminina ao mesmo tempo?".

As táticas de marketing utilizadas há dois anos pela WUSA estão passando recentemente por um escrutínio, após os executivos terem admitido que enviaram um pacote de mídia para a Playboy.com, incluindo fotos ousadas de várias jogadoras. A WUSA reconhece que poderia lançar mão de um incentivo publicitário. O público para as partidas caiu em 14% desde a primeira temporada, e os jogos nacionais televisados não tem obtido grandes índices de audiência.

"O simples fato de um homem pegar a "Playboy" ou a "Maxim", não me fornece dados que indiquem que ele vá comprar ingressos para a temporada", afirma a socióloga especializada em esportes, Mary Jo Kane, professora da Universidade de Minnesota e diretora da Centro Tucker de Pesquisas sobre Garotas e Mulheres no Esporte. "Ninguém vai encontrar tais dados, simplesmente porque não há nenhum".

A LPGA também passou a ser observada com atenção após um divulgado encontro de jogadoras em março, onde o comissário esportivo Ty Votaw descreveu cinco pontos que determinam a celebridade das jogadoras. Somente um deles tinha algo a ver com golfe.

A indicação foi que a LPGA gostaria de ver mais apelo erótico no esporte. Votaw diz que as coisas não são bem assim.

"A mídia interpretou erroneamente um dos nossos cinco pontos relativos à celebridade", disse ele aos repórteres. "Nós nos referimos à aparência, mas foi anunciado que tudo no que estaríamos interessados seria o marketing do apelo sexual e que esperávamos que as nossas atletas adotassem tal abordagem... A aparência é importante, não como uma questão em si, mas como um subproduto dos outros quatro pontos que determinam a celebridade".

A moda se tornou importante para muitas atletas famosas. Grande parte da mídia parece jamais se cansar da atraente Kornikova e das suas roupas. E a principal tenista do mundo, Serenta Williams, chamou atenção recentemente com ao traje "gata negra" que vestiu no U.S. Open. Muita gente culpa a mídia pela maneira que faz a cobertura das atletas femininas, sugerindo que a aparência muitas vezes adquire um papel mais importante do que as realizações. O número de títulos individuais de Kournikova (zero) parece bastante desproporcional ao excesso de cobertura com que ela conta.

"Eles escolheram mostrar as atletas femininas com base em uma resposta a um ciclo de notícias de 24 horas", critica Kane. "Não é algo relativo aquilo que é melhor para os esportes femininos".

Mas muita gente no mundo esportivo feminino diz não ter problemas com o marketing da aparência física, contanto que se respeitem certos limites. A definição desses limites é que varia.

Terry Patraw, ex-técnica de futebol feminino da Universidade do estado do Arizona, afirma, "A verdade sobre os esportes femininos é que estamos implorando por atenção. Precisamos fazer aquilo que for necessário para divulgar esses esportes... mas é claro que não se pode esquecer da discrição".

Nelson, autora do livro "We Are All Athletes: Bringing Confidence and Peak Performance into our Everyday Lives" ("Somos Todos Atletas: Trazendo Confiança e Performance Máxima para Nossa Vida Cotidiana"), chama atenção para o fato de que os interesses relativos aos negócios e aos esportes não são os mesmos.

"Precisamos ter em mente que a maioria das organizações esportivas femininas são administradas por homens", diz Nelson. "Eles gerenciam um negócio. Esse é o seu interesse, e não os interesses de longo prazo das mulheres, ou os esportes femininos como um todo. Essa é uma polêmica interminável".


Tradução: Danilo Fonseca

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