Após 9 anos, Fórum Social volta ao Brasil, mas Lula dominará debates

Nathan Lopes

Do UOL, em Salvador

  • Wilton Junior - 16.jan.2018/Estadão Conteúdo

    O ex-presidente Lula deve discursar em evento durante o Fórum em Salvador

    O ex-presidente Lula deve discursar em evento durante o Fórum em Salvador

Marcado para começar nesta terça-feira (13), o Fórum Social Mundial verá sua agenda de discussões ser sobreposta por atividades políticas do PT. Em meio à indefinição sobre a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a possibilidade de ele ser preso, o partido irá levar uma reunião da Executiva Nacional para Salvador, sede do Fórum neste ano, e montará uma tenda para debater temas que farão parte do plano de governo do partido para o Planalto. Lula é esperado no evento na quinta-feira (15).

Levar a Executiva para a capital baiana é um ato de "respeito" ao Fórum, diz o coordenador-executivo Renato Simões, membro da Executiva petista. E o ato ainda deve ganhar mais peso político após a operação da PF (Polícia Federal), em fevereiro, contra o ex-ministro Jaques Wagner (PT), principal liderança baiana.

"Embora a decisão [de levar a Executiva à Bahia] seja anterior a essa operação policial em Salvador", pontua. "Também tem um peso importante a solidariedade que o PT dá ao governo da Bahia."

A expectativa é que o Fórum, que chega a sua 13ª edição e volta ao Brasil após nove anos, atraia cerca de 60 mil pessoas de cerca de 120 países, segundo os organizadores. Ligado a setores da esquerda, o evento, sob o lema "Resistir é criar, Resistir é transformar!", tem como um dos objetivos enfrentar do "neoliberalismo a golpes antidemocráticos". "A evolução da economia está se tornando incompatível com a democracia", avalia Damien Hazard, um dos organizadores do evento.

"Fórum não é partidário"

Presidente da Fundação Perseu Abramo, que será responsável pela tenda, Márcio Pochmann rejeita a tese de que o Fórum será dominado por discussões do partido. "Não é um fórum do PT. Acho que isso é reduzir a dimensão do Fórum."

Hazard ressalta que os partidos políticos não têm protagonismo no Fórum, mas entende que, no momento, o contexto eleitoral é importante para o debate da democracia e vai alimentar a discussão. "Vai colocar luzes sobre o Fórum, não tenho dúvidas. Mas não acho que a presença de Lula, Dilma [Rousseff] vá partidarizar o Fórum." 

Além dos petistas, também participam do Fórum representantes de PDT, PCdoB e PSOL, todos ligados à esquerda. As fundações dos cinco partidos, lançaram, em fevereiro, um manifesto em que pedem, entre outros pontos, a "restauração da democracia" e a "defesa da soberania nacional, contra as privatizações".

Os pré-candidatos a presidente por PCdoB e PSOL, Manuela D'Ávila e Guilherme Boulos, respectivamente, devem participar do evento. Já a ida de Ciro Gomes, do PDT, não é certa.

Para o ex-ministro Manoel Dias, presidente da Fundação Leonel Brizola-Alberto Pasqualini, ligada ao PDT, não há problema em haver um protagonismo do PT. "Pelo contrário, o que tem nos motivado a nos reunirmos é essa situação a partir do golpe", disse, em referência ao processo de impeachment contra Dilma Rousseff em 2016.

As ações contra Lula e sua candidatura ao Planalto não têm como ser ignoradas, avalia Renato Rabelo, presidente da Fundação Maurício Grabois, do PCdoB. "Vai ser uma questão que vai ter uma posição muito forte no Fórum. Isso está sendo repercutido mundialmente". 

Para Francisvaldo Mendes de Souza, presidente da Fundação Lauro Campos, do PSOL, seria ruim o Fórum ficar concentrado apenas nas questões envolvendo Lula. "Isso mataria a esperança de envolvimento político mais amplo", avalia. "O Fórum é muito mais amplo do que o direito de Lula ser candidato. Ele tem que ser uma preocupação com o pobre, com o excluído, com o desempregado, com todo tipo de perseguição".

As atividades serão realizadas entre 13 e 17 de março. O primeiro evento será uma marcha de cerca de quatro quilômetros a partir do Campo Grande até a praça Castro Alves, um dos principais pontos da capital baiana. "O Fórum busca dar vozes aos sem vozes e busca a convergência entre os movimentos, a unidade na diversidade", pontua Hazard, que prevê intensos debates sobre o fenômeno das migrações pelo mundo.

Salvador, inclusive, foi escolhida por ser a maior cidade negra fora da África, representando a ideia de relações sociais entre os continentes. "Espero que um dos legados do Fórum seja uma agenda de discussões posteriores", projeta Hazard.

Participação de Lula

O principal evento do Fórum está marcado para a noite de quinta-feira, quando Lula deve participar da Assembleia Mundial em Defesa das Democracias. Promovida pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, a assembleia focará no que o partido tem classificado como "perseguição política" sofrida por petistas.

"Não há dúvida que o Fórum estará mobilizado sobre essa estratégia golpista que alijou do poder a presidente Dilma e quer impedir agora o presidente Lula de disputar a eleição", diz Simões. A presença de Dilma também é esperada no evento. 

Nossa expectativa é aproveitar esse momento de efervescência para, em primeiro lugar, repercutir nacional e internacionalmente a denúncia do golpe, da perseguição judicial e política ao presidente Lula

Renato Simões, coordenador-executivo do programa de governo do PT

O Fórum, porém, acontece em meio à expectativa sobre quando o TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região) irá julgar o recurso que pode ter como consequência a ida de Lula à prisão. Ainda não há data para que isso aconteça. "Vai que o TRF-4 conclua, decida e peça a prisão. Aí, na quinta-feira, a Polícia Federal vai lá prender o Lula em Salvador. Quando o Fórum foi pensado, jamais se imaginou essa perspectiva", pontua

Espero que deixem o povo me julgar na eleição, diz Lula

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