Ciro diz que PT precisa de "intriga" entre ele e Lula até a eleição

Mirthyani Bezerra

Do UOL, em São Paulo

  • HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO CONTEÚDO

    14.mar.2018 - O pré-candidato à Presidência da República pelo PDT, Ciro Gomes, ministra palestra na Amcham, em São Paulo

    14.mar.2018 - O pré-candidato à Presidência da República pelo PDT, Ciro Gomes, ministra palestra na Amcham, em São Paulo

O pré-candidato à presidência Ciro Gomes (PDT) disse estar com o "coração doído" com a intriga que, segundo ele, vem sendo construída entre ele e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ele afirmou nesta quarta-feira (14) que a "burocracia do PT" precisa dessa intriga para manter o capital político do ex-presidente intacto até que ele seja "removido" da corrida eleitoral.

Lula foi condenado em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex do Guarujá (SP) e, em tese, está inelegível pela lei da Ficha Limpa. Seu caso, porém, ainda será analisado pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral). O PT já anunciou Lula como pré-candidato à corrida presidencial e, oficialmente, diz não haver um plano B para o caso de a candidatura do ex-presidente ser barrada.

As declarações foram dadas por Ciro após evento na Amcham (Câmara Americana de Comércio), em São Paulo, ao comentar as críticas feitas a ele por Lula no livro "A verdade vencerá: o povo sabe porque me condenam", que será lançado na sexta-feira (16) em São Paulo.

"Existe uma usina de intriga nessa área e eu estou com o coração muito doído com o que está acontecendo, porque há uma certa frieza que chega a ser cruel. O Lula para mim não é um mito, não é uma figura distante, é um velho amigo de muitos anos", disse.

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Ele afirmou que há dois motivos para a "intriga": o medo de que a esquerda se una para enfrentar a atual agenda neoliberal da direta e e a manutenção do capital político de Lula, por parte do PT. O ex-presidente atualmente lidera as principais pesquisas de intenção de voto nos cenários em que é testado. 

"A própria burocracia do PT, parte dela, precisa dessa intriga para tentar manter o capital político do Lula intacto até o dia que, ele sendo removido - porque todo mundo acredita que será e isso é muito doído, muito injusto -, fará um 'dedaço' transferindo toda a sua generosa popularidade merecida [de Lula] para esse indicado novo", disse.

Recentemente, Ciro afirmou que é "mais fácil um boi voar" que o PT apoiar um nome de outro partido para a Presidência.

No livro, Lula afirma gostar de seu ex-ministro, mas insinua uma certa arrogância dele. "Só acho que o Ciro faz parte de um grupo seleto de pessoas que sabem tanto das coisas que nem perguntam para a gente 'como vai?', porque já sabem como a gente vai." Para Lula, Ciro é "inteligente até certo ponto, porque, se fosse inteligente mesmo, estaria defendendo o PT, se acredita que não vou ser candidato." Segundo o ex-presidente, "ninguém será candidato pela esquerda sem o apoio do PT."

Nesta quarta, Ciro disse não ser "crítico do PT", mas sim do modelo econômico adotado pelos governos petistas ao logo de 13 anos, e afirmou que responde às "intrigas" lembrando que há 16 anos tem estado ao lado de Lula.

"Eu sou crítico não é do PT, sou crítico do modelo econômico, da modelagem que foi feita, da forma como se facilitou a chegada de quadrilheiros ao poder a ponto de botar Michel Temer na vice [presidência]. Mas, o que eu tenho dito para enfrentar essa intriga é que faz 16 anos que eu ajudo o Lula, e isso é realidade, o resto é...", disse sem completar a frase.

"Como posso querer Marina de vice se ela é maior que eu?"

Dois dias após dizer ao UOL que marcaria uma conversa com a também pré-candidata ao Planalto Marina Silva (Rede) e que uma chapa com ela seria um "dream team 2" (time dos sonhos, em inglês), o pedetista afirmou hoje que não acredita ser possível contar com ela como vice.

"As pessoas perguntam 'o que você acha da Marina?'. Acho a Marina uma pessoa honrada, muito querida, fui colega dela, tenho respeito e estima pela Marina. Mas como eu posso querer a Marina de vice se ela é maior do que eu?", disse.

Ciro também negou ter procurado o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad para ser seu vice. "Me perguntaram 'o que o senhor acha do Haddad de vice'. Eu digo que acho bonitinho. O que é que eu vou dizer? Mas nunca esteve na minha cogitação ter Haddad como vice. O PT na minha convicção lançará candidato e é natural que o faça".

O pré-candidato sinalizou, no entanto, que tem conversado com lideranças do PSB no sentido de compor a sua chapa à Presidência da República. "[Com o PSB] estou conversando amiúde, estou conversando com todo mundo que você considerar da direção do PSB. Lembre que eu vim daí. Saí pela porta da frente, por discordância política, mas guardo ali amizades profundas com todo mundo", afirmou.

Tom conciliador em fala a empresários

Também dois dias após afirmar que jamais assinaria um documento com compromissos ao mercado como a "Carta ao Povo Brasileiro", feita por Lula em 2002, Ciro falou sobre economia e comércio exterior para uma plateia de empresários no auditório da Amcham, em São Paulo. 

Antes da sua fala, foi apresentado um documento com uma série de reivindicações do empresariado para o próximo governo. Ciro disse que se for eleito levará em consideração o exposto, "com os devidos créditos", e que voltaria para discutir antagonismos, em tom conciliador. 

"Mesmo para os que que me criticam eu gosto de ganhar a confiança de quem não gosta de mim", disse. Ele afirmou ainda que prefere "passar de doidão, mal compreendido". "Meus amigos reclamam, dizem 'tem falar para o povão, vai fazer o que na Amcham? Só vai levar porrada, só vai se explicitar', brincou, acrescentando que está aberto ao debate. "Vamos debater os números. Se estão errados, vamos debater", disse.

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