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Aécio deixa governo de MG para se tornar o fiel da balança do PSDB nas eleições

Rayder Bragon<BR> Especial para o UOL Notícias

Em Belo Horizonte

31/03/2010 07h20

Depois de sete anos e três meses como governador de Minas Gerais, o tucano Aécio Neves transmitirá o cargo nesta quarta-feira (31) à tarde para se tornar um dos personagens centrais do PSDB na eleição majoritária deste ano. O partido tem o governador de São Paulo, José Serra, como pré-candidato para a disputa do Planalto.

Haverá uma solenidade na manhã de hoje na Assembleia Legislativa de Minas Gerais para a posse do vice, Antônio Anastásia, e à tarde, no Palácio da Liberdade, ex-sede do governo do Estado, uma cerimônia encerra o governo de Aécio.

Desligado do cargo, a participação de Aécio durante a campanha de Serra será crucial para uma eventual vitória ou derrota do tucano, avaliam especialistas. Além da ajuda na campanha nacional, Aécio tentará garantir uma vaga no Senado e emplacar Anastasia como seu sucessor. O vice vai concorrer contra a aliança de PT e PMDB, cuja indicação vai ser disputada pelo peemedebista Hélio Costa (Comunicações) e os petistas Fernando Pimentel, ex-prefeito de Belo Horizonte, e Patrus Ananias, ministro do Desenvolvimento Social.

“Aécio Neves tem papel fundamental por ser um dos governadores mais bem-avaliados do país e com aprovação recorde da população do 2º maior colégio eleitoral do Brasil. Mas devido ao desgaste que os dois [Serra e Aécio] tiveram em relação à disputa travada, eu não sei em qual medida ele vai assumir de fato essa campanha [de José Serra]”, afirma Malco Braga Camargos, doutor em Ciência Política e professor da PUC-MG (Pontifícia Universidade Católica de MG).

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“A desistência dele da postulação em ser um dos pré-candidatos do PSDB à sucessão presidencial foi claramente uma saída de quem não estava satisfeito com o rumo das decisões. Ele, aparentemente, não contou com apoio do partido”, resume Francisco Fonseca, cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, para quem Aécio já é o nome da oposição para 2014, em caso de um revés de Serra na eleição deste ano.

“Ele tem um papel crucial dentro do seu partido e no jogo político como um todo. Mas uma derrota do José Serra o fortalece, porque ele seria naturalmente o próximo candidato da oposição daqui a quatro anos. Com uma vitória de Serra, ele posterga esse cenário para talvez oito anos, se contarmos com uma possível reeleição, o que é muito tempo em política. Então, é algo paradoxal”, diz Fonseca.

Em sua análise, a cientista política Helcimara Telles, professora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), afirma que o Estado terá peso relevante na eleição de 2010.

Para ela, a ministra Dilma Rousseff, pré-candidata do PT, conseguirá “construir uma muralha” no Nordeste, região na qual o presidente Lula tem alta popularidade. Já Serra conseguiu fincar posições em São Paulo e no Sul do país, afirma.

“Quem tende a desequilibrar esse jogo a favor de algum deles é justamente o eleitorado de Minas Gerais. Mas não sei se o Aécio Neves vai comprar a camisa de Serra, já que foi derrotado internamente por ele no partido. Não acredito que em Minas tenhamos um eleitor com identidade com o PSDB de Serra. Temos eleitores que gostariam que o Estado voltasse ao centro do poder. Eu acho pouco provável que o eleitor ‘aecista’ venha a apoiar José Serra, que foi responsável pela derrota da candidatura de Aécio Neves”, avalia.

Gestão
A gestão de Aécio Neves frente ao governo estadual fica marcada pela retomada do crescimento econômico mineiro, a modernização administrativa e a recuperação da importância política do Estado no tabuleiro nacional. Já o pouco investimento na área social foi um ponto negativo, avalia Malco Carmargos.

“Ele introduziu uma nova forma de governar o Estado que agradou muito ao eleitorado mineiro. Aécio Neves trouxe uma modernidade administrativa, mas isso não quer dizer que o governo dele tenha sido excelente. Ele não lidou bem com as mazelas sociais do Estado, principalmente nas áreas da saúde e educação”, diz.

O cientista político cita, porém, que Aécio reabilitou o papel político de Minas no cenário nacional ao tentar se cacifar como candidato tucano à sucessão de Lula.

De acordo com Francisco Fonseca, uma das marcas da gestão do governador foi a reforma administrativa. Com isso, ele conseguiu chamar a atenção nacional para si e para Minas.

“A disputa que ele travou com Serra só pôde ser feita porque de fato os quase oito anos que esteve à frente do governo tiveram o sentido de não apenas cumprir um plano de governo, mas tentar fazer de Minas Gerais uma vitrine. Isso o qualificou a tentar um salto maior”, afirma Fonseca.