Gravações da cúpula do PMDB revelam "ética pervertida", diz Romano

Hanrrikson de Andrade

Do UOL, no Rio

  • Alan Marques/Folhapress

    Senadores Romero Jucá, José Sarney e Renan Calheiros durante jantar da bancada do PMDB

    Senadores Romero Jucá, José Sarney e Renan Calheiros durante jantar da bancada do PMDB

As conversas entre o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado e caciques do PMDB, os senadores Romero Jucá (RR), Renan Calheiros (AL) e José Sarney (AP), revelam que a política brasileira acompanha uma "ética pervertida" e baseada no "privilégio e no menoscabo do cidadão comum".

Essa é a opinião do professor de ética e filosofia Roberto Romano, titular da Unicamp (Universidade de Campinas, em São Paulo). Em entrevista ao UOL, o acadêmico afirmou que o sistema político no país está "atrasado pelo menos quatro séculos".

A repercussão sobre as gravações das conversas entre os políticos, divulgadas em reportagens da "Folha de S. Paulo" publicadas na terça-feira (24) e na quarta (25), provocou a queda de Romero Jucá do cargo de ministro do Planejamento.

Além de Jucá e Renan, o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) também foi gravado em conversa com Machado. Ele prometeu ao ex-presidente da Transpetro que poderia ajudá-lo a evitar que seu caso fosse transferido para a vara do juiz federal Sérgio Moro, em Curitiba (PR), mas "sem meter advogado no meio".

Machado conseguiu com isso a homologação de sua delação premiada pelo STF (Supremo Tribunal Federal), já que traz citações a políticos investigados na Operação Lava Jato, e será remetido à PGR (Procuradoria-Geral da República). Com base nos novos elementos, o procurador Rodrigo Janot pode, inclusive, pedir a abertura de novos inquéritos.

Romano afirma que as conversas gravadas por Machado, interlocutor dos senadores do PMDB, mostram que "a política brasileira funciona segundo os preceitos de uma ética pervertida, antirrepublicana e antidemocrática e que tende a valorizar a ação dos detentores ocasionais do poder, e não os interesses mais amplos da sociedade".

"Quando você tem uma ética baseada no privilégio, no menoscabo do cidadão comum, sem democracia e com legisladores que fazem a lei de acordo com seus próprios interesses, só se pode esperar esse tipo de comportamento típico da razão de Estado do século 17."

No Brasil, nós estamos atrasados pelo menos quatro séculos

O filósofo declarou ainda que ações como a Operação Lava Jato ajudam a desconstruir a "ideia do segredo", isto é, fatos e diálogos sigilosos que ficam restritos aos bastidores da política.

"Essa ideia do segredo é fundamental para a razão de Estado. Segundo esse pensamento, quem manipula a máquina tem direito ao segredo. Esse ponto faz com que tenhamos, no Brasil, um funcionamento quase paralelo da vida política em relação ao contexto social", disse.

Pouco a pouco, a cidadania adquiriu instrumentos para verificar o que está ocorrendo nos corredores dos gabinetes e palácios. É isso que está fazendo com que coisas venham à tona, coisas que antes permaneceriam séculos em segredo. São instrumentos que foram arrancados dos políticos, até porque eles não queriam. Eles obstaculizaram o quanto puderam, mas foram obrigados a ceder

Ilusão de Renan

Em um trecho da gravação, Renan afirma que a delação premiada feita por pessoas que já haviam sido presas é uma forma de "tortura" e que "toda a sociedade compreende isso". Para Romano, porém, a visão do presidente do Senado é ilusória.

"A maior ilusão, sobretudo para alguém que veio da esquerda, como o Renan, é achar que a população ficará indignada com a 'tortura' dos pobres políticos. Pelo contrário. Quanto mais delação, prisão e condenação, mais o povo vai aplaudir", disse. "Você tem uma longa tradição de lamento e queixume sobre os excessos dos operadores do Estado brasileiro. Quando começa a operação Lava jato com essas delações, o povo aplaude, mesmo nos setores de esquerda."

O professor declarou, por fim, acreditar que os novos elementos que surgiram nesta semana fortalecem a tese de que houve um "golpe" no processo de impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff (PT). "Isso traz muita água para o moinho da tese do golpe. Você tem artigos no 'Guardian', no 'New York Times'... É clara a aceitação da versão do golpe", afirmou.

"De certo modo, do ponto de vista simbólico, o governo Temer perde muito em termos de retórica pública. Embora não seja a mesma coisa, pode trazer água para esse moinho. Todos esses eventos recentes ilustram a ideia de que houve uma preparação para o impeachment, ou seja, uma conspiração. Pode ser um obstáculo para a legitimação do governo Temer", finalizou.

Ouça trechos das conversas de Jucá

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Em gravação, Renan defende mudar lei da delação premiada

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